quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Um martim-pescador verde-bronze


"[...]. O terreno dos campos, irregularmente pontilhado de árvores mirradas, estende-se frequentemente até a borda dos diversos riachos, onde a água é maravilhosamente límpida e transparente, e quase sempre corre sobre leitos de enormes penedos, entre margens de rocha, gotejantes de umidade e coberta de samambaias e musgos, suas margens são debruadas com árvores altas, cujas copas se encontram formando longas alamedas de delicada verdura, por entre as quais a luz do sol cintila em raios brilhantes; nos galhos, onde frequentemente um martim-pescador verde-bronze está pousado à espera de sua presa na água sombria lá embaixo, balançam os ninhos do japiim nas extremidades de longas trepadeiras, entre bromélias de cor viva e outras parasitas". James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, p. 246.
 
 
 
Carará -Mergulhões - Gaivotas - Trinta-réis - Arirambas.
Álbum de aves amazônicas. Desenho de Ernst Lohse (1873-1930). (Detalhe)


domingo, 27 de dezembro de 2015

Muitas espécies desconhecidas no meu caminho


"[...]. Muitas espécies, ouso aventurar, são desconhecidas. As mirtáceas e leguminosas são as mais numerosas; a aristocrácia é representada pelos gêneros Hymenaea, Bauhinia, pelas figueiras gigantescas, Lauráceas altaneiras e colossais, bignônias, que fornecem as madeiras mais fortes. As mais belas são as acácias, as mimosas, as lasiandras e as esbeltas palmeiras, que se curvam no alto, em sedosas folhas. O proletariado é representado por outras, cássias carregada de tufos de flores, helicônias, palmeiras baixas, begônias, agaves, muitas espécies de cactáceas, arundináceas e vários bambus, muitas vezes com 13 metros de altura, desarmados ou terrivelmente espinhosos. Estes formam tufos impenetráveis, que só o peso de um elefante conseguirá romper; o caçador tem de abrir, penosamente, caminho com o facão, e sente-se tão seguro como se estivesse alojado em uma jaula vegetal. [...]". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 2001, p. 358.
 
 
 
Begonia sp.
L´illustration horticole. 1888.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

C. Fr. von Martius e as aves


"Centenas de róseos colhereiros (Platalea ajaja L.) perfilavam-se reunidos ao longo da margem e caminhavam lentos na água procurando alimento com o bico sôfrego. Em água mais funda, andam ali ao redor alguns graves jaburus e tuiuiús [...], perseguindo os peixes, com os compridos bicos. Numa ilhota, sita em meio da lagoa, acampam densos bandos de marrecas, paturis, patos grandes e frangos-d´água [...], e imúmeros  pavãozinhos voavam rápidos, em círculos, sobre  a fímbria da mata, ativos na caça aos insetos. Ressoam aqui, na mais alvoroçada  celeuma, chiados estridentes, chilreios dos mais diversos gêneros de aves, e, quanto mais observávamos o raro espetáculo, em que as aves, com a inata independência, representavam o seu papel no drama  da natureza, tanto menos  vontade sentíamos de perturbar, com mortíferos tiros, aquele cenário palpitante da vida. Avistamos mais 10.000 animais reunidos, cada um dos quais ocupado, segundo o natural instinto, no cuidado  da própria subsistência. Parecia-nos ter a visão de um renovado quadro da criação do mundo, e esse maravilhoso espetáculo nos teria ainda mais agradavelmente impressionado, se não nos ocorresse o pensamento de que a guerra, a eterna guerra, era a solução e misteriosa condição de toda existência animal. As inúmeras espécies  de aves aquáticas do brejo e do rio aqui se agitavam, umas no meio das outras, descuidadas, perseguindo cada qual o seu gênero de insetos,  rãs e peixes, cada qual sendo procurado por seu gênero de inimigo". J. B. von Spix (1781-1826); C. Fr. von Martius (1794-1868). Viagem ao Brasil. 1938, v. 2, p. 190-191.
 
 
 

C. von Martius (1794-1868) mostrando as aves em floresta brasileira.
Brasilien Entdeckung und Selbstentdeckung. 1992.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Uma extraordinária planta de pântano


"Na manhã seguinte, tão logo a última chama da fogueira foi apagada, começamos nossa escalada para a Serra do Curicuriari - a mesma que o botânico Richard Spruce explorou em 1852. Aproximadamente cem anos se passaram desde sua jornada, mas é quase certo que a região não tenha sofrido mudanças desde então, já que um século é apenas um momento na vida de uma montanha tão antiga.
Em nossa próxima viagem pelo rio, chegaríamos até Taracuá (formiga gigante) subindo pelo rio Uaupés, onde teríamos que pegar um barco a motor até Mercés e um avião anfíbio até Taracuá. Eu estava tão impaciente para explorar a região que em minha primeira excursão até um campo próximo encontrei diversas plantas interessantes - uma linda trombeta chinesa branca e amarela, Distictella magnoliifolia. Essa planta foi vista pela primeira vez pelo naturalista Alexander von Humboldt em sua viagem ao Orinoco, em 1800, e somente foi vista novamente na mesma região por Koch, em 1905. Encontrei clúsias e uma variedade de orquídeas, além de uma extraordinária planta de pântano, Rapatea paludosa. Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 38.
 
 
 
Rapatea paludosa
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988)
Flores da floresta amazônica. 2010



quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Peculiaridades da floresta equatorial


"[...]. Nas clareiras, onde os baluartes de verdura se delineiam, surpreendemo-nos ao notar muitas peculiaridades da floresta equatorial. Os esguios troncos das madeiras de lei plantam-se no solo como mastros: as árvores de madeiras mais leves têm gigantescas raízes fabulares que se elevam de dois a três metros acima da superfície do solo. As paredes das chanfraduras seriam capazes de abrigar uma companhia de soldados; essas raízes, aqui, como na África, podem ser, facilmente, convertidas em pranchas, e os índios, segundo nos ensina um velho missionário, usavam-nas como gongo, para chamar os extraviados, martelando-os com machadinhas. Os troncos ficam brancos de estiolamento, avermelhados com os líquens e musgos ou manchados de uma vegetação de um carmim resplendente. Levantam-se como uma paliçada contra o fundo de sombras e muitos deles são tão altos que, embora a seta do índio alcance o seu tope, o tiro de uma espingarda de caça não o conseguirá. Esses troncos avançam, sem galhos, antes de se espalharem, o mais alto possível, o que é melhor para a luta pela vida, privando seus vizinhos mais fracos dos bons raios solares, do ar, da luz e do calor. [...]". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 2001, p. 358.
 
 
 
Árvore  e sapopemas.
Franz Keller-Leuzinger.
Voyage d´exploration sur l´Amazone et le madeira. 1874.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Paixão pela natureza virgem


"Nas matas dessa localidade penetrei bastante e achei nelas muita semelhança com as florestas do Sangaçú: os mesmos tufos de orquídeas, os templos, as grutas e verdura, as arvores gigantes, tudo como lá. Caminhava sem recorrer ao facão porquanto as veredas já estavam abertas. Apanhei várias folhas de formas bizarras. Com a saúde voltava-me o interesse pelos estudos. Conhece-se já minha paixão pela natureza virgem e aqui eu podia satisfaze-la, esquecendo-me das horas em que , à vista de margens inabordáveis, passava por um suplício de Tântalo. Todas as noites ia dormir ao largo, fugindo aos mosquitos, e bafejando pela viração que vinha de terra. Uma noite, já deitado, gozando essa frescura, recebi violenta pancada no rosto e sem demora vi grande morcego, dos de tipo vampiro, voar por cima de mim. Logo depois os macacos gritadores começaram seu coro acompanhado dos cantos dos sapos. O rio refletia as árvores centenárias. François Auguste Biard (1801-1882). Dois anos no Brasil. 1945, p. 273.
 
 
Pintura de Tim Marsh.
Folhas bizarras na selva.
 


domingo, 6 de dezembro de 2015

Enquanto o sabiá cantava


"Apesar de sozinha a gentil lavadeira não estava sossegada.
Ora seu corpo cortava airoso como o da irerê as águas claras da bacia sobre as quais boiavam seus negros cabelos, quando não repousavam úmidos no dorso lustroso.
Ora fazia de uma folha, que a sua mãozinha travessa ia buscar aqui ou ali, uma canoazinha que punha-se a impelir com o sopro de sua boca mimosa até ela ir ao fundo. E quando se dava este naufrágio, como se ele a divertisse muito, seus lábios arroxados abriam-se em um riso alegre e ruidoso, deixando ver duas ordens de dentes pequenos, apontados e alvos como os jasmins que usava em seus cabelos.
E o brinquedo continuava. Brincava e ria sozinha como as aves suas companheiras que cantam na solidão.
Como era bela assim!
E o sabiá cantava e ela escutava-o.
O pássaro notou essa atenção e estimulado soltou uma escala nítida, estridente, argentina, clara.
Depois começou uma ária, melodiosa, sublime, em que a sua voz alcançava todos os tons com uma clareza e perfeição dignas de reparo, sobre os motivos talvez de alguma Lucia dos bosques.
Às vezes o canto tomava uns acentos clássicos que recordavam Stuck ou Mozart; outras havia nele uma melodia terna que lembrava Verdi.
Os japiins escolheram o seu melhor cantor para zombar da ave rei das matas. Ele fez fiasco. Não conseguiu arremeda-lo. O chilro do pássaro passava do lírico ao épico, do épico ao bucólico. Ora era pastoril, terno, apaixonado. Ora era altivo, arrogante, épico. Havia algumas notas que pareciam uma risada. Tinham seu quê de chacota, Offenbach misturava-se com Rossini.
Os japiins estavam mudos, corridos de vergonha.
E a gentil lavadeira parara de folgar e escutava, com a bela cabeça erguida, o canto do carachué. [...]." José Veríssimo (1857-1916). Primeiras páginas. 1878, p. 83-85.
 
 
 
Carachué (Sabiá) - Cutipuruí - Vô-Vô - Peruinha-do-campo.
Álbum de Aves Amazônicas -  1900-1906.
Ilustração de Ernst Lohse  (1873-1930).


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Crianças-flores


"Sentimentos de uma criança.
As crianças crescem e mudam na evolução natural da vida. Uma força desconhecida esconde-se por trás de uma maquilagem incompleta. Se alguém tentasse expressar esse sentimento ao associá-lo a uma orquídea, eu me pergunto como seria a descrição. O Bulbophyllum tentando alcançar o céu, a Masdevallia tentando sempre ser ainda mais alta, a Maxillaria cuidando para não deixar seu labelo pender e o simplório Chysis desejando ardentemente um dia se tornar uma beleza. São todas flores maliciosas e vigorosas. Nenhum tipo de repreensão surtiria qualquer efeito sobre essas crianças-flores, pois elas continuariam a fazer que bem entendessem". Takashi Kijima. Orquídeas: maravilhas da natureza. 1989.
 
 
 
Orquídea. Masdevallia macrura Rchb. F.
  Lindenia iconographie de orchidées. v. 3, 1887. (BHL).