segunda-feira, 9 de maio de 2016

O gavião Acauã


"[...]. No ar, em volteios de quem espia a presa, constatou alguns gaviões coloridos, de bicos recurvos e garras aduncas, planando no mesmo nível de urubus pretos, necrófagos, sinistros; nas árvores ribeirinhas, além do anu, escuro, comedor de carrapato, observou outro gavião, o acauã, meio águia e meio bruxo, devorando cobra como um gênio tutelar do homem, mas, do mesmo passo, obrigando por um pio expressivo, certos sujeitos a chocarem pedra, a levantarem os braços como galinhas no ninho, e a exclamarem -acauã! acauã! Nas copas altas, invisíveis, descobriu os uirapurus e caraxués, atraentes, hipnotizadores os primeiros, maviosos e sedutores os segundos. Pelos galhos, negros e luzidios como se tivessem penas de aço, bicos em fava encarnada, descortinou mutuns ariscos, medrosos, que engolem pedra, alfinete, agulha, prego, voando assustados com o estalido dos sacaís, assinalou graúnas trigueiras, alheias ao carinho materno, insensíveis às ternas bicadas da prole, e que deitam os ovos nas balouçantes bolsas pardas e pendentes das franças redondas, ninhos de japiins, para que estes lhes criem e adotem os filhos. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930, p. 45.
 
 
Acauã (Herpetotheres cachinnans).
Desenho de Hercules Florence. Expedição Langsdorff ao Brasil (1821-1829).
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna​ - Museu Goeldi
 

 
 

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