sábado, 29 de julho de 2017

Uma maravilhosa bromélia


"Procuramos em vão pelo rio Cauhy. Encontramos a estreita foz do rio Nhamundá cercada por um atraente igarapé, uma complexa quantidade de ilhas com árvores atrofiadas obscurecidas pela quantidade de epífitas em seus galhos. A cor dominante era o vermelho, bromélias com folhas escarlates e inflorescências (Achmea huebneri) cresciam junto às concentrações verde-escuras de orquídeas (Schomburgkia) e antúrios com grandes folhas. A paisagem da floresta tornou-se escura gradativamente, com muitas palmeiras Jauari e árvores com troncos enfileirados como colunas góticas; sobre o rio espalhava-se Macrolobium com suas folhas semelhantes às da samambaia. Continuamos navegando pelo rio até ancorarmos próximo ao tronco de uma árvore caída na qual cresciam orquídeas, incluindo uma Catasetum - a primeira que vi na região. Colhi uma maravilhosa bromélia com uma coroa de plumas corais que encontrei em uma palmeira (Achmea huebneri). O ponto alto, no entanto, foi quando uma outra bromélia, a Aechmea polyantha, apareceu em uma grande árvore. Fiquei tão entusiasmada que desenhei até acabar a luz". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2010. p.132.


Achmea huebneri.
Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma floresta de Cecrópias


"Vimos assim, logo nos primeiros dias de viagem no Rio Amazonas, as sumaumeiras saindo da água nas margens inundadas, rodeadas de numerosas mungubas (Bombax munguba), rivais dos citados eriodendros e, em muitos respeitos, semelhantes a eles. Vimos flocos encarnados e brancos da lã de ambas as árvores voando em grande quantidade por cima do rio
Muito menores do que aquelas grandes rivais, providas de muito menos e escassos galhos, ostentando nas extremidades folhas de longos pecíolos e profundamente recortadas, medram em quantidades ainda maiores do que as bombáceas as cecrópias, por toda parte, na orla da floresta. Já falei muitas vezes dessas árvores singulares, cujo tronco oco, em cada cicatriz de folha forma uma parede divisória, servindo de morada às formigas e sobretudo à preguiça. Invadem às vezes toda a floresta, prados inteiros e toda a ilha. Parecem mesmo ter certa propriedade de formar praias. Uma cecrópia será sempre a última árvore a manter-se num terreno pantanoso e a primeira a criar raízes num terreno recém-inundado e transformá-lo, pela proliferação em solo firme. Uma ilha de cecrópias assim, uma floresta de cecrópias como essas, tem o aspecto tão bonito e tão em ordem quanto qualquer plantação e diferencia-se muito da floresta bravia". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961. p. 66.


Embaúba. Cecropia peltata.
 M. E. Descourtilz. Flore medicale des Antilhes, v. 2, t. 75, 1822.
Desenho de J. T. Descourtilz.

sábado, 8 de julho de 2017

Os macaquinhos de cheiro


"[...]. Poucos dias atrás, ouvi um ruído estranho e um estrondo na mata, que a princípio não conseguia explicar. Por um momento, pensei que uma gigantesca árvore tinha caído no meio da mata, tamanho foi o estalo da galharia; notei, então, que o barulho mudava de lugar e achei que era o estouro de um bando de animais de grande porte, quem sabe até porcos selvagens correndo pelo mato. Por fim, quando o barulho que vinha em minha direção estava bem perto, ouvi também o chilro agudo e estridente com o qual todos os nossos macaquinhos se distinguem, porém sem conseguir nada além de alguma sombra por entre os galhos, de vez em quando. Então, de repente, surgiu numa copa de palmeira mais baixa, bem perto de mim, uma cabecinha: duas orelhinhas pontudas e cara rosada com focinho preto permitiam reconhecer, na mesma hora, o meu predileto do jardim zoológico, o macaco-de-cheiro [...]. Por vários instantes, ficamos nos olhando imoveis, cheios de interesse um pelo ouro; então, a pequena sentinela (claramente o chefe do bando) demonstrou preocupação; emitindo um som curto, quebrado, recuou; em seguida, ouvi o barulho de galhos quebrando de novo e agora por todo lugar, o grito de alerta, enxergando em seguida os bichinhos esguios praticamente voando de copa em copa em enormes ajuntamentos. Por muito tempo, foi possível saber para onde iam pelo barulho que faziam. [...]". Emília Snethlage ( 1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 202-203, jan.-abr. 2013.



Macaquinhos na floresta.
Art-Tropical.
 www.pinterest.com

domingo, 2 de julho de 2017

Uma encantadora paisagem



"O rio desdobrou hoje aos nossos olhos perspectivas encantadoras. Bastante mais espaçoso, dado que em certo ponto teria mesmo quatrocentos metros de largura, o seu leito apresentava-se constantemente garrido de pequenas e atraentes ilhotas, com prainhas muito limpas, pedras bem polidas e uma viçosa vegetação sombreira. Nelas predominavam os araparis, alguns em flor, bosquetes de mongubeiras e uma ou outra soca de palmeiras jauaris. As suas franjas de praia, caprichosamente recortadas, são quase sempre de areia avermelhada, formando brilhante contraste com os verdes do arvoredo. A mais, neste trecho do rio, amiudavam-se as peúvas, debruçadas das ribanceiras e como que a se mirarem no espelho das águas, que lhes reproduzia a imagem em grandes manchas de ametista líquida". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 1930. p. 127-128.


Paisagem amazônica.
 Arte de Edivaldo Barbosa de Souza