domingo, 22 de março de 2015

A floresta brasileira e suas aves.


"Num galho seco, inclinado sobre o rio, enfileiram-se os mergulhões e os biguás. De quando em quando corta o espaço um par de asas com um grito penetrante, clarinada de alarme no deserto: "quero-quero"! Vê-se no outro galho o bisonho arapapá, encorujado e triste, e, mais abaixo, no solo úmido, o pavãozinho do Pará a negacear um inseto descuidado.
Na lagoa amornecida pelos raios solares, uma assembleia de marrecões e patos selvagens mariscam ininterruptamente por entre as flores roxas dos mururés; e as irerês, completando o admirável painel, assobiam sem cessar, onomatopaicamente: ireré, ireré...[...].
No tapete úmido da mata sombreada cisca o mutum, o nhambu e o jacu, e nas frondes dos jatobás e caneleiras bandos álacres de periquitos, papagaios, maracanãs e araras revoluteiam na constante inquietação de apanhar os frutos que pendem dos ramos balouçantes.
A não ser a gritaria dos psitacídeos ou o pipilar discreto de um ou outro pássaro esquivo, a floresta brasileira apresenta-se impressionantemente silenciosa, pesadamente mergulhada na quietação. Nesse augusto templo de abóbodas verdejantes sustentadas por colunas ciclópicas, lianas e festões, há um profundo ambiente de misticismo e segredo que nos infunde estranho respeito e admiração.
Essa sensação jamais deixou de impressionar a todos os que se tem embrenhado pelos grotões ermos das matas virgens do Brasil". Agenor Couto de Magalhães. Encantos do oeste. 1945, p. 33.
 
 
 
Pavãozinho-do-Pará. (Eurypyga helias).
Ilustração de Armando Pacheco. 1941 Gastão Cruls. Hiléia Amazônica.  2003.


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