segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O Uirapuru e o seu canto que trás felicidade


"Quando o sol pende do zenith e a floresta aquecida rescende a todas as essências preciosas, que são o hálito e a fragrância da seiva rica de muitos vegetais, o Uirapuru aproxima-se das estradas ou das clareiras abertas no matagal sem fim, e desprende as primeiras vibrações, que atraem, reúnem e selecionavam uma assistência imensa de vates emplumados, alguns dos quais tomam parte no concerto, como figuras combinadas em afinações naturais, que formam e disciplinam encantadora orquestra voejante.
Então, começa prestes, a execução das melodias estranhas, que nos chegam como ondas de harmonias, que etéreos fluídos trouxessem dos céus, para se espiritualizarem, sob a abóboda verde do arvoredo.
Mas, daquela melopea excelsa, que se estende por uma, duas e mais horas seguidas, e mesmo quando principia em conjunto, após instrumentação garganteada em coro com outros artistas alados, a meio, em diante, somente se ouve o sopro flautado, enlevante, do músico-cantor inexcedível que, nesse momento, nem mais parece uma criatura da terra, porém, um gênio dos contos de fadas, tocado pela varinha miraculosa e inspiradora.
E a canção melodiosa derrama-se por grande extensão do bosque, transpõe balsedos e campinas e, seringueiros, caucheiros, castanheiros, vaqueiros, agricultores, mateiros simples, caçadores ou visitadores da floresta, que a ouçam, todos param, embevecidos, enlevados, para melhor continuar a eutímica audição daquelas notas sonoras, em cujos acentos e magias divinais, se prendem, encantados, enfeitiçados, felizes!
Tudo, então, naquele trato da mata, se embriaga nos eflúvios musicais da sinfonia cariciosa e vive tão somente para ouvi-la, escutá-la, morrer com ela!
As próprias árvores parece que se enlevam nos acordes da consonância insólita e benéfica!
O canto do sabiá, os gorjeios do gaturamo, as notas cristalinas da graúna, o cantar ameno dos caboclinhos, a melodia inspirada dos nossos rouxinóis, o soluço da juriti e o das rolas, as suaves modulações do azulão, as vibrações metálicas da araponga, rapsódias e cantos inéditos, ainda nunca ouvidos, no mundo das aves, tudo o Uirapuru seleciona, diviniza, e entresaca nas partituras sublimes, que ele garganteia inspirado como se tivesse no peito um instrumento do céu!
E é por isso que o seu canto trás a felicidade e a fartura nos lugares por onde se desprende. [...]". Aldo Guajará. De Bubuia: aspectos e assumptos regionais paraenses: Folk-lore. 1925, p. 136-137.
 
 
 
Uirapuru.
 Ilustração de John Gerrard Keulemans (1842-1912)


sábado, 17 de dezembro de 2016

As aves nos rios florestados


"Descer um dos rios florestados brasileiros é uma bela experiência, mas é nos seus braços secundários, remansos, restingas e portos que o observador de aves terá mais sucesso. Um rio não apresenta só aves ribeirinhas, e você deve ficar atento às espécies que cruzam de uma margem para outra, ou seguem o curso do rio para se deslocarem mais facilmente.
Em todas as barrancas altas, as Arirambas (Martins-pescadores) perfuram suas tocas; são também, muito vistas em voo, sempre pelas margens. A Andorinha-de-rio e a Andorinha-buraqueira, são duas espécies comuns, entre outras, que estão sempre voando sobre a água, pegando insetos; a Andorinha-buraqueira faz, como as Arirambas, buracos nas barrancas, onde se aninha.
Os Biguás-pretos aparecem pousados  nas árvores das margens e os Biguás-brancos mostram seus pescoços fora d´água; a Garça-branca-pequena é a única das garças que é vista com facilidade nesse ambiente. Japus e Japiins passam em pequenos bandos, principalmente nas regiões onde são abundantes. Onde há caniços e outras plantas semelhantes nas margens, você verá muitos Anuns-corocas, a qualquer hora do dia. Se você tiver bastante sorte, ainda verá uma Cigana amazônica, na vegetação das margens. [...]. Deodato Souza. Aves do Brasil. 2004, p. 127.
 
 
 
Guaxe - Japiim - Japu
J. Th. Descourtilz. História natural das aves do Brasil. 1983
 


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Tesouros botânicos


"Uma vegetação totalmente diferente, de uma exuberância e selvagidade autenticamente tropical recebeu-nos aqui. Árvores de folhagem, de um tamanho gigantesco nunca visto erguiam-se para o infinito. Na base dos troncos retos como velas, de uma circunferência monstruosa, corriam para todos os lados raízes em forma de paredes, que nós devíamos ultrapassar.
Nas esguias palmeiras de paxiúba, que com numerosas raízes aéreas se agarravam no solo, trepavam os filodendros com folhas largas, e outros parasitas subindo para o alto.
Em cada racha das árvores, em cada galho seco, em toda a parte onde poderiam  encontrar um pouco de alimento, tinham se aninhado as mais diversas orquídeas. Quantos tesouros botânicos estavam abrigados nestes desconhecidos trópicos selváticos!" Theodor Kock-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas: viagens n noroeste do Brasil (1903-1905). 2005, p. 238-239.
 
 
Orquídea.
Pintura de Martin Johnson Heade (1819-1904)


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Estreito de Breves: um labirinto maravilhoso


"[...]. Ao dia seguinte, começamos a atravessar os estreitos de Breves.
São um labirinto maravilhoso.
Tinham-me feito uma observação que verifiquei: as gaivotas que nos acompanhavam, esteira afora, ficaram para trás. Nenhuma transpôs a entrada de Breves. Medrosas, voltaram em busca dos seus lugares prediletos. Por que esse fato? Sabe lá alguém o motivo de quantas idiossincrasias de certas aves?
A estrada que o navio corta tem a largura de poucos metros. Mais vasta aqui. Mais estreita lá adiante.
As canaranas e os mururés rolam na correnteza, como ilhas flutuantes. Paus decepados, galhos ainda verdes, pedaços de troncos são tangidos na onda, de bubuia...
Nas margens, a vegetação, numa exuberância pasmosa, varia, num crescendo espantoso, desde a aninga, um capim tenro, o buriti, a semelhar a carnaúba, até a samaumeira gigantesca e perfilada imponentemente, espiando as águas barrosas, que correm na ânsia de precipitar-se no Oceano". Raimundo de Menezes. Nas ribas do rio-mar. 1928, p. 175-176.
 
 
Sumaúma (Ceiba pentandra)
Louise von Panhuys. Watercolours of Surinam (1811-1824), t. L21 (1813)
www.plantillustrations.org



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A confecção dos alimentos


"Grande também era a azáfama no alpendre reservado à confecção de alimentos, onde as mulheres se agitavam às voltas com raladores, urupemas, pilões, fornos e tipitis. Umas manipulavam a mandioca, fazendo as farinhas-d´água e de carimã, e também beijus, tapioca, arubé e tucupi. Outras preparavam conservas de peixe, mixiras e piracuí, reservadas especialmente para a época das águas, quando escasseiam a caça e a pesca. Mais adiante, algumas velhas secavam favas de baunilha e guardavam-nas no óleo de castanha de caju, que lhes reteria o perfume. Havia ainda a dependência destinada à extração e envasamento dos vários óleos vegetais, de bacaba, ucuúba, andiroba e outros". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia misteriosa. 1957, p. 103-104.
 
 
Mandioca.
Brasilien Entdeckung und Selbstentdeckung. 1992.
Albert Eckhout. 1640.


sábado, 26 de novembro de 2016

Sapopemas


"Pouco a pouco cai um aguaceiro; paramos sob uma grande árvore e aproveitamos o tempo para almoçar. Poder-se-ia acampar muito confortavelmente entre essas raízes; os índios chamam-nas sapopemas, grandes contrafortes achatados, que se expandem de todos os lados por duas ou três jardas e que sobem contra o tronco até o dobro dessa distância. Não sei de que espécie é; uma samaúma muito provavelmente, mas muitas das árvores da floresta têm sapopemas, grandes ou pequenas; suportes que impedem a queda da árvore. Ás vezes, os índios cortam porções de sapopemas e usam-nas como pranchas grossas; frequentemente constroem cabanas encostadas ao tronco dessas árvores, e usam as sapopemas como paredes". Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 162.
 
 
 
 
Árvore com sapopemas
Pintura de Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

domingo, 20 de novembro de 2016

A vegetação do Purus


"A flora epífita aqui caracteriza o mato muito menos do que nas florestas da zona marítima do Brasil oriental. As orquídeas são na verdade numerosas, mas as bromélias escasseiam; e as tilandsias que com longas barbas ou flutuantes véus pendem das florestas virgens do Espírito Santo, do Paraná e de Santa Catarina, faltam aqui quase completamente.
Nas citadas províncias também se vêm muito mais Passifloras (Maracujás), Fetos e Bambuseas. Sucede, pois, que para o viajante leigo na botânica a vegetação do Purus, apesar de grandiosa, vai tomando com o tempo uma feição de monotonia, e vai-se tornando sensível numa certa falta de variedade em formas e matizes nessas compactas massas de verdura [...]". Paulo Ehrenreich (1855-1914). Viagem nos rios Amazonas e Purus. Revista do Museu Paulista, t. 16,  p. 305, 1929.
 
 
 
Mormodes amazonicum (Orchidaceae).
Margaret Mee (1909-1988). In search of flowers of the Amazon Forests. 1989.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna -Museu Goeldi


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O esplendor do cenário tropical


As descrições gloriosas de Humboldt são e serão sempre sem paralelo; mas mesmo ele, com seus céus azul-marinho e a rara união de poesia com ciência que exibe com tanta força ao escrever sobre o cenário tropical, com tudo isso, não chega perto da verdade. O deleite que se sente nessas horas confunde a cabeça; se tenta acompanhar os voos de uma chamativa borboleta, a vista é detida por alguma árvore ou fruta estranhas; se está observando um inseto, a pessoa esquece dele na flor estranha por onde anda; se se volta para admirar o esplendor do cenário, a característica individual do primeiro plano prende a atenção. A cabeça, é caos e deleite dos quais surgirá um mundo de um prazer futuro mais calmo. No momento só estou preparado para ler Humboldt; ele como outro sol, ilumina tudo que vejo.

Charles Darwin (1809-1882)
 
 
 
Annona muricata.
 Maria Sybilla Merian (1647-1717).


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Uma viagem pelo Solimões


"Quando acordei na manhã seguinte, avançávamos ao longo da margem esquerda do Solimões com a ajuda da espia. A estação da chuvas se implantara na região banhada pelo grande rio; os bancos de areia e todas as terras baixas já se achavam alagadas, e a forte correnteza, de três ou quatro quilômetros de largura, passava levando uma infindável série de árvores arrancadas e de ilhas flutuantes. As perspectivas eram melancólicas; não se ouvia outro som a não ser o surdo murmúrio das águas; as margens ao longo das quais viajávamos o dia todo mostravam-se atravancadas de árvores caídas, algumas delas com a ramagem flutuando tremulamente na correnteza ao redor de pequenas pontas de terra. As mutucas - uma velha praga já nossa conhecida - começavam a nos atormentar tão logo o sol esquentava pela manhã. Garças brancas podiam ser vistas em profusão à beira da água, e em alguns lugares bandos de beija-flores zumbiam ao redor das flores. O desolado aspecto da paisagem tornava-se ainda mais acentuado quando o sol se punha e a lua surgia envolta em bruma". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 192.
 
 
 
Garça (Egretta thula).
John J. Audubon (1785-1851)



terça-feira, 1 de novembro de 2016

A vegetação da Hiléia Equatorial


"Um passeio de bote pelo mato inundado oferece as mais maravilhosas impressões deste mundo a parte. Aqui desenrola-se em prodigiosa grandeza e luxuria a vegetação da Hiléia equatorial, cada vez mais nova, singular e deslumbrante aos olhos do europeu.
Depois que o bote abre caminho por entre maciços de uma cana aquática e de Caladium (vulgo tinhorão), que de envolta com espinhosas mimosáceas guarnecem as margens, espera-nos a surpresa de não achar no mato que fica atrás nem um palmo de terreno enxuto. Árvores, trepadeiras e água a perder de vista. O mato rasteiro aqui não tem espessura, a profunda sombra das grandes árvores lhe tolhe o crescimento; tanto mais numerosos e possantes são os cipós que a guisa de grandes correntes prendem as árvores uma a outra, e as compridas raízes aéreas que, como  fortíssimas cordas, pendem dos potos abaixo, embaraçando continuamente as manobras do bote. [...]". Paulo Ehrenreich (1855-1914). Viagem nos rios Amazonas e Purus. Revista do Museu Paulista, São Paulo, t. 16 p. 301-302, 1929.
 
 
 
Caladium bicolor (Aiton) Vent. var. verschaffelti
Curtis’s Botanical Magazine, (1861)


sábado, 29 de outubro de 2016

Uma noite agradável


"Começando a anoitecer, dirigi-me pela restinga pedregosa que forma o canal, aí então totalmente seco, e me dirigi para a praia onde ficara a canoa. Quando aí cheguei, já a minha rede estava armada em duas magníficas árvores, e junto dela a minha arma de dois canos. Na parte mais sombria da floresta, num ponto de onde se avistava a canoa, o meu piloto escolheu para nossa dormida.
A frescura, o som nunca interrompido da cachoeira, a lua que magnífica ecoava sua luz por entre a folhagem, o cri-cri-cri dos insetos e a voz sonora de um caprimulgus que animava a natureza, fizeram-me gozar de uma das noites mais belas da vida nas regiões equatoriais.
Ao romper d´alva do dia 13, os cantos e gritos de bandos de araras, papagaios e maracanãs, que por sobre a minha cabeça passavam para irem para a comedia vieram despertar-me. Uma frescura agradável me convidava a um passeio, pela mata, o que fiz, aproveitando o tempo em que às costas se carregava a bagagem para a praia da mesma ilha oposta à em que eu dormira e acima da cachoeira do Coatá. Pelas 8 horas, porém, tive de embarcar para descer o canal, por onde na véspera subira, para entrar na cachoeira". J Barbosa Rodrigues (1842-1909). O Rio Tapajós. 1875, p. 90.
 
 
 
 
João Barbosa Rodrigues
(1842-1909)
Desenho de M. Medina



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pequeninos e mimosos colibris


"[...]. Um vento suave fazia ondular as canaranas à margem do rio e as copa das árvores pareciam inundadas pela luz do sol, anunciando uma jornada de intenso calor. Dentro da mata ribeirinha a algaravia de inúmeros pássaros canoros, chegava aos nossos ouvidos como um grande coro de gorjeios, a espaços mesclados aos pios das grandes aves, como mutuns, os jacamins, os aracuãs, as formidáveis arapongas (verdadeiros ferreiros das florestas) e tantas outras. E, onde existisse uma flor, a todo o instante aí surgiam os pequeninos e mimosos colibris, de variadas cores brilhantes, delicadas e formosas avezinhas que são um encanto da Natureza, a esvoaçarem rápidas, ligeiras, em torno das flores cujo néctar suga com os seus longos e pontudos biquinhos, pairando a intervalos como se estivessem flutuando no ar, dando-nos a aparência duma absoluta imobilidade, traída somente pelo ruflar elétrico daquelas minúsculas asinhas... invisíveis motores celestiais. Para além, emergiam do brilhante espelho das águas as rudes cabeças dos terríveis sáurios, cujos corpos escuros semelhavam ilhotas ou troncos de árvores arrastados pela correnteza". Eduardo Barros Prado. Eu vi o Amazonas. 1952, p. 298-299.
 
 
 
Colibris
 Campylopterus obscurus.
John Gould. A Monograph of the Trochilidae or Family of Humming Birds. 1855-1861.


domingo, 23 de outubro de 2016

As arirambas de jaqueta verde


"[...]. E começa a luta pela vida. Passam alto os bandos de marrecas, irerês, os casais de patos, e ainda mais madrugadores, toda a barulhenta família dos psitacídeos.
Os macacos voltam a sacudir os galhos, espiando-nos inquietos e curiosos. As arirambas de jaqueta verde e colarinho branco, passam chiando a intervalos regulares, e vão pousar em galho horizontal a pouca altura, perscrutando  a água na expectativa de quebrar o jejum. Os botos róseos ou iaras mal afamados, surgem resfolegando, no seu característico modo de nadar. As monstruosas piraíbas, dão saltos espetaculares, tombando num lençol de espuma e deixando na superfície, a estenderem-se por dezenas de metros, a sucessão de círculos concêntricos. Francisco de Barros Junior (1883-1969). Caçando e pescando por todo o Brasil. 5a. série Purus e Acre, [s.d.]. p. 41-42.
 
 
 
Ariramba ou Martim-pescador
Eurico Santos. Da ema ao beija-flor. 1979.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


domingo, 16 de outubro de 2016

Um concerto discordante de perfumes e cores



[...]. Na frente do sítio, num terreno geralmente varrido, limitado no fundo pela casa e dos lados pelo rancho do forno e pelo tendal, cresciam algumas árvores frutíferas e arbustos floríferos, como laranjeiras, um pé de sapotilheira, um outro de cupuaçuzeiro, jasmineiros brancos e de Caiena, um coqueiro cujos cocos eram exclusivamente consagrados a Santo Antônio, e uma cuieira copuda, ameaçando com seus enormes frutos esféricos a segurança de uma canoa velha erguida do chão por quatro paus, cheia de terra, onde cresciam, como num canteiro suspenso, melindres, malmequeres, manjeronas, trevos, perpétuas, cravinas e outras flores vulgares, num concerto discordante de perfumes e cores. José Veríssimo (1857-1916). Cenas da vida amazônica. 2011, p. 11.

 
 
Cuieira
Curti´s Botanical Magazine, t. 3374-3457,  1835.
Desenho de Horsfall.
http plantillustrations.org.
 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Borboletas amazônicas


"É tão excepcional o aspecto miraculoso do mundo amazônico, que os próprios sábios, no meio das frias deduções científicas, sentem-se arrebatados, de vez em quando, para os domínios da fantasia, como se estivessem subindo a luminosa escada de Jacó de um grande enlevo poético.
Foi o que aconteceu a Frederico Hartt, ao descrever complicada geologia amazônica. Quando se viu, inesperadamente, alcandorado nas regiões do sonho, ele próprio advertiu-se de que devia voltar à realidade, dizendo que não era poeta, e devia por isso, falar a prosa desataviada de uma ciência.
A mesma coisa deve ter acontecido a Emílio Goeldi, quando viu, na Amazônia, pela primeira vez, o espantoso fenômeno migratório das borboletas.
Já anteriormente, o naturalista Bates, no Baixo Amazonas, sentira-se maravilhado com um espetáculo semelhante. Durante um percurso de oitenta milhas, viu sempre a fervilhar no espaço, miríades de borboletas, em bandos de trinta e oitenta metros de largura, atravessando continuadamente, o rio. Igual deslumbramento teve Spruce na barra do rio Xingu.
Esse magnífico espetáculo, do extraordinário paná-paná  amazônico, tem causado a maior admiração a todos os homens de ciência que perlustram pela Amazônia.
E o antigo diretor de nosso museu, afirma que na Europa, a aparição de tais fenômenos, aliás sobremodo reduzidos, é registrada pela imprensa, "como uma curiosidade a toda prova", ao passo que na nossa Região, esses movimentos migratórios, além de serem comuns, assumem proporções inconcebíveis.
No volume 4o. do Boletim do Museu Paraense, Emílio Goeldi descreve um grandioso paná-paná que tivera oportunidade de observar quando viajava pelo rio Capim.
Desde o amanhecer até o meio-dia, via-se subir, continuamente, por uma das margens do rio, uma formidável coluna de borboletas amarelas, pertencentes, na sua maioria, à família dos pierides.
Parecia que enorme multidão de lepidópteros não tinha começo nem fim e que a todo momento novos contingentes surgiam sem se saber de onde.
Do meio-dia em diante, porém, até a tardinha, a enorme e inquieta caravana descia pela margem oposta. Por vezes, o vapor em que ele viajava era envolvido, horas a fio, numa fantástica profusão de asas trêmulas, como se estivesse debaixo de uma doirada chuva de pétalas animadas.
Durante toda a viagem, que durou quase uma semana, o eminente naturalista presenciou, diariamente, esse soberbo espetáculo. De vez em quando, do grande exército alado, destacavam-se fortes colunas que se internavam na mata, de onde já vinha surgindo outros pelotões para se incorporar na coluna central que voava sobre o rio. Esses destacamentos parciais que ingressavam na floresta iam sugar o mel das flores do Arapari, imensa árvore que viceja nas selvas marginais dos rios.
Em quase toda a Região Amazônica, os movimentos migratórios de borboletas operam-se de junho a julho.
E esse turbilhão de asas palpitantes, numa louca inquietação febril, entre continuados banquetes de mel e perfume, celebra, anualmente, no seio das matas amazônicas, a festa perene do amor e da alegria.
Dizem os entomologistas, que a Amazônia não é somente o paraíso das borboletas, mas a única parte do mundo onde se encontram os mais raros e belos  exemplares destes insetos e o maior número de espécies. E em verdade, nas grandes monografias de História Natural, as páginas mais brilhantes sobre o colorido capítulo dos lepidópteros devem pertencer, inquestionavelmente, à Região Amazônica. [...]. Eidorfe Moreira (1912-1989). Obras reunidas de Eidorfe Moreira. 1989, v. 1, p. 49-51.
 
 
 
Borboletas.
Aquarela e grafite sobre papel de Henry Walter Bates (1825-1892)  - 1851-1859.
Original da viagem à Amazônia com Alfred Russel Wallace.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Os sons da vida na floresta tropical


"Após diversos dias em Gleba Arinos, iniciamos nossa subida pelo rio a bordo da pequena lancha Santa Rosa. Na primeira noite em que navegamos no Arinos dormi pouco, apreciando os diversos sons da água e da vida na floresta tropical. Logo após o amanhecer, começamos a descer o rio, que gradativamente perdia seu aspecto plácido e tornava-se mais belo e dramático. O rio era pontilhado por inúmeras ilhas e um grande conjunto de enormes pedras submersas, das quais brotavam plantas aquáticas cor-de-rosa. Essas pedras mostravam claramente a alteração do nível das águas nas estações de chuva - brancas abaixo da linha da água e negras acima desse nível.
O rio transbordava de mergulhões, que mantinham suas cabeças negras e bicos amarelos ligeiramente acima da superfície. Ao anoitecer, araras nos sobrevoavam aos pares, com suas plumas brilhando pelos raios vermelhos do sol. Cegonhas silenciosas e solitárias, de enormes asas, voavam para suas sombrias casas na floresta. Colhi uma linda Galenadra juncoides  na junção desse rio com o rio Alto Juruena.
Minhas descobertas tornaram-se ainda mais interessantes quando passamos no Alto Juruena: Heliconias, Catasetums, Brassavolas e Tillandsias surgiam uma após a outra. Árvores espetaculares - Bombacácea e Bignoniácea - surgiam da folhagem escura da floresta como gigantes cintilantes sem folhas, troncos brancos e brilhantes com ramos estendidos. Ipês-amarelos e Bombax vermelhos floresciam, e da copa escura de uma das árvores pendiam franjas de flores vermelho-escuras". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 22.
 

 Catasetum fimbriatum.
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da Floresta Amazônica. 2010.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Orquídeas preciosas


"[...]. Ergueu-se e apanhou a flor. Quanto valeria aquilo em Portugal? E a mata estava cheinha delas! Eram orquídeas preciosas, de recorte bizarro e cores surpreendentes, cataléas de pétalas tersas de lírio, que tinham algo de sexo virgem e fascinavam como uma ilusão. Parasitárias, as raízes que lhes davam vida prendia-se, como tentáculos, a caules de seiva rica e nunca mais desfaziam o abraço. E o drama não era único. Metade da selva vive da outra metade, como se a terra não bastasse para o império vegetal e fosse necessário sugar as árvores que chegaram primeiro. Não havia ramagem que não alimentasse, com o próprio sangue, o seu parasita - as grinaldas estranhas que a envolviam. O apuiseiro de vasta bibliografia, levava mais longe o seu despotismo: a princípio, era semente anônima, pousada numa forquilha; depois, raiz bamboleante e humilde, procurando, a medo, a terra distante e, por fim, devorava toda a árvore, até ficar sozinho. Na sua mudez, aquele mundo vegetal tinha ferocidades insuspeitadas, tiranias inconfessáveis e cruéis egoísmos. Viver! Viver, à sua custa ou à custa de outrem, era a ânsia de todo o ramo, de toda a folha, por mais despersonalizada que se apresentasse aos olhos de cada um". Ferreira de Castro (1898-1974). A Selva. 2. ed. 1937, p. 175-176.
 
 
 
 
Cattleya violacea.
Ilustração de Margareth Mee (1909-1988)


sábado, 24 de setembro de 2016

"Se eu soubesse cantar, cantaria a banana..."


"Santa Maria de Belém ficava a alguns quilômetros do delta do rio Pará. Belém (não Pará, porque Grão-Pará era o nome do estado, não uma cidade) tinha, vista à distância, um aspecto notável. Era imprensada pela mata, dramático fundo de quadro para aquela congérie de edifícios brancos com seus telhados vermelhos. Spruce  desembarcou no cais; "um tanto parado", opinou ele a respeito. Andou pela esplanada  sombreada por mangueiras e figueiras malditas, passou pelos prédios de dois andares, por soldados ociosos carregando negligentemente suas carabinas. [...]. Um esplêndido papagaio vermelho e verde soltava seu grito estridente e rouco ao sol poente. [...].
Em 1849 grandes esperanças  se nutriam a respeito de Belém. A cidade era o entreposto do Amazonas e com toda a probabilidade se tornaria um vasto empório para o escoamento da riqueza da grande bacia. Enquanto Spruce colhia plantas que ornavam a cidade, já se comentava a respeito daquilo que o barco a vapor iria fazer para o Brasil. Falava-se na construção de uma estrada de ferro. Tanto os Estados Unidos da América como a Grã-Bretanha se empenhavam para que o Amazonas fosse aberto ao comércio mundial. [...].
Todos esses comentários pouca impressão fizeram em Richard Spruce. Ele tinha suas plantas para colecionar e toda a natureza estava aberta para ele. Apanhava as flores alegres das vilas escondidas entre mamoeiros, mangueiras, palmeiras e mimosas. Enchia suas prensas de plantas com todas as novidades botânicas que lhe davam nos olhos, e seu estômago com as iguarias brasileiras para ele até então estranhas e exóticas. Apreciava bananas, que vinham do mercado em pencas doiradas, principalmente bananas fritas na gordura, esmagadas e com açúcar. Dessa surpreendente prova de fecundidade da natureza ele podia dizer, como o seu compatriota Tomlinson: "Se eu soubesse cantar, cantaria a banana... A pacova brota para o alto com uma haste abundante, e a fonte volta em largos  pendões ondulantes, espalhando-se por fora, afinando nas pontas quando perde o impulso. Não pode ser velho um mundo em que medra uma planta assim. É uma prova certa da vitalidade da terra. Contemplando-a, ninguém  havia de pensar que é longo o processo de desenvolvimento, uma questão de meses e de dificuldades naturais. A banana é uma resposta imediata e alegre dada ao sol. As nervuras das folhas, possantes mas clásticas, que ficam  suspensas em arcos imponentes, as amplas superfícies de uma substância verde translúcida... É sólida e suculenta, embora a sua ascensão seja tão aérea e sua forma seja um prazer para a vista. Não há verde igual ao das suas folhas, exceto o do mar". Victor W. von Hagen (1908-1985). A América do Sul os chamava. s.d. p. 261-263.
 
 
 
Banana.
Botany Libraries. Harvard Univerty


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Museu Goeldi publica nova edição do seu Boletim de Ciências Humanas


Museu Goeldi publica nova edição do seu Boletim de Ciências Humanas
 
O segundo número de 2016 trata das relações de grupos humanos com a natureza e a tecnologia
 
Está no ar a nova edição do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi - Ciências Humanas, do quadrimestre maio-agosto de 2016. É o segundo número da fase totalmente eletrônica de um dos periódicos científicos mais antigos do Brasil, cujo conteúdo pode ser acessado em site próprio e “folheado” no Issuu. A edição trata da relação entre as pessoas e a natureza, focando principalmente no uso de recursos naturais. 
A maioria dos artigos trata da pesca, discutida a partir do Amapá, na Amazônia, e de águas sergipanas e pernambucanas, do Nordeste brasileiro. São abordagens plurais sobre um mesmo ofício, que abarcam inclusive a perspectiva feminina, muitas vezes invisibilizada quando o assunto é pescaria. Tratada principalmente como meio de sobrevivência, a pesca é abordada também como meio de convivência, entre homens, mulheres e animais, em relações marcadas inclusive pela tecnologia.
Pesca e vida – A convivência é tema do artigo “Perspectivas do trabalho feminino na pesca artesanal: particularidades da comunidade Ilha do Beto, Sergipe, Brasil”, onde Mary Martins e Ronaldo Alvim discutem o “saber-fazer” de mulheres que conhecem tanto quanto – ou até mais que – os homens no quesito pescaria. Situação singular em um país onde esse “saber-fazer” pesqueiro é dominado por homens.
"Pescados, pescarias e pescadores: notas etnográficas sobre processos ecossociais”, de Cristiano Ramalho, mostra a interação entre homens, meio ambiente e tecnologia na caracterização da pesca e na definição do pescador. É em função dessa simbiose entre homem, mar e ferramentas que o autor define a pesca como um processo “ecossocial”, marcado também por relações de poder.
Já em “Pesca do Apaiari, Astronotus ocellatus (Agassiz, 1831), e perfil socioeconômico dos pescadores artesanais de uma região da Amazônia Brasileira”, Márcia Daaddy e coautores traçam o perfil de pescadores do interior do Amapá, que vivem da pesca do apaiari, espécie que os alimenta e provê o sustento, graças à comercialização. A pesca, então, é fonte de subsistência para essas populações.
Subsistência – “Mobilidade, subsistência e apropriação do ambiente: contribuições da zooarqueologia sobre o Sambaqui do Bacanga, São Luís, Maranhão”, de Arkley Bandeira e coautores, analisa os padrões de mobilidade humana a partir dos modelos de subsistência e de apropriação do meio ambiente por populações pretéritas. Para tanto, identifica vestígios de animais que compunham a dieta desses grupos nos sambaquis do litoral maranhense, particularmente o do Bacanga.
Marie Fleury também discute subsistência em Agriculture itinérante sur brûlis (AIB) et plantes cultivées sur le haut Maroni: étude comparée chez les Aluku et les Wayana em Guyane Française. O texto apresenta análise de práticas de cultivo entre as sociedades Maroons, da Guiana Francesa, produzindo conhecimento sobre a subsistência na fronteira com o Norte Brasileiro. 
A relação entre pessoas e natureza também aparece em uma perspectiva estética, com a apropriação da pedra para produção de adornos corporais, cuja comercialização permitiu o contato com outros grupos humanos. Eis o assunto do artigo “Adornos corporais em Carajás: a produção de contas líticas em uma perspectiva regional”, de Catarina Falci e Maria Jacqueline Rodet, no qual as autoras apontam evidências da existência de uma cadeia produtiva desses elementos no início do período conhecido como “Nossa Era”.
Rural e urbano – A dicotomia entre rural e urbano é problematizada por Júlia Côrtes e Álvaro D’Antona em “Fronteira agrícola na Amazônia contemporânea: repensando o paradigma a partir da mobilidade da população de Santarém – PA”. Os autores concluem que a chegada do agronegócio alterou a dinâmica demográfica da região de Santarém, marcada não apenas pelo êxodo rural, mas também pelo retorno de emigrantes devido a questões como relações familiares e identidades junto ao lugar.
O rural e o urbano também são o pano de fundo para o artigo “Belém e o mundo natural: olhares de viajantes sobre plantas e animais na urbe amazônica (1840-1860)”. Luciano Lima mostra o caso dos viajantes europeus que desembarcaram em Belém não apenas para descansar ou, a partir dessa cidade, se deslocar para a Floresta Amazônica, mas para estudar as várias espécies de animais e plantas encontradas na própria urbe.
Também consta da edição um olhar antropológico sobre um herbário, enxergando-o para além do seu patrimônio material, como espaço de trocas e de sociabilidades. Trata-se do texto “Memória social e patrimônio cultural: a transmissão de práticas científicas em um herbário brasileiro”, de Sonia Piccinini e coautores. O novo número encerra com a resenha de Sabine Reiter para o livro “Huni kuin hiwepaunibuki: a história dos caxinauás por eles mesmos”, conjunto de texto em caxinauá, português e espanhol sobre a etnia Caxinauá, habitante da fronteira Brasil – Peru.  
Mudanças editoriais – O número atual marca a renovação do Conselho Científico e do Corpo de Editores Associados do periódico. O processo editorial passou à condução de Jimena Felipe Beltrão, atual editora científica do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, em sucessão a Hein van der Voort.
Texto: Antonio Fausto, Núcleo Editorial/MPEG
 
 
 
 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dois tucanos curiosos


"Na primeira noite, penduramos nossas redes nas árvores que rodeavam um lago encantado. Eu não pude dormir porque prestava atenção aos sons mágicos da floresta adormecida. Somente as árvores dormiam, pois o lago estava acordado, borbulhante de peixes que saltitavam, enquanto o coral de sapos intrometia-se no lamento triste dos pássaros noturnos.
Passamos nossos dias na floresta assimilando a beleza das árvores frondosas e das criaturas que viviam sob suas copas. Uma aranha marrom e peluda que se alimenta de pássaros agarrou-se ao ronco da árvore na qual eu estava encostada; um camaleão com o papo do tamanho de uma bola laranja lutava para engolir um bicho-folha tão grande e verde quanto ele próprio; dois tucanos curiosos, pousados em um galho, acompanhavam nossos gestos, com divertido interesse, enquanto lutávamos para alcançar um broto de orquídea branca que foi desalojado pelo temporal da noite anterior, ficando embaraçado em um cipó. [...]". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2. ed. 2010, p 14.
 
 
 
Tucanos
 John Gould (1804-1881).
A Monograph of The Ramphastidae or faimily of toucans.  2. ed. 1992.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi
 



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

As marrequinhas em revoada


"[...]. O guincho da gaivota... é  sempre decorrente dum susto. Quando alguém se lhe acerca da ninhada posta nas praias, cuja eclosão sob a luz do sol vigia, o grito materno ecoa no ar, agredindo mesmo o desavisado que lhe toque na postura. As marrequinhas  (Dendrocygna discolor) também, debaixo das noites escuras e principalmente chuvosas, advertem o navegante, numa revoada coletiva que elas deslizam na corrente sobre um tronco de pau. O grito da marreca pela proa do  navio indica, pois, uma árvore flutuante. Isto determina o sustamento da marcha dos vapores na rede hidrográfica da bacia amazônica". Raimundo Morais (1872-1941). O homem do Pacoval. s.d., p. 247.
 
 
Marrecas.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
Ilustrações de Etienne e Yvone Demonte


domingo, 11 de setembro de 2016

Esse complexo mundo vegetal...


".[...]. Contudo, não serão apenas os cipós que concorrerão para o fausto da floresta amazônica. este dependerá também do prodigioso número de epífitas que abarcam troncos, cravejam ramos e afestoam galhos. Algumas, como o apuizeiro, revelam-se implacáveis algozes das suas vítimas; outras, verdadeiramente inofensivas, fazem-se mesmo magnânimas, recompensando com uma floração esplêndida o bom gasalhado que lhe deram as companheiras, o que acontece com a linda cebola-brava e com quase todas as orquídeas. Mas ainda a legião das Aráceas e Bromeliáceas, aquelas servindo-se do raizame aéreo para mandar amarras para todos os lados estas abrindo rosaças de verdes crus e vermelhos vivos na forquilha dos troncos vetustos, que também disfarçam as suas rugas sob a policromia de fetos, fungos, algas, musgos e líquens.
E é tal a profusão desses hóspedes que só  num exemplar de grande árvore já se contam oitocentas espécies de outras plantas. Schomburgk também colecionou quatorze orquídeas diferentes povoando um único tronco.
Todo esse complexo mundo vegetal, toda essa falange de batalhadores aparentemente imóveis, vive numa perpétua luta, num continuado esforço, buscando escapulir à semi-obscuridade do sobosque para alcançar um lugarzinho ao sol, uma clareira de céu aberto, lá, bem no alto, já no zimbório verde que os triunfadores de maior hausto vão formar com as suas copas.". Gastão Cruls (1888-1959). Hileia amazônica. 2. ed. 1955, p 15-16.
 
 
 
 Cattleya virginalis Linden & André .
Lindenia iconographie de orchidées. v. 3, 1887. BHL.


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Imperial Arsenal de Marinha em Belém do Grão-Pará


"A nordeste uma ponta das florestas do continente projeta-se, logo abaixo da embocadura do Guamá, no Rio Pará, sobre a qual se estende a cidade de Nossa Senhora de Belém, [...]. Do ancoradouro vê-se no ângulo agudo na direção do Guamá, erguer-se das águas uma alcantilada colina coroada por um grupo composto de altos edifícios que as altas torres da catedral sobrepujam. Daí por diante a cidade bastante vistosa estende-se por mais um quarto de milha pela margem plana de rio acima, até extremar-se novamente num ângulo obtuso com as florestas da terra firme.
Um pouco acima da cidade fica o Imperial Arsenal de Marinha, onde vimos uma fragata, cujo cavername, embora estivesse no estaleiro havia já dezessete anos, ainda não estava revestido. Deste estabelecimento - infelizmente muito pouco importante, não obstante estar melhor colocado do que em nenhum outro ponto da terra, pois que nem um milênio se acabará aqui a madeira de construção - segue uma magnífica aleia de umbrosas mangueiras, entre dois canais por trás da cidade, através de campos atravessados por numerosos fossos alimentados pelas águas do preamar. Na outra extremidade desta belíssima avenida fica uma pequena praça livre com uma igreja, ao lado da qual vi erguerem-se no ar as primeiras palmeiras-leque (Miriti Mauritia flexuosa). [...]". Príncipe Adalberto da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazônia-Xingu. 2002, p 214-215.
 
 
Estrada do Arsenal de Marinha.
 Pintura de Joseph Leon Righini (1820-1884)


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Os troncos caídos começam a impedir nossa passagem


"Voltamos a empurrar as montarias sobre as rochas dos rápidos. Um pouco a montante, deparamos com outro pequeno travessão, transpondo-o pela brecha central. O rio aqui não passa de um riacho. Ainda há castanheiros nas margens, mas agora já se tornam mais raros.
Os troncos caídos começam a impedir a nossa passagem. Para transpô-los, temos que carregar as montarias, passando-as por cima deles. Quando elas são repostas na água, estão de tal modo descalafetadas que se encheriam em poucos minutos, se não tivéssemos o trabalho de embuchar rapidamente os orifícios maiores
E os "secos" vão-se sucedendo, apresentando, em determinados trechos, nada mais do que 20 centímetros de profundidade. Frequentemente somos obrigados a transportar nossa pequena carga por terra.
As montarias vazias são arrastadas e empurradas à mão pelos homens, que seguem pela incerta rota do riacho, no fundo do qual passeiam as raias venenosas". Henri Coudreau (1855-1899). Viagem a Itaboca e ao Itacaiunas. 1980, p. 76.
 
 
 
 Dr. J. Crevaux (1847-1882).  Voyages dans L´Amerique du Sud. 1833 
Desenho de E. Riou (1833-1900).
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


sábado, 3 de setembro de 2016

O nascer do sol refletido pelas águas do rio


"Não impressiona menos o nascer do sol, por detrás da mata, refletido pelas águas do rio. Águas negras, brilhantes, mansas e quase impenetráveis pela nossa visão.
Neste caso, é a madrugada fria, calma, com a neblina abundante a sair por entre a vegetação. Por cima, o céu estrelado mostrando-nos a boiuçu, as Três Marias, o Cruzeiro do Sul, e uma infinidade de outras estrelas e constelações. A lua em crescente, muito pálida a lançar sua luz sobre a imensidão desabitada. No fundo, para o nascente, um foco vermelho que se agiganta a cada instante. Daí a mais alguns minutos, o astro-rei que sai com todo seu esplendor, aquecendo e dando vida à natureza. A faina começa com o chilrear dos pássaros, os roncos possantes dos bugios, os bacuraus procurando alimento. São as araras ou papagaios que passam, um tucano que chama o companheiro ou um boto que aparece na superfície. Aos poucos, aquela mata surda enche-se de sons e a luta pela vida atinge talvez o seu máximo para regredir novamente por algumas horas, tornar a aumentar com o advento da tarde e mergulhar outra vez no repouso diário das madrugadas. Quisera eu que todos os brasileiros pudessem contemplar estes quadros e notar como tudo é tão natural, tão diferente das lendas e superstições que nos contaram quando crianças ou que ainda correm de boca em boca em nossos dias. [...]". José Cândido de M. Carvalho (1914-1989). Notas de viagem ao Rio Negro. Publicações Avulsas do Museu Nacional. 1952. p. 90-91.
 
 
 
Paisagem amazônica
Pintura de Edivaldo Barbosa de Souza


terça-feira, 30 de agosto de 2016

As auroras e os crepúsculos na Amazônia


"Nas regiões sob o equador, já anteriormente o disse, as auroras e os crepúsculos processam-se com incrível rapidez. A escuridão é completa. Mas, sem sabermos como apareceram, vemos no nascente umas nuvenzinhas acinzentadas, ou de um branco sujo, e de contornos esbatidos. Dez minutos depois, tornam-se brancas, e já vemos distintamente recortadas contra as profundezas do céu ainda escuro, as copas das árvores ou colinas desse lado. No poente, a escuridão é ainda completa e nem distinguimos as árvores e barrancos à nossa volta. Poucos minutos depois, já as nuvens são flocos de neve, debruados de ouro. Da mesma coloração, esguios farrapos flutuam mais alto.
E já é dia. A fresca viração que começa soprando, leva um frêmito de vida às mais altas árvores, às palmas das paxiúbas e açaizeiros, agitando-as, como num espreguiçamento, para de todo despertarem. É dia claro, mas do sol só vemos, ainda, as labaredas incendiando as nuvens. [...]". Francisco de Barros Junior (1883-1969). Caçando e pescando por todo o Brasil. 5a. série: Purus e Acre. [s.d.], p. 41.
 
Cachoeirinha de Cupati; em primeiro plano, uma paxiúba-barriguda.
C. Fr. von Martius (1794-1868). Historia Naturalis Palmarum, 1823-1850
 


sábado, 27 de agosto de 2016

Diversas espécies de pássaros


"A quantidade das diversas espécies de pássaros nas florestas do Maranhão parece maior ainda que a dos quadrúpedes. É notável que quase nenhum tem canto agradável: é principalmente pelo berrante e pela diversidade de cores da plumagem que eles interessam.
Nada iguala a beleza das penas do colibri, de que vários autores falaram, e que se acham na América em toda a Zona Tórrida. Notarei apenas que apesar de que ele passa comumente por habitar somente os países quentes, não os vi em nenhuma parte mais numerosos do que nos jardins de Quito, cujo clima temperado mais se aproxima do frio do que do grande calor. O tucano, cujo bico vermelho e amarelo é monstruoso em proporção com o corpo, e cuja língua a modo de pluma solta  passa por ter grandes virtudes, não é tampouco particular do país de que trato. As variedades de papagaios e araras, em tamanho, cor e aspecto, são sem conta; entre os primeiros rareiam os inteiramente amarelos, com manchas verdes nas extremidades das asas. Destes só vi dois no Pará. Não conhecem aí absolutamente a espécie cinzenta, que tem a ponta das asas cor de fogo, e tão comum na Guiné. [...]". Charles Marie de La Condamine (1701-1774). Viagem na América Meridional descendo o rio das Amazonas. 1944, p. 121.
 
 
Beija-flores.
Álbum de aves amazônicas - 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ninhal de garças


"A garça real, na alvura de suas penas e na sinuosidade de suas linhas de contorno, é dos mais belos ornatos destas paisagens ribeirinhas dos rios marajoaras. Quando a vemos à beira d´água, a projetar no espelho líquido sua silhueta esbelta, mais nos parece ver concretizado o que julgáramos criação imaginosa de pincel artista. Quando assustada pela embarcação que se avizinha, alça brandamente o voo, dando ao longo colo curvas estranhas, mas sempre graciosas, é majestosa e bela.
Pousada nas árvores, a contrastar a candidez da plumagem com o verde da ramaria, é como enorme magnólia a cujo peso balouçam os galhos em que descansam. Se isolada é graciosa, na multidão é importante, pois a larga envergadura multiplicada dezenas de vezes forma grande e cândida nuvem em que a luz do sol rebrilha intensamente.
A nidificação da garça real oferece espetáculo magnífico a quem lhe pode descobrir o local escolhido para esse fim. Não se encontra isolado o ninho da garça, como sucede com tantas outras aves. Sobre sítios tranquilos, longe do bulício das povoações ou mesmo das moradias das fazendas, as garças, na época instintivamente escolhido, começam a esvoaçar por  largo tempo. Sobem às alturas, fazem demoradas evoluções, sempre sobre o local escolhido e depois descem.
Torna-se então febril a atividade construtora dos ninhos. É um vaivém constante. Umas saem, outras regressam, sem se impedirem na faina. É como uma colmeia de grandes abelhas brancas que não repousam enquanto o dia não declina. Dentro em breve, os ninhos estão prontos e em cada ninho há 3 ovos. [...].
Observação interessante: as garças permitem que certas aves nidifiquem entre elas. São poucas essas privilegiadas e nem sempre são da família: há palmípedes que gozam dessas graças das garças". Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974). No estuário amazônico. 1976, p. 365.
 
 
 

Garças. (Detalhe)
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna  - Museu Goeldi

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Uma abertura na floresta como uma moldura de folhas


"Parei por um momento para contemplar uma abertura na floresta como uma moldura de folhas, dando para as águas iluminadas do rio lá embaixo no vale sinuoso, o clarão brilhante em forte contraste com a profunda sombra do interior da floresta, que ressoava com o zunido constante dos insetos, tais como as notas agudas de mosquitos azul-metálicos, o zumbido de um besouro tonto trombando cegamente em uma árvore, e o assovio monótono das muitas cigarras, todos se misturando melodiosamente ao borbulhar distante do rio  quando passa pelos galhos pendentes das árvores e quando um martim-pescador azul mergulha como uma joia faiscante dentro d´água, de um galho avançado e murcho, coberto de bromélias carmesins, trepadeiras, orquídeas, musgos  cipós pendentes, fazendo balançar na brisa suave um ninho de japiim [...].". James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v.2, p. 81.
 
 
Rudolfiella aurantiaca.
 Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2010.
 

 
 
 



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O bem-te-vi e seu jeito de viver


"[...]. Como feitio moral do bentevi, podemos compara-lo a certos indivíduos falastrões e esparramados.
Mal chega a um lugar, arma logo um alvoroço.
Voa daqui para ali, revoa e volta, pondo em cada fronde um alarido. [..].
São sociais e vivem em pequenos grupos e, entre os da sua malta, reina a melhor cordialidade, mas não querem intimidade com outros pássaros...Quando chega um amigo, é logo recebido com evidente e transbordante alegria, batidelas de asas, empinações de crista e uma permuta de saudações  que parecem não ter fim.
O dia inteiro o grupinho vive junto em correrias e brincadeiras, entremeadas de gritos, mas nas épocas dos amores, as coisas mudam. Cada macho procura a sua companheira, e os solteirões são escorraçados, segundo me parece...". Eurico Santos (1883-1968). Pássaros do Brasil. 1960, p. 102-103.
 
 
Bem-te-vi.
Ilustração de J. Th. Descourtilz (1796-1855)
História natural das aves do Brasil. 1983
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A floresta


"[...]. Uma cigarra aguda, penetrante bem próxima, de repente assusta a gente como um escape repentino de vapor de uma máquina e atrai nossos olhos para o labirinto circundante de enormes troncos arqueados, pontilhados de líquens e musgo; os cipós, entrançados caindo com cordas festonados, enrolados sobre o chão ou envolvendo os troncos como imensas cobras; arbustos que lembram murta; os longos troncos das árvores novas lutando para alcançar a luz do sol; samambaias gigantes e palmeiras esguias; as borboletas flutuantes como manchas escarlates na luz sombreada, o leve odor combinado de especiarias, musgo e folhas úmidas em decomposição. É tudo a mesma floresta que se vê em toda parte, só variando nos detalhes, pois a cada passo ela é outra". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 81.
 
 
 
Dentro de uma floresta virgem.
Por Johann Moritz Rugendas  (1802 - 1858)


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Urucu


"Urucu (Bixa orellana) é dedicado a Francisco Orellana, primeiro que navegou o Amazonas. É uma das plantas mais conhecidas entre nós pelo emprego que tem na arte culinária. Com as belas flores de pétalas cor de rosa, ou com as panículas de capsulas pardacentas e espinhosas, sempre se torna recomendável como árvore útil e de ornamento.
O seu principal emprego está na polpa viscosa, resinosa e vermelha ou cor de laranja, segundo as variedades, que envolve as sementes. Com esta polpa que tem um cheiro esquisito, os índios se pintam, não só para se fazerem bonitos, como para evitarem as ferroadas dos mosquitos. Com essa mesma polpa preparam uma massa dura e em paus, com que tingem não só os ornatos, como a cerâmica. Esta massa é exportada para o estrangeiro que dela se aproveitam na tinturaria. A cor é fixa e não se altera com o alumem e com os ácidos, porém, altera-se, com o tempo e com o sabão. [...]. A madeira é leve e empregada pelos índios para tirar fogo. Medicinalmente, a massa do urucu é antifebril e refrigerante e as sementes são estomáquicas. A raiz dizem ser digestiva. O pó que os índios denominam wakaka é afrodisíaco". João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Hortus fluminensis ou breve notícia sobre as plantas cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 1894, p. 19.
 
 
Urucu (Bixa orellana).
Anônimo, s.d.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, Brasil.


domingo, 7 de agosto de 2016

Um lugar pitoresco


"Um dos lugares mais pitorescos nos arredores de Belém é o banhado pelo rio Guamá, onde há florestas virgens que se estendem ao norte e ao sul da cidade. Gigantescos troncos de árvores aparecem naquelas solidões matagosas; ali se vêm a sapucaia (Lecythis) o pau d´alho, o bacuri, cujo tronco tem de cinquenta a sessenta pés de largura e cem pés junto às raízes. Essa magnífica vegetação encontra suas condições de desenvolvimento não somente nos raios ardentes de sol, mas também na umidade de que a terra está embebida. Aqueles colossos vegetais assemelham-se a déspotas, pois absorvem a vegetação de uma ordem inferior.
Encontram-se, frequentemente, naquelas florestas virgens, espaços bastante extensos, sem um arbusto, sem uma planta mais desenvolvida sequer. Mal se percebem algumas gramíneas, uma pequena liliácea de flores alvas, semelhante ao gladíolo, e, principalmente, muitas espécies de bromeliáceas e aróideas, entre as quais se distingue o Dracontium polyphillum, planta notável por sua haste da mesma cor da cobra cascavel. Vêm-se ali, pendentes do galhos de árvores, compridas hastes que se tomariam por cortiça e que são cachos de flores. Há uma espécie de sapucaia notável pela sua casca avermelhada, resistente, semelhante a um tecido grosso, que pode ser arrancada em grandes pedaços. Os índios se cobrem com essas cascas, para se protegerem dos insetos. Uma outra espécie do mesmo gênero tem a casca composta de compridos filamentos, muito resistentes, que batidos e amolecidos, servem para calafetar barcos e navios. Uma outra, ainda, a curatari, tem uma casca fina, vermelho-clara, que pode ser retirada em grandes pedaços, e das quais os índios se utilizam para fazer cigarros". Alcide d´Orbigny (1802-1857). Viagem pitoresca através do Brasil. 1976, p. 80.
 
 
 
Dracontium polyphillum L.
Botanical Register, v 9, t. 700 A (1823).
Desenho de M. Hart


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O lindíssimo guará


"O verde daquelas árvores, uniforme e viçoso, alterna-se mais e mais com a folhagem diversa em muitas tonalidades adornada com grandes flores magníficas, ou com o penacho eriçado da palmeira jupati (Sagus taedigera M.), oferece uma visão incrivelmente pitoresca.
Bandos sem conta do íbis americano, guará (Eudocimus ruber) aninham-se nas copas dessas arvores marginais e animam o verde com o lindíssimo vermelho escarlate de suas penas. Dessa vista gozamos certa manhã, atravessando o rio num bote equipado com quatro remadores para percorrer a fronteira Ilha das Onças. Fomos beneficiados pelo vento de terra e chegamos uma hora depois, na margem oposta a uma opulenta fazenda pertencente a família  Faria. [...]". J. B. von Spix (1781-1826) e C. Fr. von Martius (1794-1868). Viagem pelo Brasil - 1817-1820. 1981, p. 51-52.
 
 
 
Guará e Tapicuru.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi