quarta-feira, 27 de maio de 2015

Tajá


"A etnobotânica tem, entre os inúmeros vegetais ligados às crenças, superstições e usos dos indígenas e dos caboclos da Amazônia, os Tajás. Conhecidos, entre os civilizados, pelas denominações de tinhorões e caladios, foram eles batizados, consoante a botânica indígena, pelo nome Tajá.
Segundo E. Stradelli Taiá "é nome comum a muitas plantas que se distinguem pelas largas folhas, formando toiça, muitas vezes elegante e caprichosamente manchadas, do gênero Caladium e afins".
O mesmo autor enumera as seguintes espécies de Tajá:
"Taiá-embá  é uma espécie que toma a forma de tajá sem sê-lo como aliás diz o nome "não tajá".
Taiá-peua, tajambeba, tajapeba - tajá de raiz chata.
Taiá-pinima - tajá-pintado
Tajá-piranga - tajá-vermelho, tajá pintado de vermelho. É entre estes que, parece, estão as espécies mais venenosas. É um tajá de largas manchas vermelhas, cor de sangue, de cujas raízes os indígenas do Uaupés extraem o veneno que propinam às mulheres condenadas à morte por terem surpreendido alguns dos segredos do Jurupari.
Tajá-puru - tajá a cuja raiz se atribui a propriedade de trazer a felicidade nos amores e de tornar marupiara (feliz) a quem o trás consigo, pelo que se encontra muito cultivado especialmente no Baixo Amazonas."
F. C. Hoehne escreve: "Uma das plantas mais interessantes, pela enorme semelhança do seu caule com o corpo de uma serpente, do gênero Lachesis, encontramos no gênero Staurostigma, que tem muitos representantes nas matas aqui do Sul. No Norte aparece ainda Dracontium, que também tem os pecíolos foliares e os pedúnculos florais maculados como uma "Jararaca", a ponto de poderem ser confundidos com esta serpente quando cortados e postos no meio da estrada. F. C. Hoehne comenta também: "Como plantas ornamentais todas elas se recomendam muito graças à folhagem que, embora verde puro, como na maioria das espécies têm formas estéticas e brilho agradável. Mas nas formas maculadas do gênero Caladium a jardinocultura também já soube tirar excelentes elementos decorativos para estufas e salões. As largas bainhas que sustentam as espigas florais, do gênero Anthurium são muito decorativas também e, por fim, citaremos ainda o "Copo de leite" ou "Caladio", que pela sua inflorescência, é muito apreciado como planta de adorno e para produzir material para enfeite".
Todos os tajás têm história, diz Nunes Pereira. "O espírito ou a alma de um pássaro se encarna numa dessas espécies de aráceas: o "tajá que pia"; e o tamba-tajá, que está ligado à vida amorosa da gente simples e romântica da Amazônia.
Do tamba-tajá dizem, em Tracuateua, no Estado do Pará, que tem "um macaquinho às costas", referindo-se à pequena folha que lhe aparece (nem sempre em todas) colada à página inferior das principais, e nela se vendo, também, um coração rudimentar. Do que ali é conhecido com o nome de Cala-a-boca dizem, na Amazônia, em geral, que, quando se mostra verde, algo de mau ocorrerá. O tajá Rio Branco protege a casa; e do Rio Negro, se ela é invadida dentre as suas folhas saem dois homens que afugentam as feras, os intrusos e os maus espíritos.
Há uma arácea, com idênticas virtudes mágicas que se denomina Puraquê. Todas essas forças mágicas nos são reveladas pelos índios e seus mestiços.
Osvaldo Orico nos diz que "É variada e encantadora, na Amazônia, a superstição do tajá. Existe na família das aróideas uma profusão de espécies que se prestam, admiravelmente, às abusões do povo. Entre estas, vale citar o tajá-cobra. Diz-se que protege a casa contra os ladrões. Uma folha, posta na parede, estende-se em volta e toma conta do domicílio. Se este é visitado por gatunos, o tajá-cobra reconhece o meliante e dá-lhe o bote, tal como o faria uma serpente. História semelhante é atribuída ao tajá-onça.
A mais bela versão é, entretanto, emprestada ao tajá-sol. Possui este, no centro da folha, uma grande mancha vermelha como o formato de um coração, cercado pela moldura verde. Quando os índios estavam longe de sua amada e sentiam a necessidade de vê-la, recorriam a um processo mais veloz que o aeroplano e menos dispendioso que a televisão. Gritavam pelo nome da pessoa desejada no centro do tajá de sol. E logo a imagem do ente querido aparecia na parte rubra da folha, como num espelho incendiado pelo poder da ausência. [...]".
 
 
 
Caladium sp.  William Curtis, 1787.
 
 
 
 
 
 
 
Para saber mais:
 
 
 
 
HOEHNE, F. C. Plantas e substâncias vegetais tóxicas e medicinais. São Paulo: Graphicars, 1939. 354 p. il.
 
ORICO, Osvaldo. Mitos ameríndios e crendices amazônicas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília, INL, 1975. 296 p. (Retratos do Brasil, v. 93).
 
PEREIRA, M. Nunes. Moronguetá: um decameron indígena. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. 2 v.
 
RESQUE, Olímpia Reis. Amazônia Exótica: curiosidades da floresta. Belém: Swedenborg Comércio de Livros e Artes, 2012. 263 p. il.
 

STRADELLI, Ermano. Vocabularios da língua geral português-nheêngatu e nheengatu-portuguez, precedidos de um esboço de gramática nheênga-umbuê-saua mirî e seguidos de contos em língua nheêngatu poranduba. Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro. Rio de Janeiro, t. 104, v. 158. 1929.

domingo, 24 de maio de 2015

Os coloridíssimos pássaros tropicais



"Quadrúpedes não vimos sequer um, e pássaros, só uns poucos. Mas eles não estavam de todo ausentes, pois pudemos ouvir seus cantos. A esse respeito, gostaríamos de contestar a generalizada crença de que os pássaros dos trópicos têm uma pobreza canora proporcional ao esplendor de sua plumagem. De fato, muitos dos coloridíssimos pássaros tropicais pertencem à famílias ou grupos que não cantam, entretanto do mesmo modo que nossos pássaros de cores mais vivas, como o pintassilgo e o canário não são os menos musicais, também nos trópicos o mesmo ocorre com alguns dos seus pássaros mais vistosos. Escutamos alguns gorjeios semelhantes aos do melro e do pintarrão. Um canto constituído de três ou quatro notas doces e melancólicas atraiu particularmente nossa atenção. Alguns dos pios poderiam ser confundidos com palavras pelos espíritos mais sonhadores, quebrando a silenciosa monotonia da selva e produzindo assim um agradável efeito". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 31.
 
 
 
 
Uirapurus -Rendeiras- Saís.
Álbum de aves amazônicas. Ilustração de Ernst Lohse. (1873-1930)


segunda-feira, 18 de maio de 2015

As frutas de Belém


"Quem percorre o Brasil, de norte a sul, e vai visitando um por um dos mercados das metrópoles patrícias, ao chegar a Belém fica assombrado com a abundância de frutas. [...].
Em Belém todas as frutas da planície aclimadas e nativas, são abundantes, capazes de abastecer esquadras, de serem vendidas às toneladas.
Desde o bacuri, dádiva celeste, até aos taperebás, às tangerinas, aos uxis, aos umaris, às sapotilhas, aos ananases, às bananas, às mangas, aos abacates, aos mamões, às laranjas, aos araçás, aos abricós, às jacas, aos cupuaçus, às pupunhas, aos abius, às melancias, aos cajus, aos melões, às goiabas, aos açaís e as bacabas, os vários mercados da capital andam entulhados deles. Parece incrível que se consuma tanta fruta, pois os aparadores públicos permanecem repletos dessas joias botânicas oriundas das rocinhas da cidade e dos sítios dos arredores. Os frugívoros aqui podem viver como no Éden vivia nossa mãe Eva e nosso pai Adão. E se, como é provável, não encontrarem a maçã, é só  substituírem-na pela sapotilha, que ainda ganham na troca." Raimundo Morais (1872-1941). Alluvião. 1937, p. 161-162.
 
 
Frutas de Belém
Ilustração de Eron Teixeira (Detalhe)


domingo, 17 de maio de 2015

A selva: um palácio encantado!



"Palácio encantado onde se confundem os gritos e os cantos, os zumbidos e os assobios, as gargalhadas e os choros, os guinchos e os roncos, de casacas-de-couro e arapongas, dos ferreiros e curiós, de periquitos e jandaias, de joões-de-barro e papagaios, de rubras ciganas e colibris, de besouros e répteis asquerosos e tantos mais, todos membros de uma imensa orquestra, perfeita, grandiosa e única, ao calor calcinante do sol magnificante, que doira a copa das sumaumeiras e põe reverberos aurifulgentes em toda a massa florestal que se agita, contorciona, entrelaça, confunde, se esmaga e ergue, fugindo louca ao abraço trágico da selva, numa sede insaciável de luz, numa ânsia angustiosa de azul infinito.
Numa visão caleidoscópica adejam doidamente borboletas sem conta. Milhares de espécies, as mais inimagináveis cores, a mais caprichosa policromia, os mais estranhos desenhos nas suas asas fulgurantes, irrequietas, dos mais singulares feitios e tamanhos. [...]". Gastão de Bettencourt (1894-1962). A Amazônia no fabulário  e na arte. 1946 p. 59.
 
 
 
 
Floresta tropical
Pinterest.com


terça-feira, 12 de maio de 2015

As alegorias na selva amazônica!

 
 
"Um olhar na selva amazônica, sobretudo na da várzea, mais densa e escura que a da terra-firme, revela a ânsia dos dois reinos para os cimos, como se fugissem horrorizados da penumbra. Porque a floresta da pátria das aluviões é sem dúvida profundamente sombria, mal deixando passar no crivo da sua cabeleira verde um ou outro raio luminoso. A natureza então arma os seus representantes, vegetais e animais, de órgãos suplementares para a subida. E a caminhada rumo do alto, no aperto silvestre de mil espécies arbóreas, traduz-se por uma luta formidável, de girafas botânicas, a espicharem o pescoço para cima. [...]. As epífitas, suspensas na galhada em bouquets, em lianas, em coroas, em guirlandas, em cipós, lembram o cordame duma fragata vegetal encalhada na selva, quando não uma festa da Natureza em que bizarro decorador silvestre ornamentasse, árvore por árvore, a floresta em peso de esquisitas alegorias botânicas: palmas, flabelos, festões, grinaldas, frisos, coloridos na tinta de multifárias nuanças verdes, de multifários cromos glaucos, de multifárias tonalidades clorofiladas. Essa multidão floral foge espavorida do escuro". Raimundo Morais (1872-1941). Amphitheatro amazônico. 195, p. 152-153.
 
 
 
Árvore na  Praça Batista Campos. Belém-Pará-Brasil
Fotografia de Olímpia Reis Resque


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Bem-te-vi - o pássaro mais popular!


"Conhecem-se sob esta denominação várias espécies de pássaros da família dos Tiranídeos e de gêneros diversos, mas a espécie mais popular é o Pitangus sulphuratus L. e suas subespécies.
Pássaro de tamanho pequeno, pouco menor que o sabiá, não passando sua asa de 11,8 cm e a cauda 9,2. Seu bico é assaz grande em relação ao seu porte, pois mede 3 cm.
É pardo oliváceo na parte superior, asas e caudas marginadas de vermelho, cabeça preta com mancha amarela no vértice, as sobrancelhas, que se prolongam numa fita nucal, e a garganta, brancas; peito e abdômen amarelos.
São estes os bem-te-vis, com quem já na infância travamos conhecimento, garrulas e inquietas criaturinhas que monopolizam logo, ao primeiro contato, a admiração dos amantes da natureza.
O Príncipe Maximiliano de Wied, em 1826, escrevia: "É ave inquieta, vivaz, curiosa e bulhenta, assim persegue a fêmea ciosamente a gritos e por sua causa trava, a miúdo, luta com seus rivais. Na época dos amores, principalmente, ouve-se, por toda a parte, a sua voz clara e sonora tic-tivi, tic-tivi, tic-tivi".
Este tic-tivi, que é realmente a fonografia mais nítida do seu canto, soa aos ouvidos de nós outros, como se fosse a soletração escandida da frase bem-te-vi, com que ficou conhecido popularmente. Entre os indígenas parece que era conhecido pelo nome de pitanguá ou pitauá.
É o bem-te-vi um boêmio alegre rixento, batalhador, mas simpático pela sua alacridade.
Entre os amigos do seu bando, porque vivem em pequenos grupos, mostrava-se afetuoso e festeiro. Recebe sempre o camarada com alvoroço, batendo as asas e arrumando as penas do seu topete, o que lhe engrandece o aspecto de brigão indisciplinado.
Nestes grupos sempre voejantes, que disparam em brincadeiras infindas de árvore para árvore, gastam dias inteiros musicados pelos incessantes gritos de bem-te-vi.
Para que não fique rouco de tanto gritar, escreve Goeldi, aparelhou-o a alma mater, dentre toda sua parentela, de músculos fortíssimos na garganta. [...].
Os bem-te-vis, afora os encantos pessoais são pássaros utilíssimos à agricultura, a que prestam serviços notáveis, estruindo um mundo de insetos. [...]." FAUNA, a. 2, n. 6, jun. 1943, p. 19.
 
 
Tesouras -Bentevís - Maria-é-dia - Bentevis-miúdos
Álbum de aves amazônicas 1900-1906.
Ilustração de Ernst Lohse. (1873-1930)


quinta-feira, 7 de maio de 2015

A Palmeira Buçu



" A palmeira buçu pareceu-me, porém, ostentar maior encanto. Um tronco muito curto, encimado por um imenso leque de folhas. É a Manicaria saccifera. Nunca vira folhas de palmeira maiores. Elevam-se quase verticalmente; têm até 30 pés de comprimento, dando a impressão de grande dureza e consistência. São sem dúvida peniformes, mas só num período mais avançado de seu desenvolvimento, de sorte que as folhas mais novas formam uma grande superfície lisa. Essas folhas inteiras dão uma ideia de vigor e pujança. Além disso são extraordinariamente duradouras e constituem por isso excelente material para cobertas. Todos os telhados das malocas no baixo Amazonas são de folhas de buçu. De uma única folha, cortada convenientemente, faz-se uma porta inteira para a oca simples do índio. Enquanto um telhado de folhas de Euterpe oleracea  ou geonomas resiste de três a quatro anos, uma boa coberta de buçu dura até 20. Servem-se também dessas grandes folhas, encostando-as do lado de fora das frágeis paredes de barro das ocas, para protege-las   contra os fortes aguaceiros. Por isso muitas malocas de tapuias parecem feitas de folhas secas de buçu e, de fato, seria fácil construir uma casinha só com essas belas folhas de palmeira, cuja orla serrilhada faz realçar ainda mais a beleza da planta". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961. v.2, p. 62-63. 
 
 
Buçu ou Ubuçu Manicaria saccifera.
C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum (1823-1850).