terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Tajá: uma planta interessante


"A etnobotânica tem, entre os inúmeros vegetais ligados às crenças, superstições e usos dos indígenas e dos caboclos da Amazônia, os Tajás. Conhecidos, entre os civilizados, pelas denominações de tinhorão e caládios, foram eles batizados, consoante a botânica indígena pelo nome de Tajá.
Segundo E. Stradelli: Taiá " é nome comum a muitas plantas que se distinguem pelas largas folhas, formando toiça, muitas vezes elegante e caprichosamente manchadas, do gênero Caladium e afins."
O mesmo autor enumera as seguintes espécies de Tajá:
Taiá-embá - é uma espécie que toma a forma de tajá sem sê-lo como aliás diz o nome - não tajá.
Taiá-peua, tajambeba, tajápeba - tajá de raiz chata.
Taiá-pinima - tajá-pintado
Tajá-piranga - tajá-vermelho, tajá-pintado de vermelho. É entre estes que, parece, estão as espécies mais venenosas. É um tajá de largas manchas vermelhas, cor de sangue, de cujas
raízes os indígenas do Uaupés extraem o veneno que propinam às mulheres condenadas à morte por terem surpreendido alguns dos segredos do Jurupari.
Tajá-puru -  tajá a cuja raiz se atribui a propriedade de trazer a felicidade nos amores e de tornar marupiara (feliz) a quem o trás consigo pelo que se encontra muito cultivado especialmente no baixo Amazonas".
F. C. Hoehne escreve: "Uma das plantas mais interessantes, pela enorme semelhança do seu caule com o corpo de uma serpente, do gênero Lachesis, encontramos no gênero Staurostigma, que tem muitos representantes nas matas aqui do sul. No norte aparece ainda Dracontium, que também tem os pecíolos foliares e os pedúnculos florais maculados como uma "Jararaca", a ponto de poderem ser confundidos com esta serpente quando cortados e postos no meio da estrada". [...].
Na Amazônia, o povo conhece as virtudes mágicas do "Tajá pirarucu", que o caboclo pescador leva num ouriço de castanha, sob o banco da sua ubá ou do seu casco quando vai pescar, o que a dona da casa planta, à entrada da casa, (para que o tajá onça ou "tajá-cobra" a proteja.
Em simbiose com essas aráceas vivem espíritos bons protetores e amigos, como também espíritos diabólicos, terríveis e implacáveis. [...].
Todos os tajás tem história, diz Nunes Pereira:
O espírito ou a alma de um pássaro se encarna numa dessas espécies de aráceas: o "tajá que pia"; e o tamba-tajá, que está ligado à vida  amorosa da gente simples e romântica da Amazônia.
Do Tamba-tajá dizem em Tracuateua, no Estado do Pará, que tem "um macaquinho às costas" referindo-se à pequena folha que lhe aparece (nem sempre em todas) colada à página inferior das principais, e nela se vendo, também um coração rudimentar. Do que ali é conhecido com o nome de Cala-a-boca, dizem na Amazônia, em geral, que quando se mostra verde, as folhas, algo de mau ocorrerá. O Tajá Rio Branco protege a casa; e o do Rio Negro, se ela é invadida, dentre as suas folhas saem dois homens que afugentam as feras, os intrusos e os maus espíritos.
Há uma arácea, com idênticas virtudes mágicas, que se denomina Puraqué.
Todas essas forças mágicas nos são reveladas pelos índios e seus mestiços". Manuel Nunes Pereira (1892-1985). Moronguetá: um decameron indígena. 1967. v. 1, p. 147-148.


Caladium sp.
 La Belgique horticole. Journal des jardins et vergers. v. 11, t. 1, 1861.
www.plantillustrations.org

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