terça-feira, 31 de março de 2015

As aves e seus sítios de hospedagem.


"[...]. Assim como ocorre com os galináceos selvagens, também os papagaios e araras costumam ter seus sítios de hospedagem (isto é, seus locais de pernoite e alimentação) aos quais sempre retornam em determinadas épocas. [...]. As revoadas de papagaios e araras em bandos barulhentos, seguindo para seus sítios de hospedagem ou deles regressando, geralmente durante o lusco-fusco da tarde ou da manhã, é uma das cenas que primeiramente chamam a atenção do viajante que chega à Amazônia". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 337.
 


 
Augusto Ruschi.
Aves do Brasil. v. 2, 1981.


domingo, 29 de março de 2015

As árvores da floresta


"Espessos capinzais cobrem as terras alagadiças com tal viço e em tal abundância que formam uma parede verde impenetrável, tornando o avanço impossível, quando não se abre caminho com um instrumento cortante. Dentre as múltiplas espécies de árvores, as palmeiras acenam com suas formas elegantes sobressaindo no labirinto verde e completando a impressão de exotismo da região. Algumas das árvores mais fortes parecem estar em atitude hostil recíproca e empenhadas em luta pela existência. É uma luta silenciosa, a que se fere entre elas; não obstante, aqui e ali já tombaram inúmeras vítimas. Muitos cadáveres de árvores colossais jazem desarraigados por terra, mas sobre seus corpos caídos desenvolvem-se novas vidas. Alguns desses troncos arrastaram outros na queda, sem eles próprios alcançarem a terra por terem sido detidos pela viçosa vegetação antes de tocá-la; e esta por sua vez arrasta outros companheiros mais fracos derrubando-os: um quadro simbólico da vida humana, na qual tantas vezes o destino de um alcança outros arrastando-os para a ruína. Com isso formam-se de modo mais natural exemplares arquitetônicos. Audaciosos arcos sucedem-se a grotescos restos de árvores, elevando-se como torres altaneiras e alguns gigantes caídos da floresta formam pontes ligando as margens floridas dum riacho que corre espumando sobre um leito rochoso. [...]. Oscar Canstatt (1842-1912). O Brasil: terra e gente (1871). 2002, p. 46.
 
 
 
Viagem ao Brasil do Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied.
Biblioteca Brasiliana da Robert Bosch GmbH. 2001.


quarta-feira, 25 de março de 2015

A vegetação da floresta virgem!


"A vegetação da floresta virgem é de beleza e vigor incomparáveis. Nela se circula sem dificuldade, em geral através das altas matas que não deixam passar um raio de sol. O sol apenas deixa filtrar uma luz difusa: é dispensável usar chapéu. os índios também não têm nenhum. Eles se contentam com um diadema, para ornar a fronte e talvez para manter a cabeleira arrumada. Lianas de todas as espessuras se elevam em direção à luz, apoiadas nas grandes árvores, misturando sua folhagem às dessas últimas, mantendo-se cerradas.
[...]. Há grande número de árvores sem muito valor: não se chega a utilizá-la nem para carpintaria, nem para a marcenaria - porque muito duras ou muito moles, nem mesmo para a produção de calor. Há à beira dos rios grandes extensões que se diriam virgens, e não se encontra aí uma árvore a abater para [a construção de ] vapores; procurar-se-ia igualmente em vão um pilar de casa, um tronco para escavar uma piroga, embora as árvores grandes e grossas sejam aí abundantes. Lá, porém, onde o homem ainda não devastou  tudo, encontram-se essências raras, belas, duráveis e preciosas: as madeiras imputrescíveis, como o uacapu e o paracutaca, ou muito duráveis, como a itaúba e a muiratauá; ou muito duras e muito retas como o punã. Mas o que mais se encontra talvez nessas florestas é a palmeira. Há cerca de quarenta espécies comuns, de todas as formas, todas as espessuras, todas as elegâncias e todas as grandezas. Algumas sequer têm tronco; outras são apenas lianas, algumas saem da terra inteiramente retas, outras têm como que um pé de colunas formadas de raízes aéreas por meio das quais engancham-se na terra nutriz; algumas são úteis, outras não têm mais nenhuma serventia. O açaí, o patauá, a bacaba, o mititi são apreciados por seus frutos, cuja drupa triturada na água morna faz uma bebida muito  nutritiva e bastante agradável. O ubi, o caranaí, o jaci, o cocão, o miritirana fornecem as folhas para cobrir casas. Os caroços do urucuri, e inajá, que têm a dureza do carvão, fumegam e solidificam o leite da borracha; a jarina produz o marfim vegetal, o babaçu, um grosso caroço com muito óleo; a paxiúba, o javari e a juçara, fendidos em quatro no sentido do comprimento, e despojados de seu âmago interior, formam pranchas totalmente prontas para as paredes e assoalhos dos casebres, para os ancoradouros e para os jiraus de secar peixe ou cacau; o tucum, o tucumã e a piaçaba provém fibras para tecer cordas, chapéus e vassouras; enfim a pupunha (Guilielma speciosa) e o coqueiro são cultivados por seus frutos, os primeiros pelos indígenas e os outros, mais como curiosidade, pelos imigrantes brancos o mulatos. [...]". Pe. Constant Tastevin (1880-1958). In: FAULHABER, Priscila; MONSERRAT, Ruth (Orgs.). Tastevin e a etnografia indígena. 2008, p. 28-29.
 
 
 Uma floresta virgem.
 Johann Moritz Rugendas (1802 - 1858)
 

domingo, 22 de março de 2015

A floresta brasileira e suas aves.


"Num galho seco, inclinado sobre o rio, enfileiram-se os mergulhões e os biguás. De quando em quando corta o espaço um par de asas com um grito penetrante, clarinada de alarme no deserto: "quero-quero"! Vê-se no outro galho o bisonho arapapá, encorujado e triste, e, mais abaixo, no solo úmido, o pavãozinho do Pará a negacear um inseto descuidado.
Na lagoa amornecida pelos raios solares, uma assembleia de marrecões e patos selvagens mariscam ininterruptamente por entre as flores roxas dos mururés; e as irerês, completando o admirável painel, assobiam sem cessar, onomatopaicamente: ireré, ireré...[...].
No tapete úmido da mata sombreada cisca o mutum, o nhambu e o jacu, e nas frondes dos jatobás e caneleiras bandos álacres de periquitos, papagaios, maracanãs e araras revoluteiam na constante inquietação de apanhar os frutos que pendem dos ramos balouçantes.
A não ser a gritaria dos psitacídeos ou o pipilar discreto de um ou outro pássaro esquivo, a floresta brasileira apresenta-se impressionantemente silenciosa, pesadamente mergulhada na quietação. Nesse augusto templo de abóbodas verdejantes sustentadas por colunas ciclópicas, lianas e festões, há um profundo ambiente de misticismo e segredo que nos infunde estranho respeito e admiração.
Essa sensação jamais deixou de impressionar a todos os que se tem embrenhado pelos grotões ermos das matas virgens do Brasil". Agenor Couto de Magalhães. Encantos do oeste. 1945, p. 33.
 
 
 
Pavãozinho-do-Pará. (Eurypyga helias).
Ilustração de Armando Pacheco. 1941 Gastão Cruls. Hiléia Amazônica.  2003.


domingo, 15 de março de 2015

Os músicos da selva!



"Em nenhum outro lugar do mundo existem tantas aves canoras como nas florestas. A natureza, aí, é uma orquestra. Seus instrumentos são as lufadas agitadas dos ventos, o tamborilar da chuva, o farfalhar das folhas. Os insetos acompanham em surdina. O baixo é representado pelo coaxar dos sapos. E os solistas são os pássaros canoros.
Raramente existe silêncio completo na mata. Mesmo ao meio-dia, quando a maioria dos animais da floresta se esconde do sol, ainda se ouve o zumbir das abelhas e das moscas de cores álacres, assim como o coro dos sapos.
Quando a névoa matinal começa a ceder lugar aos raios do sol, as vozes das aves penetram a floresta. Os insetos despertam para a vida. As borboletas, e entre elas as grandes "Morphos", azuis e brancas, batem as asas, vibram as extremidades delas e levantam voo nas sombras das verdes mansões. Os pássaros solistas despertam cantando. Às cinco horas ouve-se a voz de uma pomba, que parece dizer, em nossa língua "Maria, já é dia!". De repente a calma da floresta é ferida pelo som de um sino. É uma nota tão pura e límpida que todos os que a ouvem ficam certos de que alguém anda a bater um sino do mais melodioso tom. O próprio Orfeu, sem dúvida, deixaria cair sua flauta para escutar tão belo som. Este vem de um pássaro bonito e todo branco, uma araponga, pertencente a família dos Cotingídeos, que também encerra o galo da serra e o pavão-da-mata. [...].

 
Araponga à direita
J. Th. Descourtilz.
 História natural das aves do Barsil. 1983.

 
 
Logo outras vozes se reúnem ao coro da mata. Pode-se ouvir, ao longe, o canto do "realejo", de notas tão melodiosas que vocês jurariam ter entrado na floresta algum tocador de sinfonias. [...].

Durante o dia há verdadeiro desfile de pássaros, cada qual entoando  um canto todo seu. São os "surucuás" bronzeados e de tintas vermelhas, as "ciganas" e as rubras "guarás", ou "Íbis". São os mutuns de cor preta lustrosa, os perus da selva. Garças brancas, como  fantasmas, ou cinzentas. Também desfilam patos, pica-paus, tangarás, ferreiros e pombas. Todas essas aves despertam com o cantar dos músicos da selva.
 
Surucuás
J. Th. Descourtilz.
História natural das aves do Barsil. 1983.


 
Ao meio dia pode-se ouvir o jacamim. Dominando o chiar das cigarras surge o som estridente de um clarim, que termina em verdadeira risada. Seguindo na direção dessa música, acabaremos por encontrar o jacamim, que os índios chamam de agami. [...].
Às vezes o jacamim toca a sua corneta para denunciar o perigo. Outras, por mero divertimento. Mau voador, tem de contar apenas com as pernas compridas para fugir ao perigo. [...].
Quando o dia se aproxima do fim, ouve-se o alarido dos papagaios e o surdo coaxar dos sapos. E surge também a voz do uirapuru todo cheio de pintas, e cujo canto lembra o tinir de uma caixinha de música. De tão suaves e modulados, os sons parecem provir de um violino. Criada por um músico invisível da selva, essa música deixa-nos como enfeitiçados.
 
 
Uirapuru-verdadeiro.
Brasil 500 pássaros. 200
Desenho de Antônio Martins






E não tarda a aparecer o pio da coruja, saído do fundo da noite, já escura com o seu mistério. E agora, quando a selva está em paz, só as cigarras e rãs continuam a tocar música. Mais tarde, na calada da noite, apenas se ouve o marulho das águas. Os músicos foram dormir, acabaram-se os cantos. [...]. Victor W. von Hagen (1908-1985). Animais da América do Sul. s.d. p. 97-100.

domingo, 8 de março de 2015

Viajantes: As Palmeiras.



"[...]. Mas o que mais se encontra talvez nessas florestas é a palmeira. Há cerca de quarenta espécies comuns, de todas as formas, todas as espessuras, todas as elegâncias e todas as grandezas. Algumas sequer têm tronco; outras são apenas lianas, algumas saem da terra inteiramente retas, outras têm como que pé de colunas formadas de raízes aéreas por meio das quais engancham-se na terra nutriz; algumas são úteis, outras não têm mais nenhuma serventia. O açaí, o patauá, a bacaba, o miriti são apreciados por seus frutos, cuja drupa triturada na água morna faz uma bebida muito nutritiva e bastante agradável. [...]". Pe. Constant Tastevin (1880-1958). In: FAULHABER, Priscila; MONSERRAT, Ruth (Orgs.). Tastevin e a etnografia indígena. 2008, p. 29.
 
 
 
Palmeiras açaí.
 Praça Batista Campos - Belém-Pará-Brasil
Fotografia: Olímpia Reis Resque


quinta-feira, 5 de março de 2015

Viajantes: As embarcações na Amazônia.


"Pouca coisa no Pará atrai tanto a atenção do estranho como as empetecadas embarcações fluviais. A todas as variedades de barcos, desde a corveta até a chalupa, dão a designação comum de canoas. Entretanto, poucas são as canoas, propriamente ditas, em tráfego. A montaria que tivemos ocasião de observar no Maranhão, é muito comum em Belém.
As grandes canoas que fazem o tráfego fluvial parecem ter sido construídas para qualquer outro fim, menos para  aquele ao qual realmente se destinam. O casco eleva-se da água qual o de um junco chinês. A cerca de meia nau, há uma espécie de toldo, geralmente de palha, para proteger o navegador contra os raios do sol, ou contra o orvalho noturno. Às vezes, há também sobre a armação uma coberta semelhante, que dá uma certa homogeneidade à aparência do barco. Esse arranjo exige, por seu turno, a construção de um passadiço ou tombadilho, sobre o qual trabalham os encarregados da navegação. O timoneiro fica, geralmente, sentado sobre o toldo de ré. Quando contemplávamos essas embarcações tínhamos a impressão de que, sendo tão pesadas na parte de cima, poderiam virar com facilidade, como inevitavelmente aconteceria se expostas a uma ventania forte. Ao que parece, porém, flutuam com muita facilidade. A grande vantagem da coberta acima descrita é proporcionar aos barqueiros acomodação onde pendurar suas redes, evitando assim que tenham de desembarcar, para instalá-las em árvores." Daniel P. Kidder (1815-1891). Reminiscências de viagens e permanência no Brasil (Províncias do Norte). 1951, p. 170-171.
 
 
 
 
Embarcações do Amazonas e do Rio Madeira coberta, batelão, igarité, montaria.
Franz Keller-Leuzinger. Voyage d´exploration sur l´Amazone et le madeira. 1874.


domingo, 1 de março de 2015

O Horto Botânico do Museu Paraense


 

Foi em junho que aportou o Dr. Jacques Huber, chefe da seção botânica e só depois de prévia instalação dele é que se pôde iniciar o serviço relativo a este anexo. Entretanto, há sempre um cometimento mais saliente a mencionar: a construção de um lago artificial, bastante grande, aterrado sobre o nível do jardim e destinado a receber, ao lado de outros vegetais aquáticos, principalmente a fenomenal Victória régia, planta amazônica admirável, única mesmo pelas dimensões das suas folhas e o tamanho das suas flores, que igualam em diâmetro uma roda de carroça.

Deu-se a este lago a forma de Mar Negro, na Rússia meridional, havendo necessidade de escolher uma forma que oferecesse largura e espaço suficiente.

Empatando o constante trânsito de carroças com materiais para o dito lago o espaço, que desde o princípio ficou destinado para o Horto Botânico, isto é, a metade oriental dos terrenos da frente, somente agora chegou o momento e a ocasião de elaborar-se um plano para mais canteiros novos e uma definitiva jardinagem.

Se a estação chuvosa não nos contrapor um veto, esperamos que nos próximos meses haverá também bastantes inovações e melhoramentos a encontrar neste futuroso anexo, que agora está nas condições de receber vegetais notáveis da flora amazônica e que se recomenda à mesma benévola simpatia do público, de que goza o anexo-irmão. Trouxemos bastantes mudas e sementes de plantas interessantes de nossa recente expedição à Guiana Brasileira e encetamos umas tentativas para obtermos plantas ornamentais e medicinais da flora indígena, à qual, de certo, não faltam elementos que estejam nas condições.

O meu colega, chefe da seção botânica, lamenta, entretanto as parcas dimensões do anexo e deseja intensamente o alargamento futuro. Alega que, por exemplo, uma coleção de palmeiras amazônicas, por si só já precisaria de mais espaço, que o total hoje disponível para o horto. Para onde ir com os sortimentos de plantas de outras famílias?

Realmente revela-se logo aos olhos do visitante, que este anexo acha-se em condições de espaço insuficientes: Se há uma seção do Museu, onde o alargamento, mediante aquisição dos terrenos adjacentes é de palpitante necessidade, certamente é o Horto Botânico, que se acha neste caso.

 

Dr. Emílio A. Goeldi (1859-1917)

Trecho do Relatório de 1895 apresentado pelo Director do Museu Paraense ao Sr. Dr. Lauro Sodré Governador do Estado do Pará.

Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 2, p. 10-11, 1898.

 Parque Zoobotânico do Museu Paraense em  1900.
Fotografia: Arquivo Guilherme de La Penha - MPEG

Parque Zoobotânico do Museu Paraense -
 Lago das Victorias-Régias e Castelinho em 1902.
Fotografia: Arquivo Guilherme de La Penha-MPEG