segunda-feira, 31 de março de 2014

Viajantes: Embaúba, a árvore predileta da Preguiça!


"A Cecropia, ou embaúba, sempre foi a árvore que mais se destacava na floresta, com suas enormes folhas em forma de castanha-da-índia e forradas de branco, seus brotos cor-de-rosa e caules ocos, nos quais um tipo de formiga preguiçosa tinha sua casa pronta, com vários andares. O mais esquisito de todos os animais, a preguiça, também passava sua monótona vida em seus galhos, comendo lentamente os brotos jovens abraçada à árvore com os pés enganchados, gostando de se dependurar e dormir de cabeça para baixo. [...]". Marianne North (1830-1890). In: BANDEIRA, Júlio. Viagem ao Brasil de Marianne North (1872-1873). Rio de Janeiro: Sextante, 2012. p. 160-161.
 
 
 
 
Preguiça (Bradypus tridactylus)
Ilustração de Eron Teixeira


sábado, 29 de março de 2014

Viajantes: Bromélias e outras plantas silvestres.


"[...]. Nesse arrabalde, vi muitas coisas curiosas. Um dia seis macacos de rabo comprido e bigodes cinzentos estavam conversando trepados numa árvore, e deixaram que eu me aproximasse até embaixo para assistir às suas brincadeiras por meio de meu binóculo de ópera. Os galhos em que se achavam valiam também a pena ser observados, tamanha era a profusão de trepadeiras, bromélias e outras plantas silvestres, como orquídeas e samambaias, que carregavam. Essas bromélias tinham, com frequência, as mais belas florescências escarlates ou púrpura". Marianne North (1830-1890). Recordações de uma vida feliz. In: BANDEIRA, Júlio. A viagem ao Brasil de Marianne North (1872-1873). 2012, p. 160.
 
 
 

Orquídeas e Bromélias do Brasil
Ilustração de Marianne North



terça-feira, 25 de março de 2014

Viajantes: Plantas formosas!


"[...]. Os vales, entre essas colinas marginais, estão cheios de brejos aos quais uma espécie alta de bignoniácea empresta, muitas vezes a triste aparência de mata ressequida. Tronco e ramos são de cor cinzenta brilhante, e a escura folhagem verde-escura dá-lhe um sombrio aspecto de coisa morta, sobretudo porque se adensa em bosques espessos; a flor, entretanto, é bonita, grande e branca. Há muitas outras plantas formosas; entre elas uma Cleome arborescente, completamente carregada de enormes tufos de lindas flores brancas e cor-de-rosa. Ladeavam o caminho bignonias amarelo-vivas e brancas e nas moitas das margens erguiam-se os tufos da Allamanda catártica Linn., de grandes flores amarelo-vivas". Maximilian Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1958, p. 101.
 
 
 
 
Allamanda cathartica.
Curtis´s Botanical Magazine. 1848.

 
 
 

sábado, 22 de março de 2014

Viajantes: Araponga


"De todos os nomes dados a esta ave pelos naturais, nenhum melhor que o de ferreiro, pois este lhe adveio do canto, de força expansiva extraordinária, imitando exatamente o ruído que faria o ferreiro com a ajuda de lima e a seguir de um martelo vibrado na bigorna.
Pode-se representar tais ruídos pelas sílabas: kick-kok-kok-koch-gur-gurr-r-r, a primeira rouca e breve, as outras longas, escapando-se por intervalos, as últimas, fora do alcance descritivo, são sonoras, metálicas e prolongadas, acabando de forma decrescente até desaparecer.
Tal reunião de acentos produz efeito singular.
A ave tendo o hábito de se fazer ouvir precisamente em hora em que o sol rutila em toda sua pujança, interrompe assim o silêncio que o próprio calor parece impor às demais aves.
No decorrer da estação seca, a araponga emigra para o norte, ou como o rouxinol da Europa, perde a faculdade de cantar, pois cessamos de ouvir-lhe o canto.
Entretanto, logo aos primeiros dias da primavera, quando a vegetação sombria do inverno recobre-se dum ligeiro manto de mais suave matiz, a voz, a princípio tímida e mal segura da araponga, é o primeiro sinal que anuncia esse acontecimento. O ressurgimento deste pássaro justifica por isso o nome de ave-do-verão que muitos brasileiros lhe puseram. [...]". DESCOURTILZ, J. Th.  (1796-1855). História natural das aves do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983. p. 115-116.
 
 
 
Araponga (Procnias nudicollis) ave branca à  direita.
Ilustração de DESCOURTILZ, J. Th.  (1796-1855).
 História natural das aves do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Lendas e Curiosidades: Muiraquitã


"Saltando em uma das margens percorri pela floresta e depois pelas praias, a fim de ver, se  além de alguma planta nova, encontrava alguma recordação histórica, ou etnográfica. É este o segundo lugar onde a tradição diz, que se encontram os muiraquitãs e eram fabricados.
Duas lendas ainda correm entre os indígenas sobre a sua feitura ou existência. Uma que já tinha notado no meu diário de viagens, quando publicou-se as Lembranças e Curiosidades do Amazonas, pelo meu amigo o Sr. Cônego Bernardino de Souza, que é a seguinte:
Dizem, que nas fontes do Rio Yamundá, há um formoso lago denominado Yacyuaruá, consagrado à lua pelas Amazonas. Em certa fase desta em uma época marcada do ano, reuniam-se as Amazonas em torno ao lago e faziam uma festa à lua e a mãe do Muiraquitã, que no fundo do mesmo habitava. Dias depois de contínua festa de expiação, quando o lago apresentava sua face lisa e sem ondas, e a lua nele refletia-se, atiravam-se na água as Amazonas, e no fundo, da mão da mãe do Muiraquitã recebiam as pedras com as configurações que desejavam, então moles, porém, endurecendo logo que saíam da água. Essas pedras eram depois mimoseadas aos homens com que as Amazonas se relacionavam.
A outra, que ouvi de alguns velhos Uabóys, é também toda fabulosa. Referem que no mesmo lago existiam vivos os muiraquitãs, onde as mulheres iam apanhá-los. Para isso, era mister ferir uma parte do corpo, e deitar uma gota de sangue na água, sobre aquele que desejavam possuir, porque tinham diferentes formas. O Muiraquitã então parava e era assim apanhado facilmente. Com eles, então a mulher que tinha tido uma filha, recompensava ao pai.
Ainda hoje é crença quase geral, que essa pedra é animada. O que é fora de dúvida, é que aí e na costa do Parú, são os únicos lugares onde se encontram as mesmas pedras. No lago verde, em Alter do Chão, no rio Tapajós, também se encontrava [...].
Nesta minha excursão, ainda tive a felicidade de encontrar um, que, mostrando, disseram ser um sapo. É verdade que o artista parece que quis dar-lhe essa configuração". João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Exploração do Rio Yamundá. 1875, p. 35-36.
 
 
 

Muiraquitã.
 FUNDAÇÃO NACIONAL DE  ARTE. Instituto Nacional de Artes Plásticas. Museu Paraense Emílio Goeldi. Rio de Janeiro. 1981. (Col. Museus Brasileiros, 4).
 
 
 
 
Muiraquitã - Muirá kytan. J. Barbosa Rodrigues, na mesma obra, refere-se a etimologia da palavra explicando que vem de Muirá, 'pau' + kytan 'nó'. Pela semelhança que tem com as resinas.


terça-feira, 18 de março de 2014

Viajantes: Borboleta Azul na Floresta


"Uma esplêndida borboleta azul Morpho, vem voando deslizando pela estrada; suas asas rebrilham à luz do sol como um espelho. Se puder, apanhe-a com um golpe hábil de rede, mas se errar, não lhe corra atrás; em dez vezes sobre uma ela o enganará e você poderá tropeçar numa raiz e sofrer as consequências. Os morfos voam pela manhã. No decorrer do dia, mais tarde, encontramo-nos pendurados sonolentamente em ramos baixos; podemos apanhá-lo com os dedos se tivermos bastante calma. [...]. Todos os morphos são marcados, por baixo das asas, com cores desmaiadas, e verifica-se que isto geralmente acontece com as borboletas das florestas. São bastante brilhantes no ar, mas em repouso assentam com as asas fechadas e então dificilmente são vistas entre as folhas". Herbert Smith (1851-1919). PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 163.
 
 
 
Borboleta Morpho
Martin_Johnson_Heade (1819-1904)


domingo, 16 de março de 2014

Reflexões: A Explicação


Tendo recobrado o bom humor, Elizabeth quis que Darcy explicasse por que se apaixonara por ela.
-Como isso começou? - perguntou. - Posso compreender como teria evoluído, depois de você ter dado um passo inicial. Mas o que poderia tê-lo inspirado, em primeiro lugar?
-Não posso precisar a hora, o local, ou o olhar, ou as palavras, que criaram a base. Faz muito tempo. Eu já estava no meio antes mesmo de saber que havia começado.
-À minha beleza você logo se opôs, e quanto às minhas maneiras...meu comportamento com você sempre beirou a incivilidade e eu nunca falei com você sem que minha primeira intenção fosse atormentá-lo. Agora, seja sincero; você me admirava por minha impertinência?
-Pela vivacidade de sua mente, sim.
-Pode chamar logo de impertinência. Não foi muito menos do que isso. O fato é que você estava cansado de civilidade, deferência, atenção formal. Estava desgostoso com as mulheres que sempre falavam, procuravam e pensavam apenas em sua aprovação. Eu o excitei e interessei pelo fato de ser tão diferente delas. Se você não tivesse uma natureza afável, teria me odiado por isso; mas, apesar de todo o esforço que fez para dissimular, seus sentimentos sempre foram nobres e justos; e, em seu coração, você desprezava totalmente as pessoas que com tanta assiduidade o cortejavam. Pronto, poupei-lhe o trabalho de explicar; e de fato, pensando bem, começo a achar que isso é perfeitamente razoável. Na verdade, você não conhece nada realmente bom pra mim. Mas ninguém pensa nisso quando se apaixona.
 
Jane Austen (1775-1817)
Orgulho e Preconceito
 
 
Orgulho e Preconceito
 
 
 
 
Jane Austen (1775-1817)
 
 
 
 
 

 
 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Viajantes: Uirapuru


"Havia um passarinho que me interessou extremamente pelo seu canto, embora eu não tenha conseguido vê-lo. Chamam-no de uirapuru, palavra que significa "ave pintada", e me informaram que ele é do tamanho de um pardal. O Senhor Bentes me havia dito que eu certamente iria escuta-lo perto das cachoeiras, acrescentando que "ele entoa cantigas de todo o mundo, como se fosse uma caixinha de música". Escutei essa mesma afirmação da boca de várias outras pessoas, e de fato, durante um dia inteiro, logo depois do meio-dia - a hora em que os pássaros e as feras são mais silenciosas - tive finalmente o prazer de ouvi-lo cantar, bem perto de onde eu me encontrava. Não havia como confundir seu gorjeio de notas claras como o som de um sino, que ele sabia modular habilmente, como se sua garganta fosse um instrumento musical. Suas "frases" eram curtas, mas cada qual incluía todas as notas do diapasão. Depois de repetir uma frase por cerca de vinte vezes, ele de repente executava outra - eventualmente subindo cinco tons - repetindo-a o mesmo tanto de vezes. Normalmente, porém, ele fazia uma breve pausa antes de mudar de tema. [...].
A melodia singela, executada nas profundezas da mata virgem por um músico invisível, conferia àquele momento de um caráter de mistério, e me manteve enfeitiçado por quase uma hora, até que subitamente foi interrompida, para pouco depois ser reiniciada bem longe dali, numa distância tal, que o som só chegava a meus ouvidos como se não passasse de um débil tilintar [...]". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 98.
 
 
 
Uirapuru-verdadeiro (Cyphorhinus aradus)
Ilustração de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Viajantes: As delicadas e graciosas palmeiras na floresta!


"O maior encanto que a floresta virgem proporcionou pelo menos a mim, foram aquelas delicadas e graciosas palmeiras que a mais leve brisa faz curvarem-se de um lado para outro. Seus troncos finos e flexíveis quase se podem abarcar com a mão; no entanto alcançam até a metade dos troncos das altas e frondosas árvores... Como um penacho, não deixando também de parecer um molho de penas voltadas para baixo, agita-se muito alto em cima a pequena coroa formada de extremamente delicadas folhas piradas, verde-clara que terminam em ponta aguda que às vezes dá esta linda palmeira o aspecto de uma lança e outras também o de um caniço oscilante.

Nunca vi nada mais gracioso! Quando estas lindas palmeiras aparecem, saindo sempre em grande número dentre as frondes, deixam-se balouçar pela mais leve brisa, ou sacodem suavemente as lindas coroas como cumprimentando altivas e alegres para baixo. As palmeiras parecem gostar de sociabilidade - não só as altas e esguias, como também as com espinhos e grande coroas, como muitas outras altas e de troncos grossos, e as que brotam diretamente do solo, sem troncos, costumam em certos lugares manterem-se juntas. Muitas vezes cavalga-se por grandes extensões sem ver nenhuma espécie de palmeira e depois elas acompanham-nos por muitas hora".
Adalberto, Príncipe da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazonas - Xingu. 1977, p. 76-77
 
 
 
 
Palmeiras. C. Fr.von Martius (1794-1868)
 

domingo, 9 de março de 2014

Viajantes: Os sons da floresta.


"Pouco antes do pôr-do-sol, chegamos a uma margem um pouco mais elevada, com algumas palmeiras tucum espinhosas, onde montamos acampamento. Havia poucos mosquitos, um acontecimento tão agradável que merece comentário. Foi uma noite fresca, enluarada, mais cheia de ruídos do que nunca. Não sei se consigo me lembrar de todos: eram gritos, berros, rugidos, estrondos, gemidos, coaxos, assobios, sibilos, cantos e zumbidos enchendo o ar. Eu os ouvia meio dormindo, meio acordado. Mas o mais primoroso era o som abafado e grave dos mutuns, que do alto soltam melancólicos e repetidos mu-tum-tum, como se soprassem uma corneta.
Dizem que as anhumas gritam de hora em hora. Pode-se ouvir o som penetrante e repetitivo das cigarras nas árvores próximas. De vez em quando, ouve-se o grito rouco dos jacarés vindo dos aguapés próximos. Barulho maior ainda fazem os Penelope araquãs. Machos e fêmeas gritam, um após o outro, no mesmo tom. Os portugueses contam que o macho diz "Quero casar!", e a fêmea responde: "Para Natal!". [...]. No meio de todos esses sons ouvem-se nitidamente as numerosas Ardea (socó-bois), as gaivotas e outros pássaros aquáticos, o coaxar dos sapos e rãs. Toda essa barulheira acabou abafando completamente o odioso zumbido dos mosquitos. [...]". Georg von Langsdorff (1774-1852). Os diários de Langsdorff. 1997, p. 36-37.
 
 
Aracuã-de-sobrancelha.
 Desenho de Antonio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Viajantes: Flores da Amazônia - Aechmea tocantina


"[...]. Ao retornarmos à maloca, organizei minhas plantas e pertences em tempo hábil para a chegada da lancha dos seringueiros. Geraldo não queria atrasar-se. Eu parti com pesar. Toda a floresta estava iluminada pelas flores amarelas dos ipês (Bignoniacea), e por bombaxes com folhas novas brotando em galhos que há pouco tempo estavam nus. Até parecia que era primavera nesta região! Herons brotavam nas inúmeras ilhotas do rio; nas margens arenosas, flores miúdas roxas e amarelas; arbustos repletos de frutos e líquens, onde cresciam orquídeas e tillandisias, e a agressiva Aechmea tocantina, de espinhos grandes e negros. Além dos belos pássaros que vimos nessas ilhotas, havia pequenos morcegos, tartarugas e a tão temível  e asfixiante anaconda. Vimos também sete lontras, sendo que as duas mais jovens eram adoráveis". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010, p. 28.
 
 
 
 
Aechmea tocantina
Margaret Mee. Flores da floresta amazônica. 2010.