terça-feira, 31 de maio de 2016

A vegetação das ilhas flutuantes


"No baixio formado em meio dos rios, estabelecem-se primeiramente, a aninga (Montrichardia arborescens Schott; Aracea) e o aturiá (Drepanocarpus lunatus Meyer, Leguminosa papilionácea), cujas sementes têm a faculdade de poder boiar. Entre estes aparece depois, o mangue (Rhizophora mangle var. racemosa Meyer). Em meio do mangal, nascem depois o açaí e o miriti primeiramente e em seguida, outras plantas que vão expelindo o mangue para as margens da ilha; esta vai, assim, aumentando. Na zona periférica da ilha, ainda sujeita à ação das marés, instalam-se o mururé de flores roxas (Eichhornia azurea) e Eichhornia crassipes, Ponteriaceas), que produzem caules ramificados densamente, misturados aos de uma Gramínea - a canarana (Panicum amplexicaule), de modo a cobrir completamente a superfície da água. Formam essas plantas por esse modo, ilhas flutuantes, de onde se destaca quase sempre pedaços maiores ou menores que são levados rio abaixo a grandes distâncias". Álvaro Astolpho da Silveira. Narrativas e memórias. 1924, v. 1, p. 22-23.
 
 
 
Eichhornia azurea.
Curtis´´s Botanical Magazine. v. 56, t. 2932, 1829.
Desenho de W. J. Hooker.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Uma floresta de palmeiras


"Logo depois de deixar o acampamento, a trilha entrava em uma floresta de palmeiras, tão diferente das florestas das latitudes mais ao sul como aquelas o são de um bosque europeu. Confesso que, a essas alturas, eu já experimentara um tal excesso das belezas da flora brasileira que me sentia pouco disposto a apreciar os encantos destas formas essencialmente tropicais de vegetação, todavia, é preciso que o viajante seja deveras insensível para não perceber a incrível delicadeza de tais plantas, pois lá parecia se reunir tudo o que havia de mais gracioso no mundo vegetal: havia palmeirinhas nanicas como o ubuçu, que crescia em forma de um feixe de imensas plumas de avestruz, palmeiras altas, com folhas macias e emplumadas como o jupati, ou o tronco espinhento e os cachos de frutas púrpura da marajá, palmeiras com folículos pendentes como a inajá, palmeiras com caules lisos, palmeiras com caules espinhosos, samambaias de muitas outras variedades, e dispersas aqui e ali árvores grandes de espécies diversas, a imensa gameleira arqueada, a inchada barriguda, o tronco alto, reto e amarelo do moleque, e as pequenas mimosas de folhagens emplumada verde-clara. [...]". James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 200.
 
 
 
Jupati. Raphia taedigera (Mart.) [as Sagus taedigera Mart.]
C. F. P. von Martius. Historia Naturalis Palmarum, v. 2, t. 45, 1839.


domingo, 29 de maio de 2016

Uma estufa gigantesca


"Dava-nos a impressão de que estivéssemos atravessando uma estufa gigantesca. Uauaçás, buritis, embaúbas, enormes figueiras, bambus hirsutos, estranhas árvores de troncos amarelos, pequenos vegetais de folhas imensas, árvores altas de limbos delicados como seda, troncos arrimados uns aos outros, plantas de estemas finos e macios se atirando para as alturas em busca de luz, tudo isto emaranhado por uma teia de lianas e cipós, atravancava as margens do rio. Seus galhos pendentes furavam a água, formando uma tela espessa, impedindo avistar-se a barranca e até mesmo atingi-la. De raro em raro uma árvore se mostrava florida: grandes flores de neve ou pequeninas corolas vermelhas ou amarelas. As mais das vezes as flores lilases  da begônia-escandente formavam grandes painéis coloridos. Epífitas inumeráveis tomavam os ramos e até os troncos enrugados.
Era pequena a vida alada: uma ou outra anhinga e martim-pescador pousados de longe em longe. A longos intervalos passávamos por um rancho. Num deles notava-se a casa toda branca, coberta de telhas  e assente sobre pequena elevação revestida de grama, tendo à frente mangueiras. Os postigos de madeira se achavam completamente abertos nas janelas sem vidraças, deixando ver amplos quartos vazios, sem um livro ou um adorno sequer. Junto da porta erguia-se uma palmeira repleta de ninhos de icterídeos. Logo atrás viam-se laranjeiras e cafeeiros e, nas proximidades, plantações de bananeiras, arroz e fumo. [...]". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 1976. p. 111.
 
 
Bananeiras, laranjeiras, palmeira e touceira de bico-de-papagaio num jardim.
Pintura de Marianne North (1830-1890)

 
 
 


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Magnífica vegetação


"[...]. A estrada seguia entre montanhas, cuja magnífica vegetação despertava grande admiração; plantações de mandioca, canas-de-açúcar, laranjeiras, cercando as casas de arvoredos, alternava com pequenos brejos. Espessas touças de bananeiras, mamoeiros, altos e esbeltos coqueiros adornavam as habitações esparsas, enquanto várias e policrômicas flores desabrochavam sob as moitas baixas; entre outras a Erythrina vermelho-escarlate, com suas longas e tubulosas flores, [...]. No meio desses arbustos se erguiam o Cactus, a Agave foetida, e soberbas touceiras de um caniço de folhas em leque. A Canna indica Linn. de lindas flores vermelhas, cresce à margem da estrada, às vezes até dez ou doze pés de altura; mas o forasteiro ainda mais se surpreende com a Bougaivillea brasileinsis, arbusto de um admirável colorido vermelho suave. Não são, porém, as flores e, sim, as grandes brácteas que as revestem, que produzem esse magnífico efeito". Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958, p. 37-38.
 
 
 
 
Canna indica.
wikiwand.com


sábado, 21 de maio de 2016

Palmeiras Murumuru



"[...]. O sol mal tinha raiado quando partimos, e meu plano era seguir ao longo do rio; porém, na intenção de rodear as cabeceiras de alguns igarapés cujas desembocaduras podíamos ver a alguma distância, os índios sugeriram penetrar na floresta pelo lado leste, e assim se fez. Depois de subir e descer colinas e transpor baixadas, varando moitas intrincadas de bambus e de palmeiras murumuru, dotadas de terríveis espinhos de algumas polegadas de comprimento, prosseguimos a caminhada durante algumas horas, até que eles revelaram estar em dúvida quanto ao caminho a seguir. Três vezes subiram em colinas mais altas para tentar avistar a serra, mas em vão. Além de não a enxergarem, também perderam a referência do rio". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 91.
 
 
Astrocarium murumuru.
C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum (1823-1850)



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Uma paisagem maravilhosa


"O arvoredo desdobra-se, pouco a pouco, em toda sua opulência. Massas de folhagem sobem em trepadeiras verde-claro até às copas e dependuram-se até embaixo como vigorosas velas formando altos e redondos caramanchões. Por toda a parte raízes enormes e lisas, de cor cinza, finas ou grossas com braços, parecem amarras de navio a que estivessem presas enxarcias vindas lá do alto, desaparecendo no matagal florido ou enroscando-se nos troncos. O que se torna de surpreendente efeito é que ali nunca se vê o rio diante de si como uma estrada comprida, pois a cada meio ou um quilômetro há sempre uma volta a dar, aparecendo então sempre uma nova paisagem maravilhosa. Os pássaros levantam-se em voo, sendo o mais elegante a garça esbelta e branca de neve, formando contraste com a cor da espessa mata, onde não existe uma linha reta, nem se nota, ao mesmo tempo, formações de contornos regulares. Frequentemente, o nosso conhecido "Maçarico" de cores tão brilhantes, é chamado por aqui de Martim-pescador. O biguá, nosso mergulhão é visto, habitualmente, nos ramos das árvores com muitos companheiros, estirando, curiosamente, o comprido pescoço, ou vem à tona, após mergulhar correndo de passinhos rentes à superfície". Karl von den Steinen (1855-1929). O Brasil central. 1942, p. 55.
 
 
 
 
Biguá e Biguatinga.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.


domingo, 15 de maio de 2016

Riqueza vegetal



"O europeu, transplantado pela primeira vez para esse país equatorial, sente-se arrebatado pelas belezas das produções naturais e sobretudo pela abundância e riqueza da vegetação. As mais belas árvores crescem em todos os jardins; vêm-se aí mangueiras colossais (Mangifera indica, Linn.), que dão uma sombra densa e excelente fruto, os coqueiros de estipe alto e esguio, as bananeiras (Musa) em cerradas touceiras, o mamoeiro (Carica), a Erythrina de flores de vermelho coral, e grande número de outras espalhadas por todos os jardins pertencentes à cidade. Esses soberbos vegetais tornam os passeios extremamente agradáveis; os bosques, que formam, oferecem à admiração dos estrangeiros pássaros e borboletas que jamais viram, entre os quais citarei apenas os colibris de dourada plumagem, como os mais conhecidos. [...]". Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2 ed. 1958. p. 25.
 
 
 
 
Bananeira. (Musa paradisíaca).
L. von Panhuys. Waterclours of Surinam (1811-1824).

 
 
 

sábado, 14 de maio de 2016

As palmeiras como matéria alimentar


"[...]. Ainda não falamos em nada do que se conseguia das palmeiras como matéria alimentar. Palmitos de açaí, inajá, miriti, bacaba, uauaçú e piririma. Farinha de polpa dos frutos da pupunheira e da jará ou do caule do miriti. Frutos que tanto se comiam crus ou assados, da jará-açu, marajá, pupunha, murumuru, inajá, tucumã, curuá-piranga, iú. Vinhos de açaí, patauá, bacaba, piaçava, inajá, tucum, marajá-açú. Azeites de bacaba, tucum, curuá-branco, piririma, jauari, murumuru.
Os frutos da jará e da inajá e as inflorescências da patauá, quando torrados, supriam a falta de sal.
Para terminar, convém não esquecer o muito que contribuíram as folhas das palmeiras, sobretudo as de tipo palmado, para o desenvolvimento da arte do trançado, com forte projeção ulterior sobre os motivos ornamentais, de ordem geométrica, tão em uso na cerâmica e nos adornos indígenas. [...].". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955, p. 51-52.
 
 
 
Açai (Euterpe oleracea)
J. Barbosa Rodrigues (1842-1909). Sertum palmarum brasiliensium - 1903
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


segunda-feira, 9 de maio de 2016

O gavião Acauã


"[...]. No ar, em volteios de quem espia a presa, constatou alguns gaviões coloridos, de bicos recurvos e garras aduncas, planando no mesmo nível de urubus pretos, necrófagos, sinistros; nas árvores ribeirinhas, além do anu, escuro, comedor de carrapato, observou outro gavião, o acauã, meio águia e meio bruxo, devorando cobra como um gênio tutelar do homem, mas, do mesmo passo, obrigando por um pio expressivo, certos sujeitos a chocarem pedra, a levantarem os braços como galinhas no ninho, e a exclamarem -acauã! acauã! Nas copas altas, invisíveis, descobriu os uirapurus e caraxués, atraentes, hipnotizadores os primeiros, maviosos e sedutores os segundos. Pelos galhos, negros e luzidios como se tivessem penas de aço, bicos em fava encarnada, descortinou mutuns ariscos, medrosos, que engolem pedra, alfinete, agulha, prego, voando assustados com o estalido dos sacaís, assinalou graúnas trigueiras, alheias ao carinho materno, insensíveis às ternas bicadas da prole, e que deitam os ovos nas balouçantes bolsas pardas e pendentes das franças redondas, ninhos de japiins, para que estes lhes criem e adotem os filhos. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930, p. 45.
 
 
Acauã (Herpetotheres cachinnans).
Desenho de Hercules Florence. Expedição Langsdorff ao Brasil (1821-1829).
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna​ - Museu Goeldi
 

 
 

domingo, 8 de maio de 2016

A Vitória-Régia


"No extremo superior do lago, chegamos ao berço dos lírios, donde fora arrancado o troféu da véspera. As folhas eram muito grandes, tendo várias entre elas 4 ou 5 pés  (1,22m a 1,52m) de diâmetro, mas penso que haviam perdido um tanto do seu frescor e de sua forma natural; assim, os seus bordos se erguiam quase que imperceptivelmente e às vezes mesmo deitavam-se completamente sobre as águas. Achamos alguns botões porém nenhuma flor aberta. Esta tarde, felizmente uma das filhas de Maia, o nosso pescador, sabendo que eu desejava ver uma dessas flores, foi busca-la numa lagoa situada muito mais longe e que não teríamos tempo de visitar. Trouxe-me um exemplar perfeito. Os índios dão à folha um nome característico: chamam-na "forno", pela semelhança que apresenta com as imensas vasilhas muito raras em que torram a cassava nos fornos de mandioca. Todos os viajantes descreveram a Vitória-régia, a sua formidável armadura de espinhos, suas folhas colossais e suas admiráveis flores, cuja coloração vai do branco aveludado através de todas as gradações do rosa, ate o púrpura escuro, para voltar, no  centro, a uma cor leitosa um tanto amarelada. Não fatigarei o leitor com uma nova descrição. E no entanto, não nos foi possível contempla-la nas suas águas natais sem experimentar uma viva impressão diante do que se pode considerar o tipo do transbordamento luxuriante da natureza vegetal nos trópicos. Por mais maravilhosa que ela pareça quando admirada na bacia de um parque artificial, onde faz maior efeito pelo seu isolamento, tem, contemplada no meio que lhe é próprio, um encanto ainda maior, o da harmonia com tudo o que a rodeia, com a massa compacta da floresta, com as palmeiras e as parasitas, as aves de brilhante plumagem, os insetos de cores vivas e maravilhosas, com os próprios peixes que, escondidos nas águas, por baixo dela, têm suas cores não menos ricas e variadas do que as dos seres vivos do ar [...]". Luiz Agassiz (1807-1873); Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907).  Viagem ao Brasil (1865-1866). 1938, p. 437-438).
 
 
 
“Victoria regia – Opening Flower”
Walter Hood Fitch Chromolithograph from Sir William Jackson Hooker (1785-1865)
Victoria regia; or Illustrations of the Royal Water-lily


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Uma bromélia com formato de ânfora grega


"Em Nazaré, nadei nas águas negras do rio, um pouco receosa com as fortes correntezas, partindo, a seguir, em uma canoa artesanal com dois jovens índios chamados Gilberto e Francisco. Com uma agilidade espantosa, Gilberto escalou uma árvore alta e jogou de um galho apodrecido uma estranha bromélia que vira a distância. A bromélia possuía o formato de uma ânfora grega e as folhas envergavam para trás, violentamente, de sua base vermelha, como se fossem espadas fortemente serrilhadas com espinhos negros. A planta não estava florescendo, mas não tive dúvida de que era uma nova espécie. Foi comprovado que o era e foi denominada Aechmea polyantha. Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 86.
 
 
Aechmea polyantha.
Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010.


domingo, 1 de maio de 2016

Uma linda manhã


"Os tons suaves da madrugada de uma linda manhã caíam igualmente sobre campo e corrente e tingiam toda a criação com seus matizes rosados. As margens ricamente coloridas brilhavam a luz quente, que fazia as flores gotejantes da floresta, as samambaias  e flores da praia, todas luzirem e reluzirem como joias. Sobre o rio, aqui e ali, manchas de vapor ascendendo obscureciam em parte suas camadas de ouro  cintilantes, até que uma leve brisa levou para longe a neblina na mais sutil das nuvens. Os peixes pulavam nas águas fumarentas; vívidos martins-pescadores azul-bronze dardejavam desde seus poleiros nos esqueletos de troncos descorados encalhados à beira d´água; garças brancas deslizavam à superfície do rio com as asas bem abertas; nuvens de periquitos barulhentos e tagarelas passavam pelo ar; numerosos passarinhos miúdos chilreavam e gorjeavam e reverberavam de penhasco a penhasco das barrancas. Era um quadro que, mesmo na ausência de conforto pessoal, não se podia deixar de contemplar com deleite, e toda a natureza parecia dar boas-vindas à aurora cor-de-rosa e ao ar puro e fresco, depois da noite escura e ameaçadora." James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 156.
 
 
 
Garça-real. Pilherodius pileatus.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
Ilustrações de Etienne e Yvone Demonte
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi