domingo, 29 de junho de 2014

Viajantes: As araras!


"Como são belas aquelas palmeiras! O estípite liso, pardacento sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta denso feixe de pecíolos longos e canulados, em que se assentam flabelas abertas como um leque, cujas pontas se curvam flexíveis e tremulantes.
Na base e em torno da coma, pendem amparados por espatas, densos cachos de cocos tão duros que a casca revestida de escamas romboidais e de um amarelo avermelhado desafia por algum tempo o férreo bico das araras.
Também com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguirem a apetecida e saborosa amêndoa!
Em grupos ajuntam-se elas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras pelo contrário de todo azuis, de maior viso e que, por parecerem negras, em distância, tem o nome de araraunas.
Ali ficam alcandoradas, balançando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, aos ares imensos das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quase sempre, porém, estão a namorar-se, aos pares, postadas uma bem encostadinha à outra." Visconde de Taunay. Fauna, ano 1, n. 12, p. 17, dez. 1942.
 
 
 
Arara-vermelha ou Araracanga.
Edward Lee. Natural History of parrots by Prideaux John Selby. 1836.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Reflexões: Crisântemos




Crisântemos
 


Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
 
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos  e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
 
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a for de que tu gostas mais!
 
Florbela Espanca (1894-1930)
 
 
 
 
Chrysanthèmes D´Automne.
 L´illustration horticole. Gand, 1889.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Viajantes: O tagarela Bem-te-vi!


"Entre os pássaros úteis, devoradores de toda casta de bichos daninhos, formigas, lagartas, vermes, larvas, aranhas e besouros, ocupa lugar de destaque o nosso grande amigo e tão barulhento quanto conhecido bem-te-vi [...]. Esta bela e irrequieta ave, é a verdadeira alegria da moradia nos campos, pois a sua voz sonora e engraçada retumba constantemente como uma gargalhada através dos vales e colinas, e quase sempre à volta das habitações humanas.
No norte do nosso país são tão sociáveis que sua irrefreável atividade se exerce nas próprias cidades e vem fazer as suas turbulentas reuniões nos telhados das casas e nas árvores das praças públicas.
[...]. De índole alegre e turbulenta; em tudo encontra motivo para fazer grande algazarra, batendo as asas e soltando repetidas vezes o seu canto claro e forte: Bem-te-vi, Bem-te-vi.
Este seu grito tão esquisito é efetivamente original e não há pássaro tão conhecido no país e no estrangeiro como nosso querido  Bem-te-vi.
Dizemos no estrangeiro muito de propósito, pois são os estrangeiros os que mais ficam impressionados quando vêm e ouvem pela primeira vez o Bem-te-vi, e naturalmente hão de relatar lá fora os feitos do simpático bichinho que lhes surpreendem tão agradavelmente." R. von Ihering (1883-1939). As aves úteis: o tagarela Bem-te-vi. Chácaras e Quintaes, v. 19, n. 3, mar. 1919. p. 194.
 
 
 
Bem-te-vi.
Rodolpho von Ihering. O livrinho das aves. 1914.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os ninhos do Japiim.


"Os ninhos da maior parte das aves brasileiras não são, de modo algum, fáceis de achar, e os viajantes que não dedicarem muito tempo a este propósito verão geralmente muito pouco de seus hábitos de postura. Há contudo exceções e uma delas é a do Cassicus persicus. Ele é sem dúvida o Cassique mais predominante na baixa Amazônia e na Guiana; colônias deles, constando de um maior ou menor número de ninhos pendentes, balançando nas extremidades dos ramos das árvores , vêm-se por toda parte, e ferem sempre a vista do mais despreocupado touriste de bordo dos vapores do Amazonas. Aqui, no Pará, o Cassicus persicus, é um frequentador diário de todos os grandes jardins e embora o subúrbio de Nazareth esteja hoje muito mais densamente habitado do que quando Wallace escreveu o seu interessantíssimo livro, eu sei de uma colônia de "Japiins" com uma dúzia de ninhos numa árvore alta, perto de duas das mais frequentadas ruas deste arrabalde e apenas a uns sessenta passos de distância do nosso Museu. Emílio A. Goeldi (1859-1917). Sobre a nidificação do Cassicus persicus. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 203-204, 1902.
 
 
 
Japiim (Cassicus persicus) e seus ninhos.
Ilustração de Eron Teixeira



segunda-feira, 9 de junho de 2014

Viajantes: A "Flor-do-Luar" no Rio Negro.


"[...]. Entramos no igapó utilizando a canoa menor, que se inclinava sem estabilidade à medida que forçávamos nosso caminho pelos arbustos espinhosos e ásperos, para depois deslizarmos suavemente por entre as árvores. Para meu entusiasmo, de uma grande árvore pendiam cordões de folhas esmaecidas do cactos com três enormes botões de flor. A planta estava solta, um pouco acima da água, presa por uma trepadeira. Deve ter caído e o próximo vento provavelmente a sopraria rio abaixo. Por esse motivo, decidi leva-la para plantá-la em um igapó próximo de casa, onde eu poderia observar o seu desenvolvimento. Mais alto em uma árvore, entre as inúmeras folhas, havia outros botões de flores do cactos, que sem dúvida produziria sementes para germinar no igapó.
Mais acima, em uma região aberta no igapó, um grupo de folhas coloridas de cactos brilhava em uma grande árvore. Como estava escurecendo, resolvi retornar no outro dia. Na tarde seguinte, observei que havia muitas epífitas nas árvores, incluindo uma Gerneriad que encobria parcialmente o cactos. Fiz desenhos coloridos até o anoitecer, tendo a certeza de que os botões de flor se abririam em breve.
Ao permanecer imóvel, com o escuro contorno da floresta ao meu redor, me senti enfeitiçada. nesse momento, a primeira pétala começou a se mover, e outra após outra, enquanto a flor rompia para a vida. Abria-se muito rapidamente. Continuamos assistindo, com a fraca iluminação de uma tocha e com a luz da lua cheia que subia pela orla escurecida da floresta. Nos primeiros estágios, a flor exalou um perfume extraordinário doce e ficamos todos fascinados com sua beleza e delicadeza. Para nossa surpresa ela ficou enorme e totalmente aberta em uma hora." Margaret Mee (1909-1988). Flores da Floresta Amazônica. 2010, p. 162.
 
 
(Selenicereus wittii).
 Ilustração de Margaret Mee (1909-1988)
 Flores da Floresta Amazônica. 2. ed.  São Paulo, 2010.


sábado, 7 de junho de 2014

Viajantes: As altas palmeiras!



"[...]. Veredas estreitas levavam a toda parte dentro da mata cerrada. Bastam alguns passos, para se encontrarem as habitações dos índios, diante das quais os calmos e modestos habitantes saúdam amistosamente e mostram, contentes, suas pequenas plantações, se é que se quer chamar plantação onde não se pode descobrir nem uma insignificante clareira. Aí vicejam as cabaceiras com seus frutos redondos, cujas cascas, depois de esvaziadas, na maioria das vezes constituem os únicos utensílios domésticos; aí crescem as laranjeiras concorrendo com as escuras mangueiras, e as altas palmeiras que fornecem aos tapuias, pelo menos, a metade da grande massa de alimento que consomem, grande parte mesmo do necessário à vida. [...]". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No rio Amazonas (1859). 1980, p. 40.
 
 
 
Oenocarpus batua
 J. Barbosa Rodrigues. Sertum Palmarum Brasiliensium, 1903.


domingo, 1 de junho de 2014

Viajantes: Florestas majestosas!


"Assim conseguimos avançar, à força de muito trabalho, e sob o calor do dia; mas não tardávamos a encontrar gigantescas árvores atravessadas na estrada, que tinha de 8 a 10 passos de largura; era então necessário abrir uma trilha lateral na parte mais cerrada da mata, e contornar por essa fora o obstáculo. Tais dificuldades, que fazem recuar os viajantes nessas imensas matas virgens e retarda grandemente a sua marcha, não assustam absolutamente quem, como nós, está no começo duma tentativa como essa, posto que não faltem a saúde e as provisões.
O homem muito atarefado esquece  a que está sujeito, e o aspecto das florestas majestosas ocupa o seu espírito com cenas sempre novas e variadas; o europeu, sobretudo, que percorre pela primeira vez, encontra-se constantemente entretido. Em toda parte a vida pulula e se espalha a vegetação mais luxuriante; não se vê o mais pequeno espaço sem plantas. Em todos os troncos de árvores vêm-se crescer, trepar, enrodilhar-se, prender-se uma profusão de espécies de Passiflora, Caladium, Dracontium, Piper, Begonia, Bombax, Ilex, Epidendrum, vários fetos, líquens e musgos os mais diversos. [...]". Maximilian, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1958, p. 350.
 
 
 
Caladium sp.
William Curtis, 1787.