sábado, 30 de janeiro de 2016

Helicônias com suas flores escarlates


"A uniformidade da superfície do terreno e a aparente confusão da terra com o céu, produzida pela atmosfera nublada, carregada da fumaça das queimadas, produzia sobre o espírito a mesma impressão, que se tem quando se olha para o mar largo, e que era realçada pelos grupos distantes e espalhados de árvores, os quais apresentavam a aparência de ilhas.
Estes grupos, que em geral têm a extensão de alguns hectares, quando se vai aproximando deles tomam a aparência de formas arquiteturais assemelhando-se as fortalezas ou castelos. Chegando-se mais perto a cor verde das árvores que é realçada por uma orla de palmeiras Tucumãs (Astrocaryum tucuma) com seus lindos e amarelos cachos de cocos, e, na parte inferior pelas Helicônias de folha lustrosa com suas flores escarlates, apresenta à vista um relevo tão agradável depois da monotonia da planície como a deliciosa sombra e a evidência da vida animal e vegetal a todos os outros sentidos, assim que nelas se entra. [...]". Orville A. Derby (1851-1915). A Ilha de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 2, n. 1-4, 1898, p. 170.
 
 
Heliconia chartacea.
Margaret Mee. In a search of flowers of the Amazon Forests. 1989.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A barulhenta vida animal


"As matas por aqui são repletas de barulhenta vida animal especialmente aves que aclamaram com assobios, gritos, chilreios e estridências a vinda de uma brisa fresca à tarde: havia bandos de barulhentos "pássaros pretos", lembrando demais, tanto em trinados como em forma e cor, nossos melros ingleses, canindés esganiçados (grandes araras purpúreas), bandos de periquitos, graciosas garças brancas; ouviam-se também os gritos altos das seriemas os gritos agudos e repetidos da araponga, como se batesse em uma barra de ferro, o grunhido de pecaris e os mergulhos ruidosos das capivaras. Não se deve imaginar que todos estes sons emanavam de uma localidade dada como uma menagerie ou jardim zoológico; este é um engano em que incorre frequentemente ao descrever cenas tropicais, pois o viajante não tem como mencionar as diferentes aves, animais, ou gritos estranhos quando os encontrar ou ouvir em momentos diferentes durante a jornada de um dia. [...]". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 168. 
 
 
Periquitos (Detalhe).
Álbum de aves amazônicas de Emílio A. Goeldi.
 Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)


sábado, 23 de janeiro de 2016

As Igrejas do Grão-Pará


 

"Precavido a muitos respeitos, o organizador da jornada ao Pará prevenira-se com o acompanhamento de sacerdotes, não só para o bom êxito da expedição, como também para a prática por eles, continuadamente, do serviço divino, na qual os conquistadores tinham a máxima confiança. Assim é que vieram com Francisco Caldeira de Castello Branco: Fr. Antônio da Merciana e Fr. Christovão de São José. Não descuraram estes de erigir, à medida em que progredia a construção do forte, e dentro do seu recinto, uma pequena ermida, sob a invocação de Nossa Senhora da Graça, sendo esta a primeira casa de Deus que surgiu em meio do novo povoado, sagrando a sua fundação.
No ano seguinte ao deste assinala o evento, os capuchos de Santo Antônio fundaram um pequeno hospício no sítio chamado Una, e 1626, em Belém, o convento com a sua capela ao lado, para o serviço divino. A atual igreja de Santo Antônio, data, porém, de 1736-1743.
Junto, ou melhor, nas proximidades da primeira ermida, foi construída outra igreja, que posteriormente tomou o nome de Santo Alexandre, sendo terminada em 1660. Foi ela o colégio dos padres da Companhia de Jesus, até a expulsão destes, em 1760, quando ficou abandonada, sendo entregue à irmandade do Santo Christo, até 1790, e por fim transferida esta para a Igreja das Mercês.
Caída em abandono, foi a igreja de Santo Alexandre restaurada e solenemente benzida no dia 26 de fevereiro de 1863. [...].
Era um dos mais ricos templos do Pará, como atestam ainda hoje o seu altar mor, todo em madeira esculpida, e o seu púlpito bem talhado, de onde a voz portentosa do grande apóstolo e orador sacro, o imortal Antônio Vieira, o gentium dux, fez maravilhas de submissão a lei de Deus.
A Igreja do Carmo, erigida pelos padres carmelitanos, e na atualidade a terceira das que aí foram fundadas, construída a atual em 1776. Caída em abandono, foi em nossos dias restaurada.
A Igreja das Mercês deve ter sido começada quando aqui chegaram os primeiros mercedários, em 1640, com a expedição de Pedro Teixeira, de volta de Quito, vindo com ele os religiosos mercedários Fr. Pedro de la Rua Cirne e Fr. João da Mercê. Em 1852 serviu e matriz da paróquia de Sant´Anna, por estar em conserto a respectiva sede paroquial. Durante o episcopado de D. Antônio de Macedo Costa fechou suas portas ao culto, sendo, porém, restaurada atualmente pelo Sr. Arcebispo D. Santino Coutinho. Sua construção é característica e a sua fachada é a mais artística de todas as igrejas de Belém. Conservaram-se nela vários quadros de pintura religiosa de valor bem apreciável, hoje dispersos e desaparecidos. [...]".

 Theodoro Braga (1872-1953)
Apostillas de história do Pará. 1913, p. 37-39.
 
 
Igreja das Mercês
Álbum de Belém. 15 de Novembro de 1902.
Fotografia F. A. Fidanza
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna (MPEG)
 


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Rua dos Mercadores



"[...]. Belém, naquele tempo, se expandia vagarosamente. Da clareira da Matriz de N. S. da Graça, becos, ruelas, veredas, trilhas marginavam paralelas ao rio; outras penetravam à mata, abriam caminhos normais ao litoral. Surgiam as primeiras ruas como setas de uma estrela nas quatro direções da urbe que dava seus passos iniciais. Uma descida do “largo” procuraria vencer o pirizal em demanda da outra margem permitindo, ao colonizador, atingir o caminho certo que o levaria ao convento dos Capuchos de Santo Antônio, situado nos confins da cidade, ou o da praia que terminava nas instalações humildes dos Mercedários. Era a avançada para as terras da Campina que, desde cedo, encantaria aos heróis de nossa formação.
Saindo da “cidade” propriamente dita, necessariamente, ter-se-ia que vencer a baixada na foz do Piri, transpondo-a pelas palafitas de uma ponte improvisada, lateralmente solta, presa às amarras de tronqueiras e cipós que constituíam sua estrutura empírica, garantindo sua segurança e a dos moradores. Da calçada do Colégio o rumo era um só: atravessar essa “pinguela” indígena, penetrar nos caminhos dos frades que acompanhavam os tijucais da margem mole do rio desde a casa do “Ver-o-Peso” as tendas humílimas dos Mercedários e daí seguir, subindo, à Misericórdia, para vislumbrar, distante o velho hospício dos Capuchos onde eles viviam à sombra de suas taipas brancas e acolhedoras.
Exatamente, dessa entrada à margem do igarapé do Piri, entre o “Ver-o-Peso” e as “Mercês”, o povo, na sua sublime  simplicidade e inspiração, naquela época recuada de nossa história, fixada com absoluta autenticidade o nome, a denominação da artéria que nascia: a Rua dos Mercadores!
A partir da metade do século XVIII, tornar-se-ia, Rua da Cadeia, em razão da construção do novo prédio para a casa, da Câmara e Cadeia, quando, a voz popular, logo a batizaria com essa designação. Hoje, é a tão querida e mais importante rua do comércio de Belém, em todos os sentidos de seu gênero a atual rua do Conselheiro João Alfredo – ou qualquer outra designação que se lhe queira atribuir – ela o será na sua paisagem secular e no seu espírito urbano a velha e intangível Rua dos Mercadores, a mesma que os nossos  antepassados edificaram do nada. Agora e sempre, em cada lajedo de cantaria, em cada esquina solitária, em cada arcada centenária, mercadeja-se como nos primeiros tempos. [...]".

Augusto Meira Filho
Contribuição à história de Belém. 1973, p. 186-187.
 
 
 
 
Rua Conselheiro João Alfredo.
 Nesta fotografia avistam-se os prédios do Banco do Pará e a Livraria Universal.
BELÉM da Saudade: a memória da Belém do início do século XX em cartões postais. 4. ed. 2014.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - MPEG
 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Usos e costumes em Belém no século XVII



"[...]. Quanto aos costumes, usos, estilos e festas populares, ... – conservavam os dos portugueses, seus antepassados.
As mulheres trajavam-se à moda europeia. Eram excelentes mães de família, não lhes sendo desconhecidos “o lavor de bordar, de coser, de bilrar rendas e de lavrar de agulha ou de penas atavios de flores”.
Até o ano de 1749, o dinheiro corrente na cidade era simbolizado pelos novelos de algodão ou gêneros da terra. Não existia outro.
O decreto régio de 12 de junho de 1748 estabeleceu o derrame do dinheiro amoedado, tempos depois posto em circulação.
Vem daí o seu curso e uso no Pará.
Uma das festas mais populares e mais concorridas da época era a do Apóstolo São Tomé, instituída pelos jesuítas. Pretexto para folguedos, danças e desordens.
Realizava-se em terreno apropriado, lá para as bandas da antiga Pedreira, no rio Guamá.
O Natal de Jesus servia de motivo para as reuniões familiares, onde eram servidas ceias em iguarias portuguesas, desde vinho ao bacalhau e às castanhas.
Outra festa religiosa, datando dos fins do século XVIII, movimentava todos os anos os paraenses. Era a de Nossa Senhora de Nazaré, cuja ermida fora construída em 1774. Foi D. Francisco de Sousa Coutinho, Governador e Capitão General do Grão-Pará e Rio Negro, que deu organização ao Círio, em 1793.
Aberto o Largo de Nazaré para a feira, que se seguia à solene procissão, Belém enchia-se de romeiros, provindos de todos os recantos, dando à cidade aspecto festivo.
Nas barracas cobertas de palha de palmeiras, eram vendidos os produtos da terra: cacau, baunilha, guaraná, arroz, anil, urucú, utensílios de cerâmica indígena, tabaco, redes, peixe salgado, etc.
A festa do arraial era, pois, um acontecimento na vida belenense. O São João constituía outra tradicional herança portuguesa. Os banhos cheirosos, as sortes, as fogueiras, os mingaus, a canjica, o arroz-doce deram, com o tempo, um sabor regional aos folguedos joaninos. Das bebidas usuais de origem indígena, o açaí e o tacacá chegaram aos nossos dias.
O açaí dá em cacho. É originário de uma palmeira nativa, de tronco fino, abundante em todo o território paraense, principalmente nas ilhas. As amassadeiras, assim chamadas as mulheres que se dedicam à venda do açaí, extraem da polpa da fruta uma bebida deliciosa, de grande consumo entre todas as classes sociais. É de cor arroxeada. Serve-se com farinha e açúcar ou mesmo sem este. Uma bandeirinha vermelha, na porta da quitanda ou de qualquer barraca, indica a venda do açaí.
O tacacá é outra bebida muito apreciada pelos paraenses. Faz-se da mistura do tucupi com a goma da mandioca, e enxerto de jambu e camarão.
Outra usança da era colonial, e que chegou até nós, é o beiju-xica. Diz Baena que essa massa “foi inventada pelas mulheres portuguesas à semelhança dos filhós de massa de trigo”.
É extraída da mandioca branca ralada e socada no pilão. Vai ao forno. Os que escreveram as crônicas desse tempo são unânimes em proclamar a excelência das comidas e do clima, que diziam “apto para a vida, mas inda propício à longevidade”.
E vinham os exemplos. As relações paroquiais onde, em suma, 30 homens e 30 mulheres entre cem tinham alcançado idades que variavam de 90 até mais de 100 anos.
A água, que os habitantes bebiam nessa época, e com que se supriam para as suas necessidades caseiras, era a de poço.
Existia o paul d´água, na antiga estrada desse nome, hoje Avenida de São Jerônimo. O manancial era explorado por particulares.
Depois, a Câmara Municipal tomou a si esse encargo.
A fonte do Domingús, que ficava para as bandas do Tapanã, fornecia excelente água potável de grande consumo na cidade. Quem não podia ir busca-la, comprava-a dos aguadeiros. O mesmo acontecia com a fonte da Pepe.
Até princípios do século XIX, era assim que Belém vivia.
Como um grande burgo, onde os capitães-mores, opulentos e negligentes em sua maior parte, compraziam-se em passear a sua soberbia e a tirar da terra as riquezas, que embarcavam às pressas para a corte”.
Ernesto Cruz
Belém: aspectos geo-sociais do município. 1945, p. 59-62.
 
 
Estrada do Paul d´Água, depois Estrada e Av. São Jerônimo, e hoje é chamada A. Gov. José Malcher,  cruzamento com a Av. Generalíssimo Deodoro. Á esquerda, o antigo palacete do Dr. Augusto Montenegro.
 BELÉM da saudade: a memória de Belém do início do século em cartões postais. 1996
Acervo Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna (MPEG)
 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A descrição de Belém por Theodoro Braga



 
"A descrição de Belém feita por Theodoro Braga, através dos vários itinerários dos bondes, nos dá uma perfeita ideia da cidade dessa época: do elegante “Boulevard da República”; da Rua Conselheiro João Alfredo, “principal artéria elegante do comércio a retalho”; da rua 28 de setembro, no Reduto, “artéria principal do bairro menos abastado, cheio de povo e pequenos comerciantes, sobretudo de nacionalidade síria”, bairro este que continha, além das usinas da The Pará Eletric Railway and Lighting Co., “as fábricas de gelo, de cordas, de pregos, de construção e móveis Freitas Dias, grande armazém de ferragens Redutense tomando todo um quarteirão, da Av. 15 de Agosto, em construção na época e que era considerada como destinada a vir a ser, no futuro, “a mais bela e majestosa avenida urbana” no término da qual estava a Praça da República, com o Teatro da Paz, “a Farmácia Dermol, a mais bela e importante da cidade, a elegante casa de modas de Mme. Bousseau, o cinematógrafo Rio Branco e o Café da Paz”, além do Grande Hotel, o cine Olympia, “a mais bela e confortável casa de seu gênero”, e o clube High-Life; da Avenida Nazaré, de perspectiva majestosa, “toda sombreada por altas mangueiras”, ladeada pelos principais colégios e clubes; da Avenida Independência, onde havia, em frente ao Instituto Gentil Bittencourt, o teatrinho Bar Paraense, junto à grande Fábrica de Cerveja Paraense; da Avenida Tito Franco, “cuja perspectiva é grandiosa, pois que é bordada de árvores da mata próxima e o seu fim perde-se, ao fundo, na floresta apenas esbatida”; da Rua Manuel Barata, importante pelo comércio e por nele existirem numerosos gabinetes dentários; da Avenida Padre Eutíquio, com os “templos das lojas maçônicas”; da Avenida São Jerônimo, “que, com a de Nazaré, forma o bairro aristocrático da capital”, graças às vivendas confortáveis de personalidades salientes na política, no comércio e na magistratura; do bairro da Cremação e Jurunas, populosos, de operários e jornaleiros; da Cidade Velha, com suas igrejas e edifícios públicos, etc. etc.
O centro bancário de Belém se desenvolvia em torno da Rua 15 de Novembro, assim como a maioria das companhias seguradoras ali se achavam; a Av. 15 de Agosto e Praça da República continham os melhores cafés da cidade; não faltavam as livrarias, “todas na rua Con. João Alfredo”.
Belém é ainda vista pelo mesmo autor, como uma “cidade que acompanha “pari-passu” todo o evoluir da civilização europeia, em contato semanal com os centros elegantes do mundo; assim sendo, “Belém não podia deixar de ser um empório de coisas frívolas, mas indispensáveis, que o requinte moderno exige”.
Para o autor citado, Belém era uma cidade em pleno rejuvenescimento, pois que, ao lado de edifícios que se tornaram obsoletos, havia “palacetes, onde o conforto e o gosto apurado”, faziam “lembrar centros europeus adiantados”; especialmente, ressalta Braga, possuímos “palacetes de gosto e elegância, vilinos e chalets”, ao longo das Avenidas São Jerônimo, Independência, Nazaré, Cons. Furtado, Generalíssimo Deodoro e Tito Franco”. [...]".

 Antônio Rocha Penteado
Belém do Pará (Estudo de Geografia Urbana). 1968, v. 1, p. 159-160.
 
 
 
 
Cruzamento da Avenida de Nazareth com a Travessa Quintino Bocayuva.
À esquerda, observa-se o prédio do antigo solar do Barão de Guamá.
BELÉM da Saudade. 1996.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna (MPEG)
 
 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Piri



"[...]. Todas as plantas do século XVIII mostram claramente o domínio da grande baixada que praticamente dividiria a urbe em duas partes. O Jesuíta João Daniel em seu trabalho, hoje raríssimo, cita Belém como que separada em duas porções: uma a direita e a outra à esquerda do valado do Piri. A velha travessa de São Mateus em função paralela à Estrada de São José, serviria de eixo divisório, além de já o ser, desde a criação do bispado, a linha que separaria as duas paróquias da cidade: a da Sé e a da Campina: [...].
Baena informa em suas obras ter o Piri 600 por 300 braços e isso  se poderá constatar com clareza nos desenhos efetuados na segunda metade do século XVIII.
Com maior destaque, a planta de 1791 de Constantino Chermont define os limites molhados do discutido pântano que, para seu ensecamento, os serviços durariam um século, sendo aterrado com pedregulho e cascalho das poucas zonas altas de Belém, procedido em costado de escravos e transportado em cestões próprios para tal fim.
As referências históricas pintam-no pleno d´água no inverno,  com suas palmeiras, suas jacitaras, seus açaizais, suas aves multicores e, em função de sua superfície, muitos de nossos cronistas do passado longínquo, julgariam Belém situada em uma “ilha”.
O dique perimetral de Belém representa o contorno da cidade para a drenagem comum de várias bacias da mesma característica e do mesmo sentido geográfico do Piri. Contudo, a maior delas e de maior significação na evolução urbana efetivamente, seria o Piri que, desde o século XVIII impediria, a expansão do trançado retilíneo estabelecido na velha cidade após a sua fundação em 1616. Portanto, toda essa parte de Belém compreendida nessa enorme faixa que enquadra os logradouros internos da atual Rua “Padre Eutíquio” até o “Arsenal” e da “Av. Tamandaré” ao “Ver-o-Peso”, tudo se constitui dos tijucais moles do Piri, terreno fraco e de difícil, além de onerosa aplicação para edificações. [...]".
Augusto Meira Filho
Notas para a história.
A Província do Pará, Belém, 16 de junho de 1974. Jornal Dominical, a. 1, n. 19, jun. 1974. 3º. Caderno.
 
 
 
Planta da cidade do Pará, feita pelo Capitão Engenheiro Gaspar Gronsfeld, provavelmente em 1771.
 BELÉM do Pará. 1995.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna (MPEG)
 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

As primeiras ruas de Belém do Pará



"Cessada a resistência dos índios, saíram os colonos do interior da Praça das Armas e iniciaram o desbravamento da mata. Abriram caminhos. Ao primeiro, que corria paralelo ao mar e que findava no sítio onde o famoso sertanista Bento Maciel Parente edificara a sua casa de moradia, no tempo em que era Capitão-Mor do Pará, chamaram Rua do Norte. Isto em 1621. Pouco depois, foram abertas mais duas ruas: a do espírito Santo e a dos Cavaleiros. Logo a seguir a de S. João, todas paralelas à do Norte. Desenvolvendo-se a colônia em direção ao centro, foram rasgadas, mais tarde, os caminhos transversais, chamados da Residência da Atalaia e Barroca. A rua de S. Vicente, no bairro da Campina, foi aberta em 1676.
Antes de findar o século XVIII, Belém estava dividida em duas freguesias: a da Sé e a de Santana. A primeira era a mais antiga e compreendia o bairro da Cidade Velha, que vinha da era remota da fundação.  A segunda havia sido criada em 1727, situando-se no bairro novo da Campina, que teve por matriz, logo nos primeiros tempos, a Igreja do Rosário. Servia de divisa aos dois bairros a antiga rua de S. Mateus, hoje Travessa Padre Eutíquio.
As ruas eram estreitas e mal alinhadas, tendo os nomes assinalados nas esquinas com “uma inscrição alva em campo negro”, datando esse uso de 1804, segundo assevera Baena. Em geral os moradores de maior destaque davam nome às ruas em que residiam. E não só os moradores, como os edifícios públicos, as igrejas “ou outra particularidade ocasional ou local”.
Por Ver-o-Peso ficou conhecido, até hoje o trecho onde outrora foi instalado um posto fiscal com esse nome. O Largo do Palácio tira a sua denominação do edifício construído, ao tempo da colônia, para residência dos governadores. Também o Largo da Pólvora é uma tradição do estabelecimento, que ali existiu, para depósito desse inflamável. É hoje a Praça da República. Já foi também a de Pedro II, mas nunca deixou de ser o Largo da Pólvora, conhecido e apreciado pelas suas frondosas e confortadoras mangueiras".

Ernesto Cruz
Belém: aspectos geo-sociais do município. 1945.v. 1, p. 36-37.
 
 
 
 
Trecho da Praça da República no início do Sec. XX.
 Antônio José de Lemos. O Município de Belém. 1904.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna (MPEG)
 


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A formação de Belém



"Não deixa de haver interesse em saber-se como se formou a nossa hoje grande capital, que, afastando-se da regra geral, quanto mais velha fica, mais moça e formosa se nos apresenta.
Fundada Belém, a primeira praça aberta na mata frondosa foi a da Matriz, aquela que chamamos atualmente de Dom Frei Caetano Brandão, antigo Largo da Sé, que ocupava o centro do local que Castelo Branco fez povoar. O Largo era separado do centro do matagal por um extenso igarapé que, partindo do Ver-o-Peso, dava longa volta paralela à Avenida São José, tomando daí o rumo do Arsenal de Marinha, junto ao qual, nos fundos, desaguava para o Guajará, sendo essa parte do igarapé – assim cremos – hoje conhecido pelo nome de Igarapé do Ladrão.
Pouco a pouco se foram abrindo as vias públicas que formam o bairro da Cidade Velha: ruas Norte, Espírito Santo, Cavalleiros, São Boaventura, Aljube, Alfama, Longa, São João e outras; travessas Rosa, Atalaia, Água das Flores, Barroca e Ferreiros; largos do Carmo, Palácio, São João, São José e Arsenal; estrada Mongubeira, Calçada do Colégio e estrada de São José.
Um longo caminho pela mata a dentro ligava o Arsenal de Marinha ao arraial de Nazaré onde existia um portão sob a fiscalização de um guarda. Outro caminho tortuoso ligava o largo da Campina (atual Praça da República) ao engenho de Theodureto Soares. Na margem deste caminho, no local da Praça de Nazareth, residia, em meados de 1700, um homem de cor, chamado Plácido, em cuja barraca festejou-se primitivamente a imagem de N.S. de Nazareth, e que deu origem à nossa grande festa anual, e que mais tarde foi causa também para a abertura do arraial de 1774. Além desses dois caminhos, havia outros, que serviam para as comunicações do povo, pois até fins do século XVIII a edificação era rara no largo da Campina e arredores. Vagarosamente foi ela andando para fora da cidade velha, marginando, porém, sempre o Guajará até ao Convento Santo Antônio.
O Reduto de São José ocupava o sítio em que foram instaladas mais tarde as oficinas da Companhia do Amazonas; foi ele construído em 1771 ficava no flanco do convento de Santo Antônio. Fez-se um reduto de faxina à borda d´água, com a berma circuitada de paliçada, e montaram-se aí quatro canhões de grosso calibre. O terreno foi previamente estaqueado. Esta construção teve em vista completar a resistência do Forte de S. Pedro Nolasco que ficava aos fundos do convento das Mercês, em defesa da cidade. Além destes fortes, havia a Fortaleza de N.S. das Mercês, em defesa da cidade. Além destes fortes, havia a Fortaleza de N.S. das Mercês da Barra (Fortaleza da Barra) feita em 1685, num banco de pedra e que ainda existe transforada em entreposto federal de inflamáveis.
Em meados de 1793 o governador Francisco de Souza Coutinho mandou construir entre o Reduto de S. José e o Forte de S. Pedro Nolasco uma sólida bateria, sobre a praia, com um lado para o mar e o outro para a terra, e nela montou cinco canhões de grosso calibre e outro de menores. Em 1807 foram unidas as fortificações (S. José ao Santo Antônio) e anos depois, completamente arruinadas, foram demolidas, para serem levadas até ao mar as travessas da Estrela (Ferreira Penna) e Piedade, sendo então feitos melhoramentos que ali se vêm. Desses terrenos a Companhia do Amazonas tomou conta e neles instalou suas oficinas, sendo os mesmos cedidos pelo governo por aforamento. Depois, apareceram a Rua da Cadeia, a do Açougue, a das Flores, travessas do Pelourinho, de S. Matheus, do Passinho, das Mercês, do Açougue, etc. Em 1801 foi construído quase à Rua das Flores, além do largo da Campina, um chafariz de pedra com duas bicas, e ao largo que o circunda (em continuação da travessa da Piedade) deram o nome de largo do Chafariz, como ainda é conhecido. (Neste largo estiveram as montanhas russas). Para chegar a esse chafariz descia-se por duas escadas de pedra, de cinco degraus.
Em 1886 ainda existiam naquele local as quatro paredes desse chafariz que reais serviços prestou aos moradores ali, e na face inferior de uma das paredes estava gravada a data de 1802, quando, talvez, fosse ele inaugurado.
Posteriormente, foram demolidas pela câmara. Em 1841 foi aberto, entre o Reduto S. José e o igarapé Reduto, um canal que desse escoamento às águas da cidade e pudesse ser navegado. Esse igarapé cortava Belém e ia até muito longe. Em 1851 o governo contratou com Antônio José de Miranda a transformação daquele igarapé numa doca para abrigo de pequenas canoas, o que se realizou em 1852. Somente em 1851 começou a ser aterrado e nivelado o largo do Palácio, para dar esgoto às suas águas.
A lei que autorizou esses serviço (n. 174 de 3 de dezembro de 1850) mandou também que fossem macadamizados os seus passeios, colocando-se bancos e arborizando a praça. Nos anos seguintes foram votadas verbas para esses serviço, bem como para o aterro e nivelamento da Praça República. Ainda nos anos de 1859 e 1860 vemos verbas nas leis números 351 e 494 para essas despesas, assim como nos anos de 1854 a 1872 para desobstruir as docas do reduto e do largo de Palácio. Em 1872 a assembleia votou a lei n. 729, autorizando o governo a mandar abrir as docas no antigo curro da rua S. Boaventura e no igarapé das Almas (hoje Souza Franco), o que não se realizou. A esse tempo, já existia a calha da travessa do Cano, entre as ruas S. Boaventura e Dr. Assis, que recebe as águas das valas da estrada Almirante Tamandaré e na qual bem como no igarapé S. José (largo do Ladrão) foi, naquele ano, colocada a comporta ou ladrão que ainda se vê, e que deu o nome do dito igarapé; nas docas Reduto e Ver-o-Peso, existiam outras que foram retiradas ao depois, por conveniência. Em 1871 foi a Câmara Municipal de Belém autorizada pela lei n. 695 a concluir o arruamento nos terrenos que compunham a sua légua patrimonial, à margem esquerda da E.F. de Bragança, no sentido de aumentar a edificação da cidade, o que levou a efeito pouco depois. Aquele bairro chamado Marco da Légua, deu grande impulso a linha de bonds estabelecida em 1872, nos termos da lei n. 665, de 31 de outubro de 1870, e contratado entre o governo e a firma concessionária daquele serviço, Bueno & Cia, em 6 de novembro de 1871. A esse tempo já existia o largo de S. Braz (Floriano Peixoto), que foi aberto em 1850, e as travessas que dele vem até ao largo de Nazareth (Justo Chermont), todos com raras casas ainda".
ANNUARIO de Belém em comemoração do seu tricentenário 1616-1916. 1915, p. 18-19.


 
 
Doca do Reduto.
Álbum do Pará em 1899.
Acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna
 

 


domingo, 10 de janeiro de 2016

A chegada de Castelo Branco



"Castelo Branco navegou por muito tempo absorto diante da majestade de selvas seculares, de esteiros graciosos, de terras verdejantes, de pássaros multicores e de vários tamanhos e formas, que esvoaçavam no espaço ou repousavam nas praias em grandes bandos. A natureza virgem do solo devia realmente ser admirável e opulenta. Os seus mistérios e esplendores não tinham ainda sido devassados pelos aventureiros. Julgava ele estar no Amazonas, e subindo sempre por entre ilhas de basta e luxuriante vegetação, avistou uma grande enseada que terminava a sua curva em alta ponta de terra firme formando uma espécie de península, banhada de um lado pelo rio Guamá e de outro pela baía do Guajará.
E na suposta hipótese de achar-se nas águas do Amazonas, deu a este sítio o nome de Grão-Pará que na língua tupi quer dizer – rio grande.
Agradou-lhe o aspecto do lugar, pelo que mandou fundear os seus navios nessa enseada que estendia-se ao longo em plácido remanso, n só para dar repouso à gente e guarnição, como para observar os selvagens e preparar o seu desembarque de modo que pudesse efetuá-lo com vantagem, quando e como melhor conviesse. [...].
O dia 3 de dezembro despontava sob bons auspícios. Ao amanhecer, os indígenas percorriam o litoral livremente e por sua vez acenavam para os navios. Castelo Branco, conhecendo as suas intenções favoráveis, tratou de desembarcar sem demora; e chegado à terra, examinou o sítio em que hoje assenta a importante capital do Pará, na margem oriental da baía do Guajará, então chamada de Saparará. Era este o nome dado aos índios que habitavam na entrada da mesma baía. [..].
É bom dizer que a antiga baía de Saparará é atualmente dividida em duas: - uma da cidade de Belém à intitulada ponta do Pinheiro, - outra da ponta do Pinheiro à do Mosqueiro. A primeira chama-se do Guajará, - a segunda de Santo Antônio. Guajará era o nome de uma árvore que aí havia em abundância nas várzeas, sobretudo à beira d´água. Não é raro ainda hoje encontrar-se nos subúrbios da cidade. [...]". RAIOL, Domingos Antônio (Barão de Guajará) (1830-1912). História colonial do Pará. Revista da Sociedade de Estudos Paraenses,  Belém, t. 1, n. 4, p. 155-156, 1894.

 
 

Nau Portuguesa do séc. XV. 
 
 



 







 

sábado, 9 de janeiro de 2016

As Bignoniaceas nas margens do Rio Amazonas


"Entre as plantas que cobrem as margens do Rio Amazonas, as que mais o enfeitam, dando-lhe às vezes  aspecto fantástico, são as Bignoniáceas, que trepando pelos madeiros secos, cobrindo a copa das árvores, ou caindo sobre as ribanceiras, formam colunatas, arcos, ogivas, caramanchões de formas caprichosas, tudo esmaltado de flores brancas, amarelas e carmesins que embalsamam a sombra que produzem. Para essa construção esquisita, tecem as espécies com seus inúmeros cipós a entrada das florestas, em que não penetra o homem senão à mão armada, para destruir a rede imensa que se forma. [...]". João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Eclogae plantarum novarum. Vellosia: contribuições do Museu Botânico do Amazonas, v. 1: Botânica, 1891, p. 47.
 
 
 
Memora schomburgkii (Bignoniaceae).
Margaret Mee. In search of flowers of the Amazon Forests. 1989.


domingo, 3 de janeiro de 2016

As folhas da Paxiúba


"Três dos meus homens logo se puseram a construir duas cabanas para nós, cobrindo uma com folhas de açaí, outra com folhas de paxiúba. Ao lado de cada uma foram escolhidas duas árvores situadas numa distância conveniente para pendurar redes. Para sustentar os tetos foram amarradas umas varas entre as árvores, de modo a formar triângulos. As cabanas acabaram de ser construídas justamente quando a chuva, cujo fragor já se escutava à distância fazia algum tempo, começou a cair, continuando até depois da meia noite. [...]". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 220.
 
 
 
Paxiuba (Iriartea exorrhiza)
C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum (1823-1850)