sábado, 24 de janeiro de 2015

Viajantes: Uma orquestra admirável!


"Se não fossem os carapanãs, que com o pôr do sol aparecem em nuvens, seria delicioso ficar até o escurecer, vendo passar cortando o céu azul, as grandes araras, os papagaios, as baitacas, as araguaris e maracanãs barulhentas. As garças, socós, baguaris buscam árvores que vão enfeitando com flocos de algodão, das suas penas alvas. Os últimos a buscarem refúgio para a noite, são os enormes jaburus que passam voando pesada e compassadamente, como cruzes brancas cujos braços são maiores do que a haste central. O espaço enche-se com o piado das marrecas, o grito das saracuras, jaçanãs e araquãs. E a essa orquestra admirável, não faltam os compassos dos sapos untanha e contrabaixo dos guaribas, que de diversos pontos da mata entoam o cantochão de suas despedidas do astro-rei". Francisco de Barros Junior. Caçando e pescando por todo o Brasil. 4a. série - Norte - Nordeste - Marajó - Grandes Lagos - O Madeira - O Mamoré. 1948, p. 175.
 
 
Marrecas.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900-1906.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Viajantes: Os Colibris!


"Em janeiro as laranjeiras se cobriram de flores - pelo menos mais profusamente do que o habitual, pois elas florescem o ano inteiro na região -  e isso atraiu numerosos colibris. Todos os dias, nas horas mais frescas da manhã, e à tarde, entre quatro e seis horas, eles podiam ser vistos zumbindo em bandos à volta das árvores. Seus movimentos são diferentes dos de todos os outros pássaros. Eles cortam os ares, para lá e para cá, com tanta rapidez que nossos olhos mal podem segui-los, e quando se postam diante de uma flor é apenas por um instante. Pairam diante dela, o corpo oscilando no ar, as asas agitando-se com uma rapidez inimaginável, e logo partem velozmente para outro ponto da árvore. Não agem de maneira metódica, como as abelhas, indo de flor em flor ordenadamente; pelo contrário, saltam de um ponto a outro da árvore de uma maneira inteiramente imprevisível. Às vezes dois machos se enfrentam, e na luta vão subindo no ar, como fazem alguns insetos em situações semelhantes; logo porém, se separam e voltam céleres à sua ocupação. De vez em quando descansam um pouco nos ramos mais finos, de onde às vezes podem ser vistos mergulhando o bico nas flores ao seu alcance. As brilhantes cores de suas plumagens não se tornam visíveis durante o voo, nem se podem distinguir as diferentes espécies, a menos que sejam matizadas de branco, como a Heliothrix auritus, cuja plumagem é inteiramente branca na parte interna, embora exiba um verde cintilante do lado de fora, ou a Florisuga mellivora, que tem a cauda branca. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 80-81.
 
 
 
Beija-flores.
 John Gould. A Monograph of the Trocilidae or Humming Birds. 1855-1861.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Belém do Grão-Pará: A cidade vista pelos viajantes no século XIX.


"[...]. Por ser plano o território, apresenta-se ao espectador a cidade, como constando somente de duas filas de casas, e a proximidade da gigantesca mata virgem, que lhe forma o fundo, evidência como aqui a atividade construtora do homem, que só com esforço vence, detendo-a, a vegetação tropical. Do lado do mar, avistam-se, perto da margem e quase no meio das filas de casa, a Praça do Comércio e a Alfândega, atrás da qual surgem as duas torres da Igreja das Mercês. Mais para dentro, eleva-se a cúpula da Igreja de Santa Ana, e, na parte norte, termina a vista com o Convento dos Capuchinhos, de Santo Antônio na parte do extremo sul, o olhar repousa no Castelo e no Hospital Militar, a que se juntam o seminário Episcopal e a Catedral, esta com duas torres. Mais para o interior das terras, destaca-se naquele lado, o Palácio do Governo, edifício imponente, construído durante a administração do irmão do Marquês de Pombal. Porém, quando o recém-chegado entra na própria cidade, encontra mais do que prometia o aspecto exterior: sólidas, construídas, em sua maior parte, de pedras de cantaria, perfilam-se as casas em largas ruas, que se cortam em ângulos  retos, ou formam extensas praças. [...]." J. B. von Spix (1781-1826) e C. Fr. von Martius (1794-1868). Viagem pelo Brasil – 1817-1820. v.3, 1938, p. 15-16.
 
 
 
 
A Catedral de Belém
Desenho de Joseph Léon Righini (1820, Turim 1884, Belém ).
 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Viajantes: Soberba vegetação aquática!


Nas margens dos lagos, nos lugares menos varridos pelo sulcar das canoas, amontoa-se, formando esplêndida faixa de verdura, uma soberba vegetação aquática - as verdes e risonhas gramíneas, enaltecidas algumas de lindas flores, os pitorescos aruns, as gigantescas ninfeias, as airodeas enormes. De trecho em trecho esta orla é truncada pelos tijucupauas, ou praias negras de tijuco, frequentadas por legiões de borboletas amarelas e brancas que, a distância e pousadas, parecem flores nascidas na lama sólida. Agarrados à margem, os compactos matupás de canarana, por sobre os quais esvoaçavam leves, alegres e chilreantes passarinhos microscópicos, vergando as delgadíssimas ramas  do capim, fazem-lhe uma continuação que ilude o peregrino alheio a esta terra; o úmido mureru, de grande folhas grossas, arredondadas, côncavas, forma chãos de um verde carregado, onde sobressaem as suas flores arroxadas com que o boto compõe os ramalhetes destinados às suas amadas". José Veríssimo (1857-1916). Cenas da vida amazônica. Edição organizada por Antônio Dimas. 2011, p. 38-39.
 
 
Arum maculatum..
Flora Londinensis (1777-1787). Publicado por William Curtis.
 


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Viajantes: A fauna alada na Amazônia.



"A fauna alada é ainda mais abundante e variada. As mais brilhantes são as araras amarelas, vermelhas, azuis, verdes com reflexos metálicos: são vistas ora passando em duplas, muito alto nos ares, soltando de um tempo a outro o grito que lhes deu o seu nome, ora ponteadas como flores multicoloridas sobre os ramos das árvores desfolhadas ou sobre as palmeiras cujos frutos em cachos devoram. Os mais barulhentos são os papagaios e os periquitos de plumagem verde ornada de algumas penugens vermelhas, amarelas ou azuis, segundo as espécies mais variadas: os primeiros vivem em tribos, às centenas; os outros em bandos, aos milhares. Os mais engraçados são os tucanos e os araçaris, com seu grande e longo bico acanalado e sonoro, de cores delicadas, preto, amarelo, branco e azul; ou ainda o unicórnio, que tem um chifre mole sobre a testa e esporões nos ângulos das asas. O maior é o tuiuiú, ave pernalta gigante da qual apenas vi dois  ou três indivíduos vivos. [...]". Constant Tastevin (1880-1962). In: FAULHABER, Priscila; MONSERRAT, Ruth (Orgs.). Tastevin  e a etnografia indígena: coletânea de traduções de textos produzidos em Tefé (AM). 2008, p. 25-26.
 
 
 
Tucanos (Ramphastos erythrorhynchus, Gmel. John Gould (1804-1881).
A Monograph of The Ramphastidae or faimily of toucans.  2. ed. 1992.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Lendas e Curiosidades: O mimetismo na selva!

"A Amazônia talvez seja a pátria do mimetismo, de tal forma os animais andam preparados através das tintas que os colorem, para se confundir, no susto que os transfigura (porque o medo, o terror, é que torna pálido, lívido o homem na frente do perigo), ao ponto em que se encontram. Mesmo antes da brusca metamorfose cromática que neles se opera ao deparar o inimigo, já eles têm instintivamente a nuança dos lugares que habitam, como as cigarras, as ponhamesas, os grilos, as aranhas, as lagartas de fogo, as lesmas, as osgas, que exibem o mesmo tom da folhagem, da casca da árvore, do solo em que se movem. Foram as borboletas na Amazônia, amarelas como os barrancos, brancas como a tabatinga, pardas como os galhos, que facilitaram a Wallace e a Bates as primeiras observações sobre o mimetismo. A preguiça, com o filho às costas, que mal se distingue andando lentamente pelo chapéu largo das árvores, basta ver uma sombra ou ouvir um rumor, esconde-se nuançada na casca parda em que é surpreendida. Some-se. O camaleão, mais famoso ainda nesse artifício mimético, se não for apanhado imprevistamente, colore-se, ao simples fuzilar duma asa, e desaparece mesmo sob o olhar aquilino do falconídeo que o espreita gulosamente. As rãs verdes, que vivem nas habitações aéreas da selva, mal sentem o adversário, encantam-se. Embora fascinadas pelo éter, andam elas com cinco sentidos, seguras de que a menor imprudência é a morte. Dois batráquios interessantes são companheiros desse grupo de ranídeos: o sapo-boi e o sapo-cunauarú. O primeiro pelos mugidos semelhantes aos do touro; o segundo pelo ninho de secreções odoríferas que fabrica, ninho de resinas cheirosas, e que  ao ser queimado na alcova das cunhãs lembra essências aromáticas. Raimundo Morais (1872-1941). Amphitheatro amazônico. 1936, p. 155-156.
Corujas.
Antique images. Pinterest

domingo, 4 de janeiro de 2015

Viajantes: Frutos curiosos!



"Nessa região frutos notáveis por seu tamanho, pela beleza ou por seu aspecto grosseiro são mais encontradiços que flores vistosas. As grandes vagens dos ingás já foram aqui descritas, e outras Leguminosas também possuem vagens  de tamanho idêntico, contendo às vezes enormes bagas achatadas, grandes como a palma da mão. As vagens das Bignoniáceas são cheias de sementes chatas, muito aglomeradas, circundadas por uma delicada película transparente, às vezes de uma polegada [2,5cm] ou até mais de largura. Grandes  frutos redondos, lembrando balas de canhão, podem parecer fora de lugar pendendo dos galhos descarnados de uma humilde cuieira (Crescentia cujete) mas estão longe de ser mais perigosos ali do que os cachos  de frutos pendentes das altas castanheiras (Bertholletia), os quais, quando caem, chegam a afundar no solo. Pobre do incauto bípede ou quadrúpede que por azar  estivesse passando por ali naquele exato instante: teria infalivelmente rachada a sua cabeça." Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 64.
 
 
Castanha-do-Pará
Ilustração de Eron Teixeira - 2013


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Viajantes: A Mata: aqui a natureza é eterna.


 
"O chão da mata é muito pouco iluminado, pois o sol mal consegue vencer a sombra das árvores. Quando se caminha dentro dela, têm-se a impressão de estar andando numa catedral iluminada por vitrais escuros, da cor da folhagem. O chão desse templo é recoberto de samambaias, e sente-se, na sombra, uma frescura de porão.
A natureza aqui é eterna; não existem árvores estéreis. A floresta é tão espessa, que os índios que lá vivem ficariam espantados de saber que em nosso país os homens "plantam" as árvores. "Em nossa mata" diriam eles, "para plantar uma árvore teríamos de derrubar, antes, umas vinte".
Nenhuma árvore vive sozinha. Cada gigante sustenta outros seres vivos. De cada ramo pendem orquídeas, trepadeiras e plantas aéreas, envolvendo as árvores, como se estas fossem múmias. Grandes cipós, grossos como cordas, passam  de uma árvore a outra, tecendo espécies de colgaduras verdes em toda a floresta. O chão nunca se encontra perfeitamente seco; musgos e líquens, úmidos como esponjas, estão sempre a brotar as folhas mortas, e há um contínuo pingar, um gotejar sem fim, de água acumulada nas mil e uma plantas que se acham presas às árvores.
Alegre flores fazem da mata um jardim tropical. De algumas árvores pendem cachos de frutos. Aqui e ali vêm-se palmeiras carregadas de cocos. É aí que brincam e se alimentam os macacos e os pequeninos saguis. Sente-se o cheiro da terra úmida e, no ar, o perfume das flores. Os odores de plantas desconhecidas enchem os dias e as noites com perfumes de jardim". Victor W. von Hagen (1908-1985). Os animais da América do Sul. s.d. p. 41-43. 
 
 
 
Floresta brasileira.
Dr. Hermann Burmeister (1807-1892) . Viagem ao Brasil 1952.