quinta-feira, 20 de março de 2014

Lendas e Curiosidades: Muiraquitã


"Saltando em uma das margens percorri pela floresta e depois pelas praias, a fim de ver, se  além de alguma planta nova, encontrava alguma recordação histórica, ou etnográfica. É este o segundo lugar onde a tradição diz, que se encontram os muiraquitãs e eram fabricados.
Duas lendas ainda correm entre os indígenas sobre a sua feitura ou existência. Uma que já tinha notado no meu diário de viagens, quando publicou-se as Lembranças e Curiosidades do Amazonas, pelo meu amigo o Sr. Cônego Bernardino de Souza, que é a seguinte:
Dizem, que nas fontes do Rio Yamundá, há um formoso lago denominado Yacyuaruá, consagrado à lua pelas Amazonas. Em certa fase desta em uma época marcada do ano, reuniam-se as Amazonas em torno ao lago e faziam uma festa à lua e a mãe do Muiraquitã, que no fundo do mesmo habitava. Dias depois de contínua festa de expiação, quando o lago apresentava sua face lisa e sem ondas, e a lua nele refletia-se, atiravam-se na água as Amazonas, e no fundo, da mão da mãe do Muiraquitã recebiam as pedras com as configurações que desejavam, então moles, porém, endurecendo logo que saíam da água. Essas pedras eram depois mimoseadas aos homens com que as Amazonas se relacionavam.
A outra, que ouvi de alguns velhos Uabóys, é também toda fabulosa. Referem que no mesmo lago existiam vivos os muiraquitãs, onde as mulheres iam apanhá-los. Para isso, era mister ferir uma parte do corpo, e deitar uma gota de sangue na água, sobre aquele que desejavam possuir, porque tinham diferentes formas. O Muiraquitã então parava e era assim apanhado facilmente. Com eles, então a mulher que tinha tido uma filha, recompensava ao pai.
Ainda hoje é crença quase geral, que essa pedra é animada. O que é fora de dúvida, é que aí e na costa do Parú, são os únicos lugares onde se encontram as mesmas pedras. No lago verde, em Alter do Chão, no rio Tapajós, também se encontrava [...].
Nesta minha excursão, ainda tive a felicidade de encontrar um, que, mostrando, disseram ser um sapo. É verdade que o artista parece que quis dar-lhe essa configuração". João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Exploração do Rio Yamundá. 1875, p. 35-36.
 
 
 

Muiraquitã.
 FUNDAÇÃO NACIONAL DE  ARTE. Instituto Nacional de Artes Plásticas. Museu Paraense Emílio Goeldi. Rio de Janeiro. 1981. (Col. Museus Brasileiros, 4).
 
 
 
 
Muiraquitã - Muirá kytan. J. Barbosa Rodrigues, na mesma obra, refere-se a etimologia da palavra explicando que vem de Muirá, 'pau' + kytan 'nó'. Pela semelhança que tem com as resinas.


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