quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Um martim-pescador verde-bronze


"[...]. O terreno dos campos, irregularmente pontilhado de árvores mirradas, estende-se frequentemente até a borda dos diversos riachos, onde a água é maravilhosamente límpida e transparente, e quase sempre corre sobre leitos de enormes penedos, entre margens de rocha, gotejantes de umidade e coberta de samambaias e musgos, suas margens são debruadas com árvores altas, cujas copas se encontram formando longas alamedas de delicada verdura, por entre as quais a luz do sol cintila em raios brilhantes; nos galhos, onde frequentemente um martim-pescador verde-bronze está pousado à espera de sua presa na água sombria lá embaixo, balançam os ninhos do japiim nas extremidades de longas trepadeiras, entre bromélias de cor viva e outras parasitas". James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, p. 246.
 
 
 
Carará -Mergulhões - Gaivotas - Trinta-réis - Arirambas.
Álbum de aves amazônicas. Desenho de Ernst Lohse (1873-1930). (Detalhe)


domingo, 27 de dezembro de 2015

Muitas espécies desconhecidas no meu caminho


"[...]. Muitas espécies, ouso aventurar, são desconhecidas. As mirtáceas e leguminosas são as mais numerosas; a aristocrácia é representada pelos gêneros Hymenaea, Bauhinia, pelas figueiras gigantescas, Lauráceas altaneiras e colossais, bignônias, que fornecem as madeiras mais fortes. As mais belas são as acácias, as mimosas, as lasiandras e as esbeltas palmeiras, que se curvam no alto, em sedosas folhas. O proletariado é representado por outras, cássias carregada de tufos de flores, helicônias, palmeiras baixas, begônias, agaves, muitas espécies de cactáceas, arundináceas e vários bambus, muitas vezes com 13 metros de altura, desarmados ou terrivelmente espinhosos. Estes formam tufos impenetráveis, que só o peso de um elefante conseguirá romper; o caçador tem de abrir, penosamente, caminho com o facão, e sente-se tão seguro como se estivesse alojado em uma jaula vegetal. [...]". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 2001, p. 358.
 
 
 
Begonia sp.
L´illustration horticole. 1888.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

C. Fr. von Martius e as aves


"Centenas de róseos colhereiros (Platalea ajaja L.) perfilavam-se reunidos ao longo da margem e caminhavam lentos na água procurando alimento com o bico sôfrego. Em água mais funda, andam ali ao redor alguns graves jaburus e tuiuiús [...], perseguindo os peixes, com os compridos bicos. Numa ilhota, sita em meio da lagoa, acampam densos bandos de marrecas, paturis, patos grandes e frangos-d´água [...], e imúmeros  pavãozinhos voavam rápidos, em círculos, sobre  a fímbria da mata, ativos na caça aos insetos. Ressoam aqui, na mais alvoroçada  celeuma, chiados estridentes, chilreios dos mais diversos gêneros de aves, e, quanto mais observávamos o raro espetáculo, em que as aves, com a inata independência, representavam o seu papel no drama  da natureza, tanto menos  vontade sentíamos de perturbar, com mortíferos tiros, aquele cenário palpitante da vida. Avistamos mais 10.000 animais reunidos, cada um dos quais ocupado, segundo o natural instinto, no cuidado  da própria subsistência. Parecia-nos ter a visão de um renovado quadro da criação do mundo, e esse maravilhoso espetáculo nos teria ainda mais agradavelmente impressionado, se não nos ocorresse o pensamento de que a guerra, a eterna guerra, era a solução e misteriosa condição de toda existência animal. As inúmeras espécies  de aves aquáticas do brejo e do rio aqui se agitavam, umas no meio das outras, descuidadas, perseguindo cada qual o seu gênero de insetos,  rãs e peixes, cada qual sendo procurado por seu gênero de inimigo". J. B. von Spix (1781-1826); C. Fr. von Martius (1794-1868). Viagem ao Brasil. 1938, v. 2, p. 190-191.
 
 
 

C. von Martius (1794-1868) mostrando as aves em floresta brasileira.
Brasilien Entdeckung und Selbstentdeckung. 1992.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Uma extraordinária planta de pântano


"Na manhã seguinte, tão logo a última chama da fogueira foi apagada, começamos nossa escalada para a Serra do Curicuriari - a mesma que o botânico Richard Spruce explorou em 1852. Aproximadamente cem anos se passaram desde sua jornada, mas é quase certo que a região não tenha sofrido mudanças desde então, já que um século é apenas um momento na vida de uma montanha tão antiga.
Em nossa próxima viagem pelo rio, chegaríamos até Taracuá (formiga gigante) subindo pelo rio Uaupés, onde teríamos que pegar um barco a motor até Mercés e um avião anfíbio até Taracuá. Eu estava tão impaciente para explorar a região que em minha primeira excursão até um campo próximo encontrei diversas plantas interessantes - uma linda trombeta chinesa branca e amarela, Distictella magnoliifolia. Essa planta foi vista pela primeira vez pelo naturalista Alexander von Humboldt em sua viagem ao Orinoco, em 1800, e somente foi vista novamente na mesma região por Koch, em 1905. Encontrei clúsias e uma variedade de orquídeas, além de uma extraordinária planta de pântano, Rapatea paludosa. Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 38.
 
 
 
Rapatea paludosa
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988)
Flores da floresta amazônica. 2010



quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Peculiaridades da floresta equatorial


"[...]. Nas clareiras, onde os baluartes de verdura se delineiam, surpreendemo-nos ao notar muitas peculiaridades da floresta equatorial. Os esguios troncos das madeiras de lei plantam-se no solo como mastros: as árvores de madeiras mais leves têm gigantescas raízes fabulares que se elevam de dois a três metros acima da superfície do solo. As paredes das chanfraduras seriam capazes de abrigar uma companhia de soldados; essas raízes, aqui, como na África, podem ser, facilmente, convertidas em pranchas, e os índios, segundo nos ensina um velho missionário, usavam-nas como gongo, para chamar os extraviados, martelando-os com machadinhas. Os troncos ficam brancos de estiolamento, avermelhados com os líquens e musgos ou manchados de uma vegetação de um carmim resplendente. Levantam-se como uma paliçada contra o fundo de sombras e muitos deles são tão altos que, embora a seta do índio alcance o seu tope, o tiro de uma espingarda de caça não o conseguirá. Esses troncos avançam, sem galhos, antes de se espalharem, o mais alto possível, o que é melhor para a luta pela vida, privando seus vizinhos mais fracos dos bons raios solares, do ar, da luz e do calor. [...]". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 2001, p. 358.
 
 
 
Árvore  e sapopemas.
Franz Keller-Leuzinger.
Voyage d´exploration sur l´Amazone et le madeira. 1874.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Paixão pela natureza virgem


"Nas matas dessa localidade penetrei bastante e achei nelas muita semelhança com as florestas do Sangaçú: os mesmos tufos de orquídeas, os templos, as grutas e verdura, as arvores gigantes, tudo como lá. Caminhava sem recorrer ao facão porquanto as veredas já estavam abertas. Apanhei várias folhas de formas bizarras. Com a saúde voltava-me o interesse pelos estudos. Conhece-se já minha paixão pela natureza virgem e aqui eu podia satisfaze-la, esquecendo-me das horas em que , à vista de margens inabordáveis, passava por um suplício de Tântalo. Todas as noites ia dormir ao largo, fugindo aos mosquitos, e bafejando pela viração que vinha de terra. Uma noite, já deitado, gozando essa frescura, recebi violenta pancada no rosto e sem demora vi grande morcego, dos de tipo vampiro, voar por cima de mim. Logo depois os macacos gritadores começaram seu coro acompanhado dos cantos dos sapos. O rio refletia as árvores centenárias. François Auguste Biard (1801-1882). Dois anos no Brasil. 1945, p. 273.
 
 
Pintura de Tim Marsh.
Folhas bizarras na selva.
 


domingo, 6 de dezembro de 2015

Enquanto o sabiá cantava


"Apesar de sozinha a gentil lavadeira não estava sossegada.
Ora seu corpo cortava airoso como o da irerê as águas claras da bacia sobre as quais boiavam seus negros cabelos, quando não repousavam úmidos no dorso lustroso.
Ora fazia de uma folha, que a sua mãozinha travessa ia buscar aqui ou ali, uma canoazinha que punha-se a impelir com o sopro de sua boca mimosa até ela ir ao fundo. E quando se dava este naufrágio, como se ele a divertisse muito, seus lábios arroxados abriam-se em um riso alegre e ruidoso, deixando ver duas ordens de dentes pequenos, apontados e alvos como os jasmins que usava em seus cabelos.
E o brinquedo continuava. Brincava e ria sozinha como as aves suas companheiras que cantam na solidão.
Como era bela assim!
E o sabiá cantava e ela escutava-o.
O pássaro notou essa atenção e estimulado soltou uma escala nítida, estridente, argentina, clara.
Depois começou uma ária, melodiosa, sublime, em que a sua voz alcançava todos os tons com uma clareza e perfeição dignas de reparo, sobre os motivos talvez de alguma Lucia dos bosques.
Às vezes o canto tomava uns acentos clássicos que recordavam Stuck ou Mozart; outras havia nele uma melodia terna que lembrava Verdi.
Os japiins escolheram o seu melhor cantor para zombar da ave rei das matas. Ele fez fiasco. Não conseguiu arremeda-lo. O chilro do pássaro passava do lírico ao épico, do épico ao bucólico. Ora era pastoril, terno, apaixonado. Ora era altivo, arrogante, épico. Havia algumas notas que pareciam uma risada. Tinham seu quê de chacota, Offenbach misturava-se com Rossini.
Os japiins estavam mudos, corridos de vergonha.
E a gentil lavadeira parara de folgar e escutava, com a bela cabeça erguida, o canto do carachué. [...]." José Veríssimo (1857-1916). Primeiras páginas. 1878, p. 83-85.
 
 
 
Carachué (Sabiá) - Cutipuruí - Vô-Vô - Peruinha-do-campo.
Álbum de Aves Amazônicas -  1900-1906.
Ilustração de Ernst Lohse  (1873-1930).


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Crianças-flores


"Sentimentos de uma criança.
As crianças crescem e mudam na evolução natural da vida. Uma força desconhecida esconde-se por trás de uma maquilagem incompleta. Se alguém tentasse expressar esse sentimento ao associá-lo a uma orquídea, eu me pergunto como seria a descrição. O Bulbophyllum tentando alcançar o céu, a Masdevallia tentando sempre ser ainda mais alta, a Maxillaria cuidando para não deixar seu labelo pender e o simplório Chysis desejando ardentemente um dia se tornar uma beleza. São todas flores maliciosas e vigorosas. Nenhum tipo de repreensão surtiria qualquer efeito sobre essas crianças-flores, pois elas continuariam a fazer que bem entendessem". Takashi Kijima. Orquídeas: maravilhas da natureza. 1989.
 
 
 
Orquídea. Masdevallia macrura Rchb. F.
  Lindenia iconographie de orchidées. v. 3, 1887. (BHL).


sábado, 28 de novembro de 2015

O Gaturamo: o mavioso cantador das matas


"Talvez nenhum outro pássaro cantor seja mais querido dos nossos escritores, do que o gentil, minúsculo e faceiro gaturamo, o mavioso cantador das matas, dos campos e dos quintais; e mais das taperas e das capoeiras, cujo silencioso abandono ele desperta com o seu canto às vezes, terno, vivo, alegre, outras vezes, apaixonado, nostálgico, sentido.
Nem o sabiá, melodioso flautista de asas, que Gonçalves Dias imortalizou, e que, pela madrugada e ao cair da noite, pelos mesmos pousos do gaturamo, desfere as notas do seu cantor vibrante e suave; nem o rouxinol, com as suas endeixas inspiradas, maviosas; nem o canário, com a variedade medida de seus acordes, nem a juriti, nem a rola, com os seus arrulhos, queixosos, tocantes; nem o bicudo, o curió, as patativas, os brejais, nos seus dulcídios gorjeios; nem os caboclinhos, com a ternura dos seus descantes; nem todos os outros cantores emplumados, jamais mereceram a estima, o afeto, a simpatia geral, que o gaturamo desfruta, indiferente, saltitante, jovial, modesto. [...].
Na literatura mitológica dos índios ou melhor, na crendice indígena, é o espírito de bondade e virtude, a alma boa, justa, medida, tal assim quer dizer gaturamo, corrupção de angaturama, lindo vocábulo da língua tupi.
Do sul ao norte do Brasil, o gaturamo, com este ou com outros nomes, é sempre o mesmo bardo de penas, o cantador das goiabeiras, dos laranjais e cajueiros, o musicista alado das selvas.
Todos nós, os que não nascemos nas capitais, nem nas grandes cidades, guardamos, de criança, uma lembrança desse canto, que é bem como a alma da saudade, a remoçar-nos à estância dos primeiros anos. [...].
Em nosso Estado, o gaturamo, como em todo o Brasil, existe por toda parte.
Nas taperas e nas capoeiras, é sempre o primeiro que ouvimos, entre os musicistas emplumados dessas paragens.
Aquele garganteio, sonoro, agradável, variado, derrama-se sobre a tapera, como um canto de aleluia, sob as abóbadas de um templo abandonado.
É um acorde espiritualizante, transcendente, na solidão agreste das ruínas.
Quem, por um dia de verão, haja visitado um sítio em abandono, a cujo meio da chácara assente a velha casa de antiga fazenda ou seringal antigo, jamais esquecerá esse gorjeio enternecido, quase suspirado, do cantadorzinho de penas.
Mas, se o ouvirmos nos campos ou nos quintais, temos a impressão de outro canto, alegre, vivo, rútilo, pomposo. A nostalgia insólita da tapera, sucede, então, a nota ardente, tonificante da alegria.
E quando, por uma vereda ou caminho da mata, se nos depara a avezinha, cantando, como que sentimos, nesse canto, um misto de alegria e dor, de tristeza e contentamento.
E o cantor ingente, saltitante, faceiro, borboletando, gentil, por entre as árvores, muda, a cada instante, de pouso, seguido por uma nuvem de companheiros, chusma de pássaros de toda a espécie, que, de certo, ou faz coro ao artista, ou assiste estupefato ao concerto harmonioso do músico divino.
Há várias espécies de gaturamo.
Goeldi fala em 32 e delas diz pertencerem 18 ao Brasil.
Aquela a que nos referimos é a Euphonia violácea, que é a do nosso tem-tem de-papo-amarelo. Mas devemos anotar que apesar das variantes do colorido, nas diversas espécies, quem estiver habituado ao trato com os indivíduos da Euphonia violácea, facilmente reconhecerá as outras espécies, que se traem pela semelhança àquela: tamanho, porte, sibilo e voo; nenhuma, porém, igualando-a, no canto inimitável, - a não ser, talvez, o nosso tem-tem da mata, de um brilhante azul, quase negro, e encontros amarelos, como o corrupião do meio norte ou o nosso rouxinol da mata. [...]". Aldo Guajará. De Bubuia. 1925, p. 83-88.
 

 
 
 
Gaturamo.
 Rodolpho von Ihering (1883-1939).
O livrinho das aves. 1914.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

As Palmeiras


"A família das palmeiras é a providência do seringueiro, ou habitante do vale amazônico. A Pupunheira dá-lhe substancial e delicioso alimento, como sustenta também o saboroso Tucumã. O Açaizeiro fornece o revigorante açaí, alimento completo, tão gostoso, que vicia quem o prova. O Patauá sustenta-o, dá-lhe óleo para a cozinha e luz para a candeia. A Paxiúba, rija como aço é a estrutura de seu rancho. A Paxiubinha, o soalho da palafita moderna, que é o rancho do seringueiro, ou morador ribeirinho. O Tucum fornece a linha e a rede de pesca, ou aquela em  que dorme. [...]". Francisco de Barros Junior. Caçando e pescando por todo o Brasil. 5a. Série: Purus e Acre. [s.d.], p. 50.
 
 
 J. Barbosa Rodrigues.
Sertum palmarum brasiliensium. 1989.
 


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Uma viagem com as margens floridas


"Navegamos até Barcelos e de lá, pelo rio Demini, até o rio Araçá. Aproveitei a glória das margens já que todas as flores resolveram se abrir ao mesmo tempo: Gustavia augusta, branca de tantas flores; uma trombeta chinesa com flores cor-de-rosa aparecia por cima dos arbustos dentro da água, perdendo suas pequenas trombetas na correnteza; o panículo amarelo da Oncidium ceboletta pendurado sob uma bromélia com brácteas escarlates apresentando uma sinfonia de cores e formas. Navegamos por um cenário glorioso, o rio espelhado e ornado com tulias graciosas, buritis escuros e jarás nas margens e praias de área branca. Bacuris  cobertos com flores cor-de-rosa enfileiravam-se pelo rio. Essa árvore produz um pequeno fruto com o sabor parecido com o da Chinese lychee". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010, p. 76.
 
 
 
Gustavia augusta
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2010


sábado, 14 de novembro de 2015

Um lugar encantador


"[...]. Este é um dos lugares mais encantadores que já vi. O leito do riacho tem uns dez pés de largura; porém só durante o período das fortes chuvas é que a água cobre tal espaço: na ocasião a corrente era apenas perceptível. A água cai sobre três planos sucessivos de granito, cada um de cerca de oito pés de altura, com a superfície coberta de musgo. Ao longo da corrente, no fundo, da cascata, há diversas árvores de porte médio, cujos galhos se cobrem de festões de uma Fuchsia repleta de esplêndidas flores escarlates. Ao lado da cascata há diversas moitas de uma Pleroma de grandes flores e, no meio delas, alguns exemplares de uma Esterhazya, de flor vermelha e uma Clusia cheia de folhas (C. fragans, Gard.), saturando o ambiente com o deleitoso olor de suas grandes e níveas flores; abaixo destas cresce um Amaryllis, um Eryngium, várias Tillandsia e muitos fetos." George Gardner (1812-1849). Viagem ao interior do Brasil. 1975, p. 44.
 
 
Tillandisia paraensis.
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2010.



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Uma vegetação luxuriante!


"Entre as trepadeiras, é muito interessante a Bauhinia, cujos fortes caules lenhosos crescem sempre em arcos de círculos alternados; a concavidade de cada arco é como que artificialmente escavada pelo cinzel curvo de um escultor, e no lado oposto convexo há um espinho curto e rombo. Essa planta original, que facilmente se confunde com uma obra de arte trepa ao topo das mais altas árvores. A folha é pequena e bilobada; mas nunca vi a flor, se bem que seja a planta bastante comum. O aroma desprendido por muitas dessas trepadeiras é forte e variável: o "cipó cravo" tem cheiro muito agradável semelhante ao do cravo: outras, ao contrário como observou La Condamine, viajando pelo rio Amazonas, cheiram a alho. Muitas dão longos ramos para baixo, que se enraízam; o que estorva o caminho do viajante, obrigando-o a cortá-los com o "facão" antes de poder prosseguir. Há galhos pendurados que, quando agita o vento, dão, frequentemente, rudes pancadas na cabeça do transeunte. Em geral, o vegetal é tão luxuriante nesses climas, que vemos em cada velha árvore um verdadeiro jardim botânico, muitas vezes difícil de atingir, e formado de plantas certamente na maior parte desconhecidas". Maximilian zu Wied Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1954, p. 62.
 
 
Tronco de árvore com flores.
Ilustração de W. H. Fitch (1817-1892).


domingo, 1 de novembro de 2015

Uma Clusia rosa e branca


"Outra planta que então se tornara muito abundante era uma Clusia rosa e branca, de grandes folhas brilhantes e flores que exalavam um aroma forte e penetrante. Conquanto possa desenvolver-se independentemente, tornando-se uma árvore de alto porte, ela geralmente cresce como parasita, apoiando-se em outras árvores da floresta. Seus grandes frutos redondos e esbranquiçados são chamados de cebola-braba pelos naturais, sendo muito apreciados pelos pássaros, que provavelmente depositam suas sementes nas altas forquilhas das árvores. Ali, aproveitando matéria orgânica decomposta, fezes de aves, etc. ela rapidamente desenvolve suas raízes, até atingir um tamanho tal que necessite um maior volume de nutrientes do que aquele de que dispõe. Quando isso acontece, essa planta emite longos rebentos que chegam até ao solo. Esses também lançam raízes e acabam por desenvolver um longo caule. Em Nazaré há uma árvore, à beira da estrada, numa forquilha da qual cresce uma enorme palmeira mucajá sobre a qual desenvolveram-se três ou quatro jovens Clusias. Estas, por sua vez, certamente devem abrigar numerosas orquídeas e fetos!
Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 36.
 
 
Clusia nemorosa.
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2. ed.  2010.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Plantas que vivem no ar


"O interesse pelas orquídeas data do início do século XVII, quando espécimes exóticos dessa família, com poucos representantes na Europa, começaram a ser trazidos de algumas ilhas das índias Orientais para a Inglaterra e, aí, gente de pecúnia, lordes e grandes damas, porfiavam em ver abrir nas suas estufas as mais raras flores, como jamais haviam sido vistas.
Na verdade, tudo concorria para que sobre essas plantas recaísse a atenção não só dos botânicos mas das pessoas de bom gosto, e que de dia para dia mais amplo se tornasse o círculo dos orquidófilos. A começar pela resistência de que davam prova, pois que, durante as longas travessias de veleiro, privadas do seu habitat nas grandes florestas úmidas e expostas às intempéries marítimas, quando tudo fazia supor que perecessem, amiúde rebentavam em flores, arrancando gritos de espanto à marujada estarrecida. Plantas que viviam no ar, que se agarravam a um tronco ou uma pedra. Que morreriam mesmo, pelo menos a maioria delas, se fossem tratadas como as outras e mergulhadas em terra. Plantas de aspecto estranho, quase sempre de folhas grossas, lustrosas, coriáceas, de formato oval ou lanceolado, às vezes já bastante decorativas, raiadas de amarelo ou prateado, e tendo a sua base mais ou menos entumescida por pseudo-bulbos, característica tão marcante que serviu para batizar toda a família. Flores de extraordinária beleza, reunindo as mais esquisitas formas aos mais inesperados coloridos, e com a vantagem de apresentarem grande resistência, desde que não raro permaneciam em pleno viço durante semanas e até meses. [...].
Mas esses eram apenas os traços mais impressivos, e que não poderiam escapar a quem as defrontasse pela primeira vez. Todavia, a curiosidade não foi menor quando os naturalistas começaram a estudá-las com mais vagar, penetrando-lhes a contextura íntima para admirar o seu pólen aglutinado em massa, observando-lhes os caprichos da fecundação e o importante papel que nela desempenham os insetos, acompanhando-lhes a morosidade da germinação e o tempo exigido pelas plantas, às vezes cinco, seis e dez anos, até que cheguem a completo desenvolvimento e possam florescer. [...]. Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2003, p. 61-62.
 
 
 
Orquídea e colibri
Pintura de Martin Johnson Heade -[1819-1904] 
Tutt'Art@


sábado, 24 de outubro de 2015

Um pequeno e agradável córrego


"A pouca distância da casa do dono da fazenda, um pequeno córrego se precipitava ao alto das pedras, entre moitas cerradas de Heliconia, cocos e outras belas plantas, correndo para o rio. Havia nesse sítio uma sombra muito fresca e agradável, onde aparecia em abundância um mimoso passarinho que, a qualquer hora do dia, fazia ouvir um canto breve, porém bastante agradável. Já em Belmonte, havia eu encontrado esse cantor dos bosques ermos e sombrios, entre os rochedos banhados pela água, ao longo dos córregos, mas nesse local, era visto com mais frequência. Aí descobri o seu ninho, construído num buraco à margem do rio, embaixo de tufos de palmeiras novas. Grande número de outras aves animavam as vizinhanças da fazenda, sendo  particularmente abundantes os araçaris [...], num jenipapeiro próximo, coberto também de belas flores brancas e de frutos. Outras grandes árvores estavam tão carregadas de ninhos de japuís (Cassicus persicus), que se via um deles suspenso em cada ponta de galho. Esses pássaros faziam ouvir sem cessar o seu grito áspero, e mostravam, como os nossos estorninhos, o seu talento singular para imitar o canto de todas as aves que se acham então nas vizinhanças. A sua plumagem negra e amarela, bem marcada, é magnífica, sobretudo quando ele abre a cauda, e sobe voando até o ninho, que parece uma bolsa". Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958, p. 348-349.
 
 
Barco num rio da floresta virgem.  Viagem ao Brasil do Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied.
Biblioteca Brasiliana da Robert Bosch GmbH. 2001.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Árvores-de-cuia


"As flores eram raras e esparsas. Tudo o que vimos foram algumas orquídeas, umas poucas ervas florescentes e um ou outro arbusto ostentando flores alvas ou verdes, dispersos à beira do caminho. Jaziam no solo diversos frutos caídos semidecompostos, entre os quais umas vagens curiosamente retorcidas, parecendo ervilhas de uma jarda de comprimento, umas favas enormes, nozes de diversos tamanhos e formatos e enormes cabaças das árvores-de-cuia, cujo aspecto lembra o de potes com tampas. O tapete herbáceo consistia principalmente de fetos. Scitamineae, algumas gramíneas e umas poucas plantas baixas e rasteiras. A maior parte da superfície do solo era recoberta por folhas mortas e troncos apodrecidos". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 30.
 
 
 
Cuieira (Crescentia cujete)
www.mast.br


sábado, 17 de outubro de 2015

Papagaios e periquitos barulhentos


"Há muitas corredeiras pequenas, onde passamos velozmente por pedras pretas polidas e gastas pelas águas, ou por baixios e espraiados de seixos redondos da formação diamantífera. Uma brisa forte sopra correnteza acima e tempera o calor do sol que monta cada vez mais alto no céu, agora azul e sem nuvens. As margens reluzem com a folhagem brilhante e cintilante, as flores rasteiras e a terra vermelha, tão diferente das praias e vegetação inteiramente cobertas de limo do alto do rio. Garças brancas e grandes borboletas peroladas deslizam à superfície da água adiante de nós, papagaios e periquitos palradores e barulhentos, cigarras, gritando e chiando e berrando e assobiando unem-se em concerto ruidoso e desarmônico, suavizado pelo sussurro e burburinho das águas. [...]. James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 1 p. 263-264.
 
 
 
Papagaios - Tanajuba - Periquitos.
Detalhe de lustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900-1906.


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Vestido branco



" A Laelia é uma jovem donzela às vésperas da fase adulta. É como se a Laelia se apresentasse pela primeira vez com vestes brancas. Ao dançar pelos salões, os rendilhados de seus vestidos se agitam, encostando na pele e proporcionando uma sensação bastante agradável. Seus semblantes enrubescem. "Desejo uma vida intensa, porque quero apaixonar-me perdidamente", é a mensagem que a Laellia purpurata nos transmite com seu labelo branco, com centro vermelho, uma combinação de cores que ainda sobressairia mais com um fundo branco. Minha sensação é a de que a mistura  do branco do labelo nos transmite uma sensação de pureza". Takashi Kijuma. Orquídeas: maravilhas da natureza. 1989, p. 54. 
 
 
Orquídea.  Laelia purpurata.
Lindenia. iconography of Orchids. v. 8. 1894. (BHL)

 
 




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cattleya labiata, a espécie mais bela!


"[...]. Nas margens do caminho, havia densas sebes de bambu, projetando uma sombra profunda e negra, sob a qual as helicônias, avivadas pelas gotas de orvalho que lhes caíam nas corolas, ostentavam suas belas flores. Imensas folhas de Pothos formavam um teto espesso, e, bem no alto, acima dessas folhas, que brilhavam em sua rica e opulenta cor verde, levantavam-se as densas copas das árvores enfeitadas com barba de velho e em cujos ramos mais baixos prendiam-se as Catleyas cor-de-rosa, das quais a espécie mais bela, a Catleya labiata, tem seu habitat nessas alturas montanhosas. Tudo era calma. Somente o riacho, com o murmúrio monótono de seu deslizar por entre as sebes de bambus e debaixo das folhas de Pothos, atirando-se, por vezes, com ruído um pouco maior, rocha abaixo, lembrava ao viajante a existência da vida que aí pulsa continuamente, através de milhares de veias, com uma intensidade e exuberância sem par, em seu eterno processo de transformação - base inexaurível de toda matéria viva. [...]". Dr. Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. 1952, p. 110-111.
 
 
 
Orquídea. Cattleya labiata var. autumnalis.
Lindenia iconographie des Orchidées. 1885-1903.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um ambiente animado e pitoresco


"[...]. Um curso borbulhante da mais pura água, saltitando sobre pedras forradas de líquens e musgo através de um pequeno paraíso de uma das mais belas vegetações dos trópicos, xaxins e moitas de gramíneas arborescentes, palmeiras de diversos tipos, orquídeas e bromélias em plena floração, margens musgosas e diversas variedades de samambaias, o conjunto graciosamente festonado com liana e cipós e, para dar maior vivacidade, miríades de borboletas coloridas e diversos colibris adicionavam suas cores brilhantes ao ambiente animado e pitoresco. [...]". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, p. 103.
 
 
 
Orquídea. Paphinia cristata Lindl. var. Modiglianiana.
Lindenia iconographie des Orchidées. v. 3, 1887.


domingo, 4 de outubro de 2015

Pequenos bosques de palmeiras


"Até aqui não tínhamos encontrado nenhuma palmeira nestas florestas; hoje, ao contrário, apareciam em grande número, contudo só nas margens dos riachos e sobretudo em trechos pantanosos nas seladas do terreno, que, como as colinas, aumentando em altura cada vez mais íngremes, chamavam mais a atenção do que ontem. Num destes pequenos bosques descansamos alguns minutos; diante de nós corria um claro riacho murmurante, e a um lado ficava um pequeno rancho com um leve telhado ensombrado pelas altas  coroas de esguias palmeiras, por entre as quais se divisava o céu azul escuro, no qual, muito alto  no zênite, o sol mandava para baixo seus poderosos raios, tão quentes, tão abrasadores como se quisesse fazer-nos esquecer, toda a chuva da noite anterior! Imaginai a par disto, caro leitor, a satisfação com que engolimos algumas amêndoas de cacau da árvore sacudida, algumas castanhas-do-maranhão e um punhado de farinha que o padre levava embrulhado no seu lenço de rapé; imaginai também a avidez com que sorvemos a água fresca do riacho, e tereis um quadro deste curto descanso e dos simples gozos com que nos deliciávamos e nos refazíamos para novos esforços." Príncipe Adalberto da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazonas-Xingu. Brasília, 2002, p. 269.
 
 
 
C. Fr. von Martius (1794-1868)
Historia Naturalis Palmarum (1823-1850)
www.biodiversitylibrary.org


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Os bosques e sua vegetação


"[...]. Os bosques são aqui ornamentados de coqueiros - uma família de palmeiras das mais belas. Com um caule tão fino que se poderia abarcar com as mãos, balança, a doze ou quinze metros de altura, a sua graciosa ramagem. As trepadeiras lenhosas, que por sua vez se cobriam de outras trepadeiras, era de grosso calibre, tendo algumas que medi, cerca de sessenta centímetros de circunferência. Muitas das árvores mais velhas tinham uma aparência curiosa devido a tranças de liana que lhe pendiam dos galhos como se fossem molhos de feno. Se baixassem ao chão os olhos extasiados nas alturas do mundo de folhagem, a atenção seria voltada para a extraordinária elegância das folhas dos fetos e das mimosas. Estas em certos lugares, cobriam a superfície com um tapete de vegetação de poucos centímetros de altura. Quando se atravessam estes densos canteiros de mimosas, deixa-se ficar atrás de si um largo rastro que se faz notar pela mudança de coloração, produzida pelo descaimento dos pecíolos sensitivos. É fácil especificarem-se os objetos individuais que causam admiração nestas cenas grandiosas, mas não é possível dar-se uma ideia conveniente do que sejam as sensações de maravilha, surpresa e recolhimento que enchem e elevam o pensamento". Charles Darwin (1809-1882). Viagem de um naturalista ao redor do mundo. 1860, p. 37.
 
 
Coqueiros (à direita)
C. Fr. von Martius (1794-1868)
Historia Naturalis Palmarum (1823-1850)


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Cordas vegetais


"[...]. A maioria das árvores é notavelmente vertical, e de grande altura algumas delas; são ornadas de alto a baixo, de esplêndidas flores e lindas parasitas, enquanto que o tronco e os galhos são quase todos entrelaçados de inúmeras lianas e trepadeiras.
Essas plantas formam um aspecto singular nas mais férteis regiões do Brasil. Mas, nas margens do Amazonas, é que elas se mostram com o máximo de seu vigor e fecundidade.
Enroscam-se em volta das árvores, trepando nelas até o alto, depois crescem para baixo até o solo, e, constituindo raízes, sobem de novo e cruzam-se de galho em galho e de árvore em árvore, onde quer que o vento lance as suas pontas recurvadas, até que toda floresta se encha de suas guirlandas pendentes.
Essas cordas vegetais apresentam-se algumas vezes tão estreitamente entrelaçadas, que dão a aparência de uma rede, que nem as aves nem os animais podem facilmente romper. Alguns galhos são da grossura do braço de um homem; são redondos ou quadrados, e, às vezes triangulares ou mesmo pentagulares.
Crescem em forma de nós ou em espirais, ou, para ser mais verdadeiro, acompanhando todas as possíveis contorções em que se possam dobrar.
Parti-los é impossível. Algumas vezes, matam a árvore que os suporta, e outras vezes, ficam pendentes, de pé, como uma coluna torsa, depois de terem estrangulado o tronco, esmagando-o dentro de suas dobras. Os macacos gostam de dar suas cambalhotas, nessas redes primitivas, mas atualmente rareiam muito nas vizinhanças do Pará. Uma vez ou outra seus guinchos são ouvidos à distância, de mistura com o estridente pio das aves; mas, em geral, domina um profundo silêncio aumentando a grandiosa majestade natural dessas florestas." Daniel P. Kidder (1815-1891); J. C. Fletcher [?]. O Brasil e os brasileiros. 1941, v. 2, p. 313-314.
 
 
Árvore com cipós
Parque Zoobotânico do Museu Goeldi - Belém-PA
Fotografia de Olímpia Reis Resque


terça-feira, 22 de setembro de 2015

A natureza animal e sua riqueza de formas e cores


"A natureza animal revela também admiráveis riquezas de formas e cores. As copas das árvores são movimentadas por bandos de macacos ou papagaios e outros pássaros de plumagem variegada. As borboletas, pela beleza das cores, rivalizam com as flores sobre as quais se pousam e só são vencidas pelos diamantes, rubis e esmeraldas do colibri que bebe no mesmo cálice. Os estranhos edifícios das formigas atraem também o olhar do estrangeiro. Um sussurro contínuo e misterioso aumenta ainda o sentimento de êxtase que o penetra; ao longe ouve-se o estalo do bico do tucano, os sons metálicos da araponga, semelhante ao barulho do malho sobre a bigorna; os gritos queixosos da preguiça, os verdadeiros mugidos de uma espécie de enormes sapos; finalmente o canto das cigarras anunciam o cair da noite. Os vagalumes desprendem milhares de faíscas e, como lúgubres espectros, os morcegos ávidos de sangue passeiam na solidão em voo pesado; o rugido longínquo dos tigres, o murmúrio dos rios e o crepitar das árvores caídas interrompem por intervalos a serenidade do silêncio". Johann Moritz Rugendas (1802-1858). Viagem pitoresca através do Brasil. 5. ed. São Paulo: Livraria Martins, 1954. p. 12.
 
 
 
Estudo de pássaros na selva. 
Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

 
 

sábado, 19 de setembro de 2015

Um grande baile em Manaus


"Desacostumada animação reina desde alguns dias em Manaus. Trata-se de organizar um grande baile em homenagem ao Sr. Tavares Bastos. Onde se realizará? Em que dia? A que hora? E, quanto às senhoras, que vestido havemos de botar, qual será a toalete da Sra.? Tais os motivos da animação. Essas delicadas questões foram enfim resolvidas e ficou aprovado que a "função" teria lugar no dia 5 deste mês, no "Palácio". Este é o nome invariavelmente dado à residência do Presidente, mesmo quando ela consiste numa pequena casa, modesta demais para carregar o pomposo título. A noite do dia marcado não foi tão favorável como se desejava; esteve muito escura, e, como o luxo de carruagens é totalmente desconhecido, os grupos atravessam às carreiras as ruas, iluminadas por lanternas de mão. Aqui e ali, pelo caminho, via-se, num trecho de rua, surgir do escuro uma toalete de baile saltando por cima duma poça de lama. Entretanto, quando todos já haviam chegado, observei que nenhum dos vestidos sofrera muito com a caminhada pelas ruas. Era grande a variedade das toaletes; a seda e o cetim misturavam-se à lã e às gazes, e os rostos mostravam todas as tonalidades do negro ao branco, sem esquecer as cores acobreadas dos índios e dos mestiços. Não há aqui, com efeito, o menor preconceito de raça. [...]. Os brasileiros, com efeito, tão hospitaleiros e bons, são muito formalistas e enfatuados em matéria de etiqueta e cerimônia. As damas, ao chegarem, vão sentar-se em banquetas estofadas que estão colocadas ao longo das paredes do salão de danças; de tempos em tempos, um cavalheiro avança corajosamente até essa formidável linha de encantos femininos e diz algumas palavras; mas só mais tarde, depois que as danças dividem os convidados por grupos que se misturam e que a festa se torna realmente alegre.
Nos intervalos, as bandejas circulam, carregadas de doces e xícaras de chá e por volta de meia-noite a ceia é servida; as damas tomam lugar à mesa, tendo, de pé, por trás de cada uma, os seus cavalheiros. Principiam logo os brindes e as saúdes, feitos e recebidos com entusiasmo. E o baile recomeça. estavam as danças muito animadas, quando, entrando no porto, o paquete vindo do Pará ficou todo iluminado e soltou girândolas e foguetes em sinal de regozijo pelas boas notícias da guerra. A alegria chegou ao auge; às quadrilhas, interrompidas, sucederam-se ruidosas manifestações de júbilo. A maioria dos assistentes passou a noite em claro e dirigiu-se para bordo do navio para receber os jornais; não tardamos em saber que uma vitória decisiva fora ganha sobre os paraguaios em Uruguaiana, onde o Imperador comandava em pessoa. [...]". Luiz Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil -1865-1866. 1938, p. 347-351.
 
 
 
Uma noite animada
www.shdestherrense.com


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

As aves frugívoras


"Dentre as aves frugívoras, podemos destacar as pombas, os papagaios, os tucanos e os anambés, todos pertencentes a família absolutamente distintas e afastadas. Entretanto, podemos encontra-las todas juntas, alimentando-se dos frutos da mesma árvore. De fato, há nas florestas sul-americanas certas frutas que são as mais apreciadas por quase  todos os tipos  de aves frugívoras.  Alguns escritores de obras de História Natural chegaram a afirmar que cada fruta do mato seria o alimento de algum animal, os quais teriam bocas de diferentes características e conformações, conforme as exigências do fruto que lhes servisse de alimento. Nisso há mais de imaginação do que propriamente de realidade, visto ser muito reduzido o número de frutos silvestres que servem de alimento às aves, e muito comum o fato de haver uma determinada árvore frequentada por aves das mais diversas conformações e tamanhos. Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 64.
 
 
 
 
Tucano (Ramphastos erythrorhynchus, Gmel.
John Gould (1804-1881). A Monograph of The Ramphastidae or faimily of toucans.  2. ed. 1992.

 

domingo, 13 de setembro de 2015

Um gracioso "Tesoura"


"Desprezemos porém toda essa miuçalha de animais que aí cantam, palram, saltitam, esvoaçam, picam e martelam, e atravessemos o teso. Avistamos novamente o campo mas, já agora, apresenta-nos a paisagem com novo aspecto, marchetada de moitas e árvores retorcidas. Do cimo das mais altas carobeiras faz o seu mirante um gracioso tiranídeo (Milvulus), o "tesoura" de compridíssima cauda; em certas épocas eles ali andam aos bandos, e não se cansa a gente de contemplar o alegre brinquedo e a ginástica magistral do voejar destas criaturinhas gentis." Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha do Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 3, n. 1-4, p. 383, 1900-1902.
 
 
Tesoura-Bentevís-Maria-é-dia-Bentevis miúdos.
Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900- 1906.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).


sábado, 12 de setembro de 2015

As palmeiras das matas do Amazonas


"[...]". Nesse meio tempo fazíamos passeios quase diários pelas matas das redondezas. Toda a superfície das terras, até a beira d´água, é coberta por uma uniforme e ondulante floresta verde-escuro, a caá-apoam (mata convexa) dos índios, que é característica do Rio Negro. Essa mata cobre também as extensas áreas de terras baixas, que são alagadas pelo rio na estação das chuvas. A água parece tirar sua tonalidade castanho-oliva da folhagem verde-escuro com que fica saturada durante as enchentes anuais. O grande contraste de forma e cor existente entre as florestas do Rio Negro e do Amazonas decorre das diferentes famílias de plantas que predominam em cada uma delas. Nas matas deste último, palmeiras de vinte ou trinta espécies diferentes compõem o grosso da vegetação, ao passo que no rio Negro elas têm um papel inteiramente secundário. A espécie típica dessa região é o Jará (Leopoldinia pulchra), que não é encontrada nas margens do Amazonas; seu leque de folhas é pequeno, com folíolo finos e do mesmo tom verde-escuro do resto da floresta. A haste dessa palmeira é lisa e mede cerca de cinco centímetros de diâmetro, não indo sua  altura além de quatro ou cinco metros; ela não se eleva, por conseguinte, acima da copa das árvores exógenas, o que a impede de ressaltar na paisagem como a murumuru e a urucuri de folhas largas, a esguia açaí, a alta jauari e a miriti de folhas em leque, encontradas nas margens do Amazonas. Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p 135.
 
 
 
Astrocaryum jauari e leopoldinia pulchra.
C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum. 1823-1850.


domingo, 6 de setembro de 2015

Minha viagem pela floresta amazônica


"À medida que prosseguíamos, a floresta de árvores enormes, com raízes que desciam ao longo dos troncos reforçando sua estrutura, tornava-se mais densa e a luminosidade, mais fraca. Foi na suave luz esverdeada que vi uma colônia de Rapateceae, plantas aquáticas exóticas. De suas grandes folhas com o centro rosa choque surgiam talos delgados coroados por duas brácteas triangulares cor-de-rosa, dentre as quais conjuntos de pétala amarelo-claras surgiam dos cálices vinhos-escuros.  As pétalas eram tão delicadas que quase flutuavam pelo ar e não resistiriam à nossa viagem, por isso decidi deixa-las para a volta. Em pouco tempo estávamos longe, penetrando em uma floresta tão escura e ressonante quanto uma catedral.
Subitamente entramos em uma floresta de caatinga verde brilhante. As árvores, que já não eram tão impressionantes e grandiosas, estavam ornamentadas com epífitas que pendiam de seus troncos estriados sobre as raízes arqueadas pelo chão coberto de samambaias. Ao deixarmos essa floresta, adentramos mais uma vez na selva sombria, realçada apenas pela cor ametista das flores de Heterostemon ellipticus que cresciam no alto das copas. Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 36.
 
 
 
Heterostemon sp. (Leguminosae)
Margaret Mee. In search of flowers of the Amazon Forests. 1989.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ananases em grande quantidade


"A estrada que levava até lá passava no meio de uma bela mata, que exibia muitas árvores gigantescas. Senti falta, ali das palmeiras açaí, miriti, paxiúba e outras, só encontradas em solo mais fértil; não era incomum porém, a bela bacaba, vendo-se também uma grande diversidade de espécies anãs da palmeira-marajá (Bactris), uma das quais, denominada peuririma, era muito elegante, chegando sua haste, que era da grossura de um dedo, a alcançar quatro ou cinco metros de altura. Ao nos aproximarmos das terras descampadas, toda essa bela mata desapareceu bruscamente; diante de nós se estendia um terreno de formato oval, com quatro ou seis quilômetros de circunferência, desprovido do mais insignificante arbusto. A única vegetação que havia ali era constituída por um capim áspero e felpudo que nascia em tufos esparsos pelo campo. A mata formava uma espécie de cerca-viva ao redor dessa área, sendo a sua borda composta em sua maior parte de árvores que não são encontradas no coração da mata virgem, como por exemplo algumas variedades de folhudos melástomos, pequenos pés de Byrsonima, de murta, e a árvore-do-lacre, cujos frutos exsudam gotas de cera parecida com a goma-guta. Ao redor do campo crescia também ananases em grande quantidade. Essa fruta silvestre tem o mesmo feitio da espécie cultivada - o abacaxi - mas o seu  tamanho é bem menor, regulando com o de uma maçã grande. Colhemos vários, já bem maduros; seu sabor é agradável e muito semelhante ao do abacaxi, mas eles têm sementes em profusão e a quantidade de polpa comestível é muito pequena. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 118.
 
 
Ananás
www.mast.br

 
 

 
 
 


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

As orquídeas nos trópicos


"[...]. Do mesmo modo as orquídeas, nos trópicos, animam os troncos das árvores enegrecidos pelos raios abrasadores do sol e pelas fendas das rochas selvagens. As baunilhas distinguem-se entre estes vegetais pelas suas folhas carnosas, de um verde claro, e pela cor variada e estrutura singular das suas flores. Parece-se estas, ora com os insetos alados, ora com os pássaros, aos quais atrai o perfume dos nectários. A vida de um pintor não seria bastante para reproduzir, ainda que se cingisse a um pequeno espaço de terra, as magníficas orquídeas que adornam os vales profundos dos Andes e do Peru." Alexander von Humboldt (1769-1859). Quadros da Natureza: Humboldt. 1950, v. 1, p. 293.
 
 
Baunilha. Vanilla parvifolia Barb Rodr.
J. Barbosa Rodrigues. Iconographie des orchidées du Brésil (1877-1898)


sábado, 22 de agosto de 2015

Um lugar revigorante


"A mata nos oferecia passeios muito agradáveis. Em alguns trechos, amplos caminhos desciam por suaves encostas, através do que, em nossa imaginação, podíamos tomar por um parque de plantas sempre virentes, até úmidas grotas onde borbulhavam olhos d´água ou deslizavam regatos sobre alvos leitos de areia. Mas a entrada mais bonita era a que atravessava o coração da floresta e ia terminar numa cascata, que os cidadãos de Barra consideram a principal atração dos arredores. As águas de um dos regatos que cortam a sóbria mata despejam-se ali do alto de um penhasco de cerca de três metros de altura. Não é a cascata em si que constitui a principal atração do lugar, e sim a quietude e a solidão que ali reinam, bem como a maravilhosa variedade e exuberância das árvores, folhagens e flores que ornam o poço onde se despeja a água. As famílias do lugar costumam fazer piquenique ai; os cavalheiros - e, segundo dizem, também as senhoras - passam as horas mais quentes do dia banhando-se nas águas frias e revigorantes da cascata. O lugar é histórico para os naturalistas, por ter sido um dos favoritos dos célebres viajantes Spix e Martius, quando visitaram Barra em 1820. Von Martius ficou de tal forma impressionado com a magia e a beleza do lugar que celebrou a visita que ali fez desenhando o seu cenário para servir de fundo a uma das ilustrações de sua grande obra sobre palmeiras". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 135-136.
 
 
 
 
Recanto na floresta
C. Fr. Von Martius. Historia naturalis palmarum, 1823-1850.
 


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Paisagem com vida e beleza



"As vertentes desse vale sobem rapidamente em colinas cobertas de florestas primitivas, e as grandes massas rochosas  surgem em grande número, estendendo-se mesmo para dentro da mata. Muitas árvores perdem as folhas nesse período, porém a maioria fica sempre verde, de modo que a floresta estava meio verde, meio cinzenta; [...]. As múltiplas variedades de folhas tenras que vinham brotando começavam a dar à paisagem vida e beleza novas. O tapicuru (Bignonia) estava completamente coberto de belas folhas pardo-avermelhadas, que despontavam; um róseo lindíssimo adornava as cimas da sapucaia (Lecythis); a Bougainvillea brasiliensis entrelaçava-se no topo das árvores, ainda em parte desfolhadas, forrando-as  todas com as flores róseo-escuras; numerosas espécies de bignonias, algumas subindo a grande altura, outras rastejantes, medravam luxuriantemente, enfeitadas de flores variegadas, róseas, violetas, brancas e amarelas. Nessa estação, seria impossível ao melhor paisagista  retratar a infinita multiplicidade de tintas que matizam as frondes das gigantescas árvores  dessas  florestas; e, se o conseguisse, qualquer pessoa que não tivesse admirado  esses rincões, consideraria o trabalho simples devaneio da imaginação. [...]. Maximilian, Príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2 ed. 1958, p. 257.
 
 
Bougaivillea sp.
The Garden, v. 43, 1893. www.plantillustrations.org.




quinta-feira, 13 de agosto de 2015

As aves mais típicas do Amazonas



"[...]. Havia também considerável animação por cima do formidável curso d´água. Numerosos bandos de papagaios e das grandes araras vermelhas e amarelas passavam voando pelas manhãs e às tardes, emitindo seus estrídulos gritos. Diversos tipos de garças e frangos d´água frequentavam os pântanos de suas margens, vendo-se nas águas plácidas das baías e das enseadas os vistosos marrecões. [...]. Mas as aves mais típicas do Amazonas são, creio eu, as gaivotas e as andorinhas-do-mar, que aqui são vistas em inacreditável profusão. Durante toda a  noite podíamos ouvir seus gritos vindos dos bancos de areia, nos quais elas depositam seus ovos. Durante o dia essas aves continuamente atraíam nossa atenção, em virtude de seu hábito de pousarem enfileiradas sobre os troncos flutuantes, havendo às vezes uma dúzia, quando não uma vintena, umas ao lado das outras, todas na mais completa impassibilidade enquanto o tronco vai sendo levado pela correnteza por milhas e milhas. E lá vão elas, imóveis e sisudas como se estivessem tratando de altos negócios[...]." Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 93.
 
 
Andorinhas
 Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900-1906.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Quando nos altos rios eu viajo...


"Quando nos altos rios viajo quer nos "vaticanos", quer nas chatinhas, que são quase uma miniatura destes, quer nos pequenos barcos motor, sou sempre dos que primeiro saltam da rede. E a claridade indecisa da madrugada vejo desenhar-se a paisagem difusa, criar relevo, destacarem-se os troncos esbranquiçados, recortar-se no cinza-azulado do céu, a copa florida da gigantesca sumaumeira, com a mesma sensação que o jogador viciado "fila" as cartas que recebeu. E antes do chuveiro revigorante, e do confortador café, encho os pulmões com o ar fresco e embalsamado da floresta, de pijama aberto, oferecendo o peito nu à carícia fresca da brisa, provocada pelo deslocamento do barco. Se é na vazante, vemos passar os bandos de marrecas, e contamos os casais de patos e araras barulhentas que cruzam alto refletindo no encarnado de suas penas, os raios do sol ainda baixo no oriente. Ficamos enlevados, com o debrum de arminho que as garças ainda nos pousos, estendem pelas bordas dos rios. E é um colar de alvura, vivo, trepidante, com o bater de asas e a "toilette" das penas, antes de descerem para as comedias.
Se é na enchente, as águas galgam os barrancos, afogando a mata. Deslizam os grandes madeiros, colossais árvores inteiras, cujas dimensões podemos calcular pelo raizame e parte do tronco que emerge. De bubuia, vão também as enormes ilhas de canaranas e camalotes, os periantãs dos índios povoados de cobras, jacarés, sapos-untanhas enormes, garças e jaburus, todos em boa camaradagem, tal como a que deveria reinar na arca de Noé...". Francisco de Barros Junior. Caçando e pescando por todo o Brasil. 4a. série s.d. p. 249-250.
 
 
 
Marrecas
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
Ilustrações de Etienne e Yvone Demonte.


sábado, 8 de agosto de 2015

Os Colibris


"Não admira pois que a pena dos naturalistas que escreveram sobre Colibris se torne poética ao tratar desse assunto, queira transformar-se em pincel de pintor e ameace disparar com a fantasia, qual cavalo novo cheio de vida com seu cavaleiro. Ouçamos como se exprime Buffon sobre essas aves maravilhosas: "Entre todos os entes vivos é o Colibri o mais belo quanto a forma, o mais esplêndido quanto à coloração. Pedras preciosas e metais, a que a nossa arte  dá o seu brilho, não se podem comparar a essas joias da natureza.
A sua obra prima é este passarinho. Prodigalisou-lhe todos os dons, que as demais aves receberam isoladamente, leveza, ligeireza, agilidade, graça e rico ornamento: de tudo foi dotado este pequeno favorito. A esmeralda, o rubi, o topázio cintilante na sua roupagem, que ele nunca suja  com o pó da terra, porque durante toda a sua vida etérea dificilmente toca por momento o solo. Sempre nos ares, a balouçar de flor em flor, cuja frescura e brilho lhe são próprios e cujo néctar sorve. O colibri habita somente as regiões onde as flores se renovam perenemente; pois aquelas espécies que pelo verão chegam até a zona temperada, aí permanecem pouco tempo.
Parecem acompanhar o sol, avançando e retirando-se com ele, e seguir sobre asas de zéfiro o préstito de uma primavera eterna.". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Os beija-flores. Chácaras e Quintaes, v. 52, n. 3, p. 338, 1935.
 
 
 
Beija-flor.
Proceedings of Zoological society of London. v.2 1848-1854.