segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Guará com sua rica plumagem flamejante


"Nas praias mais desertas, quando uma camada de lama substitui a areia ou se cobre de vegetação característica dos terrenos banhados pelas grandes marés salgadas, fervilham os caranguejos, os siris, saratus, os maraquanis, guarás, os sararás.
Dá-se então a cena interessante de afluência de várias aves, apenas se retira a maré. Entre elas distingue-se francamente o guará. Sua rica plumagem flamejante faz dele um magnífico ornato dessas praias. Quando novo é ele negro, mas correm os anos e o carvão se faz brasa viva. Quando a aurora rubra sucede às trevas da noite, recorda a transição das cores do guará.
É de particular amigo dos maraquanis; não faz, portanto, concorrência ao homem que não é apreciador desses modestos habitantes das praias, se bem que o não despreze.
Não são deselegantes as linhas do guará. Lembra a garça esbelta. Contudo, o que nele é mais atraente, sem dúvida, é o vivo colorido da indumentária natural. Afirmam-nos que o guará é perfeitamente domesticável, mas que, longe de suas praias povoadas de maraquanis, desbota-se o encarnado da plumagem e fica ele cor-de-rosa. Efeito de nostalgia? [...]". Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974). No estuário amazônico: à margem da visita pastoral. 1976. p. 191.


Ninhal de guarás.
Ilustração de Ernst Lohse.
Álbum de aves amazônicas de Emílio A. Goeldi, 1900-1906.

sábado, 12 de agosto de 2017

Agradável impressão do Araguaia




"[...]. Não posso esquecer-me da agradável impressão que me deixou esta primeira noite do Araguaia. O céu tinha estado nublado até essas horas; de quando em quando, o vento mugia nas praias e as nuvens largavam gotas raras, mas grossas, de uma chuva gelada; na hora, porém, em que eu me deitava, as nuvens rarefizeram-se e foram pouco a pouco se dissipando, até que o céu se tornou límpido e puro como um espelho infinito de safiras; então, no oriente, que se avistava muito ao longe, porque naquelas planícies não há morros, nem outeiros, nem serras, a lua desenhou-se calma e revestida desse encanto melancólico que tem sempre esse astro da noite em nossas solidões, despertando no coração vagas saudades e incertas esperanças de um futuro ideal, que nunca realizaremos na terra, e que é, talvez, uma aspiração de nossa alma para a imortalidade.
Fora-me impossível descrever o que então senti à vista daquelas paisagens tão grandes, contempladas de uma das mais belas praias do rio, ao clarão dessa noite, nas horas silenciosas e quietas que estávamos: era uma espécie de êxtase o estado de minha alma, e eu, contemplo todas essas grandezas, entre a penumbra do sono e da vigília, enxergava não só o que estava presente, como ainda tudo o que eu tinha sentido nesse dia, completamente cheio de impressões profundas e inteiramente novas para mim". José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898). Viagem ao Araguaia. 7. ed. 1975. p. 106.


C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum - 1823-1850)






segunda-feira, 7 de agosto de 2017

As graciosas plantas à margem da lagoa


"Entre as graciosas plantas da margem da lagoa merece também atenção especial a Mari-Mari, qualidade de Cássia, cujas belas e longas vagens são apreciadas pelos índios como um grande petisco.
Nas calmas enseadas, enfim, sobrenadam, grandes como outras tantas barquinhas e da forma de bandejas, as folhas da soberba Victoria regia, a rainha sem rival de toda a flora aquática. Petulantes golfinhos brincam em cardumes no meio do lago. [...].
Lá onde não chegam as inundações periódicas, na chamada terra firme, a vegetação já assume caráter diferente. O castanheiro (Bertholletia excelsa), nosso augusto conhecido das margens do Tocantins, aparece aqui outra vez em grandes bosques, ornado dos seus grandes e pesados cocos.
Aqui também é que se encontra a verdadeira riqueza de madeiras de construção, cuja enumeração encheria um volume. [...]". Paulo Ehrenreich (1855-1914). Viagem nos rios Amazonas e Purus. Revista do Museu Paulista, São Paulo, t. 16, p. 305, 1929.



Cassia occidentalis.
M. E. Descourtilz. Flore médicale des Antilles, v. 2, t. 135, 1822.
 Desenho de J. T. Descourtilz.
www.plantillustrations.org

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Encantadores passeios pela floresta


"Um dos grandes prazeres da estadia em Tefé, é que temos ao nosso inteiro alcance encantadores passeios. A minha maior diversão e passear de manhã muito cedo, pela floresta que domina o povoado. É alguma coisa de admirável contemplar, dessa elevação, o sol nascer por cima das pequeninas casas que estão a nossos pés, o lago pitorescamente recortado de pequenos canais que se prolongam ao longe, e, nos últimos planos, o fundo das grandes florestas da margem oposta. Do nosso posto de observação sai um estreito caminho que se estende por entre as moitas e conduz a uma magnífica mata, espessa e sombria. Aí pode a gente vagar ao léu do seu capricho, porque há como que um dédalo de pequenas trilhas abertas pelos índios através das árvores. E como não se deixar tentar pelo sombrio frescor, pelo cheiro dos musgos e das filicíneas, pelo perfume das flores? A mata é cheia de vida e de ruídos; o zumbido dos insetos, os sons estrídulos dos gafanhotos, o grito dos papagaios, as vozes inquietas dos macacos, tudo isso faz a floresta falar. [...]. Um dos caminhos mais bonitos, que se me tornou familiar em meus passeios quotidianos, vai ter, do outro lado de um igarapé, a uma casa ou antes a um telheiro coberto de folhas de palmeiras, situado em plena floresta e onde se prepara a mandioca". Luís Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil -  1865-1866. 2000. p. 221-222.


Floresta.
C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum 1823-1850

sábado, 29 de julho de 2017

Uma maravilhosa bromélia


"Procuramos em vão pelo rio Cauhy. Encontramos a estreita foz do rio Nhamundá cercada por um atraente igarapé, uma complexa quantidade de ilhas com árvores atrofiadas obscurecidas pela quantidade de epífitas em seus galhos. A cor dominante era o vermelho, bromélias com folhas escarlates e inflorescências (Achmea huebneri) cresciam junto às concentrações verde-escuras de orquídeas (Schomburgkia) e antúrios com grandes folhas. A paisagem da floresta tornou-se escura gradativamente, com muitas palmeiras Jauari e árvores com troncos enfileirados como colunas góticas; sobre o rio espalhava-se Macrolobium com suas folhas semelhantes às da samambaia. Continuamos navegando pelo rio até ancorarmos próximo ao tronco de uma árvore caída na qual cresciam orquídeas, incluindo uma Catasetum - a primeira que vi na região. Colhi uma maravilhosa bromélia com uma coroa de plumas corais que encontrei em uma palmeira (Achmea huebneri). O ponto alto, no entanto, foi quando uma outra bromélia, a Aechmea polyantha, apareceu em uma grande árvore. Fiquei tão entusiasmada que desenhei até acabar a luz". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2010. p.132.


Achmea huebneri.
Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma floresta de Cecrópias


"Vimos assim, logo nos primeiros dias de viagem no Rio Amazonas, as sumaumeiras saindo da água nas margens inundadas, rodeadas de numerosas mungubas (Bombax munguba), rivais dos citados eriodendros e, em muitos respeitos, semelhantes a eles. Vimos flocos encarnados e brancos da lã de ambas as árvores voando em grande quantidade por cima do rio
Muito menores do que aquelas grandes rivais, providas de muito menos e escassos galhos, ostentando nas extremidades folhas de longos pecíolos e profundamente recortadas, medram em quantidades ainda maiores do que as bombáceas as cecrópias, por toda parte, na orla da floresta. Já falei muitas vezes dessas árvores singulares, cujo tronco oco, em cada cicatriz de folha forma uma parede divisória, servindo de morada às formigas e sobretudo à preguiça. Invadem às vezes toda a floresta, prados inteiros e toda a ilha. Parecem mesmo ter certa propriedade de formar praias. Uma cecrópia será sempre a última árvore a manter-se num terreno pantanoso e a primeira a criar raízes num terreno recém-inundado e transformá-lo, pela proliferação em solo firme. Uma ilha de cecrópias assim, uma floresta de cecrópias como essas, tem o aspecto tão bonito e tão em ordem quanto qualquer plantação e diferencia-se muito da floresta bravia". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961. p. 66.


Embaúba. Cecropia peltata.
 M. E. Descourtilz. Flore medicale des Antilhes, v. 2, t. 75, 1822.
Desenho de J. T. Descourtilz.

sábado, 8 de julho de 2017

Os macaquinhos de cheiro


"[...]. Poucos dias atrás, ouvi um ruído estranho e um estrondo na mata, que a princípio não conseguia explicar. Por um momento, pensei que uma gigantesca árvore tinha caído no meio da mata, tamanho foi o estalo da galharia; notei, então, que o barulho mudava de lugar e achei que era o estouro de um bando de animais de grande porte, quem sabe até porcos selvagens correndo pelo mato. Por fim, quando o barulho que vinha em minha direção estava bem perto, ouvi também o chilro agudo e estridente com o qual todos os nossos macaquinhos se distinguem, porém sem conseguir nada além de alguma sombra por entre os galhos, de vez em quando. Então, de repente, surgiu numa copa de palmeira mais baixa, bem perto de mim, uma cabecinha: duas orelhinhas pontudas e cara rosada com focinho preto permitiam reconhecer, na mesma hora, o meu predileto do jardim zoológico, o macaco-de-cheiro [...]. Por vários instantes, ficamos nos olhando imoveis, cheios de interesse um pelo ouro; então, a pequena sentinela (claramente o chefe do bando) demonstrou preocupação; emitindo um som curto, quebrado, recuou; em seguida, ouvi o barulho de galhos quebrando de novo e agora por todo lugar, o grito de alerta, enxergando em seguida os bichinhos esguios praticamente voando de copa em copa em enormes ajuntamentos. Por muito tempo, foi possível saber para onde iam pelo barulho que faziam. [...]". Emília Snethlage ( 1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 202-203, jan.-abr. 2013.



Macaquinhos na floresta.
Art-Tropical.
 www.pinterest.com

domingo, 2 de julho de 2017

Uma encantadora paisagem



"O rio desdobrou hoje aos nossos olhos perspectivas encantadoras. Bastante mais espaçoso, dado que em certo ponto teria mesmo quatrocentos metros de largura, o seu leito apresentava-se constantemente garrido de pequenas e atraentes ilhotas, com prainhas muito limpas, pedras bem polidas e uma viçosa vegetação sombreira. Nelas predominavam os araparis, alguns em flor, bosquetes de mongubeiras e uma ou outra soca de palmeiras jauaris. As suas franjas de praia, caprichosamente recortadas, são quase sempre de areia avermelhada, formando brilhante contraste com os verdes do arvoredo. A mais, neste trecho do rio, amiudavam-se as peúvas, debruçadas das ribanceiras e como que a se mirarem no espelho das águas, que lhes reproduzia a imagem em grandes manchas de ametista líquida". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 1930. p. 127-128.


Paisagem amazônica.
 Arte de Edivaldo Barbosa de Souza

domingo, 25 de junho de 2017

Viagens pelos rios de água preta


"Se viajarmos pelos rios, principalmente os rios de água preta, escassos de sedimento, ao contrário dos outros, os de aluvião, não teremos grande contato com a avifauna amazonense. Essas correntes fluviais são tão pobres de caça e de pesca que se lhes deu o nome de rios famintos e neles, mormente se atingirmos os seus altos, acima das cachoeiras, não será difícil passar fome. Conhecemo-los bem, pois foi por um eles, o Erepecuru, e depois o Parú, de oeste, que subimos até chegar aos contrafortes de Tumucumaque, já nos limites da Guiana Holandesa. Aí, uma ou outra ave que se visse, durante todo um longo dia de viagem, era sempre um acidente digno de nota. Isolados maguaris que , com voo pesado, à aproximação da canoa, abandonavam um pouso para procurar outro, em sítio mais distante, mas sempre à mesma margem. Arirambas maiores ou menores que riçavam o espelho das águas e surgiam com um peixinho no bico. Biguatingas de pescoço esguio colubreante mergulhando aqui para aparecer muitos metros além. Um casal de araras vermelhas cortando o azul do céu ou um caracará de asas ao pairo, pronto a despejar-se sobre qualquer presa. Em bandos, só as gaivotas, sempre a gritar, revoluteando sobre as praias, onde os seus ovos incubavam ao sol; ou, então, alguns patos asa-branca, nadando gostosamente nos espraiados de água remansosa. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2003. p. 86-87.




Biguá e Biguatinga.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986. 


terça-feira, 6 de junho de 2017

Enormes tufos de bromélias


"[...]. Espécies dos gêneros Cocos, Melastoma, Bignonia, Rhexia, Mimosa, Inga, Bombax, Ilex, Laurus, Myrthus, Eugenia, Jacaranda, Jatropha, Vismia, Lecythis, Ficus e milhares de árvores outras, a maior parte ainda desconhecidas, compõem o maciço da floresta. O solo está juncado de flores, e fica-se embaraçado para saber, de qual elas provêm. Alguns galhos gigantescos, cobertos de flores, de longe parecem brancos, amarelo vivo, vermelho escarlate, róseos, violetas, azul celeste, etc.; nos lugares pantanosos, erguem-se em grupos unidos sobre longos pecíolos, grandes e belas folhas elípticas das helicônias, que têm às vezes de 8 a 10 pés de altura, acompanhadas de flores de forma extravagante, e cor vermelha carregada, ou de fogo. No ponto de divisão dos galhos das árvores maiores, crescem enormes bromélias, de flores em espiga ou em panícula, escarlates ou de outras cores igualmente belas; descem grandes feixes de raízes, à semelhança de cordas que descem até o solo e constituem novos obstáculos para o viajante. Esses tufos de bromélias cobrem as árvores até que, depois de muitos anos de existência, morram e, desarraigados pelo vento, caiam em terra com grande fragor. Milhares de plantas trepadeiras de todos os tamanhos, desde as mais delicadas até as que têm a grossura de uma coxa , muitas de lenho rijo (Bauhinias, Banisteria, Paullinia e outras) entrelaçam-se em volta dos troncos e dos galhos, elevam-se até o cimo das árvores, onde dão flores e frutos fora do alcance da vista humana. Alguns desses vegetais têm forma tão singular, como por exemplo certas espécies de Bauhinia, que não podem ser observadas sem surpresa. Não raro o tronco em volta do qual elas se enrroscaram morre e vai-se consumindo; vêem-se então cipós colossais que sobem com as espirais livres, e compreende-se facilmente a causa do fenômeno. Seria bem difícil representar o aspecto dessas florestas, pois a arte ficará sempre aquém do que pretende exprimir". Maximilan, Príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958. p. 350-351.



Bromélia. Aechmea fulgens.
D´Orbigny, C. V. D. Dictionnaire universel d´histoire naturelle. v. 3, 1841-1849.
www.plantilustration.org.

sábado, 20 de maio de 2017

Pavãozinho do Pará


"[...]. Mas tornemos ao pavãozinho-do-Pará, para surpreende-lo agora no seu habitat natural, preferentemente sempre solitário, à beira de furos e igarapés sombrios, mas gostando também de apanhar o seu bocado de sol, como depõe o americano Rusby, na seguinte passagem:
"Achei muitas das aves desta região tão interessantes como as plantas. Uma das mais encantadoras era a chamada ave-sol (Eurypyga helias). Só pude vê-la uma vez, embora me dissessem que elas não eram raras. Tive uma excelente oportunidade para observar por algum tempo esta que se me deparou, aproximadamente do tamanho de um frango, com formas mais esguias e penas brilhantemente coloridas. Vive na mata fechada, mas procura as clareiras ensoalhadas, para realizar as suas danças acrobáticas. A que eu vi, estava numa aberta bem iluminada, com uns dez a doze pés de diâmetro, situada no meio do caminho. Corria rapidamente, fazendo círculos da direita para esquerda, com a asa direita bem levantada, evidentemente para que tivesse maior estabilidade, não só para rodar com mais rapidez e segurança, como também a fim de inverter o movimento. Então saltou no centro do terreno e aí se pôs aos pulinhos, para cima e para baixo, ora sobre os dois pés ora apenas sobre um. Levantava a cabeça tão alto  quanto possível, para, de repente, curvando o dorso, abaixá-la até o chão. Além desses movimentos regulares, entregava-se à mais extravagante série de saltos e cabriolas que imaginar se possa. Era claro que não havia a menor relação entre aqueles saracoteios e qualquer objetivo prático, como a procura de alimentos. Tratava-se, sem dúvida, de um simples folguedo em instante de alegria. Visivelmente, a ave sentia-se muito feliz e isto deu-me também vontade de participar do seu brinquedo". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955. p. 114-115.



Pavãozinho-do-Pará à esquerda.
Desenho de Ernst Lohse. Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Segredos e mistérios do Tajá


"Não é apenas pelo seu feitio decorativo que o tajá (Caladium bicolor) é festejado na Amazônia como planta de estimação. Mais do que pela esbelteza das folhas, pela graça e elegância do corte, pela simplicidade geométrica das linhas, ele possui segredos e mistérios que só a alma cabocla entende e aprecia. Enorme é a variedade dessas plantas que formam as vistosas e esmeradas toiças da planície: tajapeba, com a sua raiz chata; o tajá-piranga, de uma coloração vermelha, belo aspecto, perigoso pelo veneno, e cujas raízes eram utilizadas pelos indígenas do Uaupés como o castigo para as mulheres curiosas que se atreviam a espiar as cerimônias maçônicas do Jurupari; o tajá-pinima, o tajá tatuado, cheio de manchas; o tajá grande, o tajá-preto, o tajá-de-sol, o tajá-membeca, o tajá-purú, este a espécie mais sugestiva e preferida pelas virtudes que são atribuídas às raízes de fazer-nos felizes nos amores e afortunados e bem sucedidos na caça e na pesca. [...]". Gastão de Bettencourt. A Amazônia no fabulário e na arte. 1946. p. 149-150.



Caladium bicolor.
Curtis´s Botanical Magazine, 1861.

terça-feira, 9 de maio de 2017

A majestosa Inajá


"[...]. Entre as árvores de folhagem, leguminosas e bombáceas, que alteiam suas copas acima das vizinhas, erguem-se outras palmeiras: paxiúba (Iriartea exorrhiza), a majestosa inajá (Maximiliana regia), bacaba (Oenocarpus bacaba) e o esguio açaí (Euterpe oleracea), cujos frutos fornecem uma apreciada e nutritiva compota (doce) aos moradores do beiradão do Amazonas, que os pequenos moleques de cor anunciam aos gritos nas ruas do Pará e de Manaus.
Embora a vegetação seja tão rica de variedades, a vida animal é pobre. Pelo menos, do navio, não se vê quase nada dela. De vez em quando, voam araras, sempre aos pares, deixando suas belas cores brilhar ao sol. Incontáveis papagaios e periquitos enchem a floresta com seus gritos briguentos. Pequenos martins-pescadores acompanham o navio em certos trechos. Aqui e acolá, num galho seco da árvore, uma garça branca está espreitando o peixe, ou, espantada pelos estampidos da espingarda dos passageiros, plaina num voo majestoso diante do navio, para logo se apresentar de novo. Mas isto é tudo". Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas - viagens no noroeste do Brasil (1903/1905). 2005. p. 24-25.



Palmeiras. Maximiliana regia ao centro.
A. D.  d´Orbigny. Voyage dans l´Amérique Méridionale, v. 7, n. 3, 1847.
 www.plantillustrations.org.


sábado, 6 de maio de 2017

Palmeira jauari onde cantam os sabiás do poeta


"[...]. A vegetação escassa dessas terras aguacentas tem um verde-claro, lavado. São os dilatados campos de canarana e de muri, de onde se eleva isolada uma ou outra palmeira caraná ou jauari, em cujas ramas cantam nas manhãs alegres os sabiás do poeta; a fraca imbaúba de folhas grandes, recortadas e ásperas, a grossa e rude mongubeira em cujos galhos fabricam seus ninhos, compridos como abóboras, os japiins brancões; o taxi, cujas flores brancas, de que nesta época se cobre a sua copa simétrica, dão-lhe de longe o aspecto de um enorme ramalhete erguido no ar. Raramente, lá em ponto favorecido por não sei que circunstância do terreno, crescem juntas, qual ilha no meio este mar de canarana, algumas árvores pecas, condenadas fatalmente a serem afogadas pela cheia. Nas beiras dos canais que comunicam os lagos  entre si e em toda a extensão do comprido igarapé é onde se reúne alguma vegetação - uma vegetação fraca, sob enganadora aparência do seu brilho - formando como que uma trincheira para impedir a queda das terras roídas pelas águas. [...]". Umas árvores de cerne alvadio, rugoso, de nomes esquisitos: o magro e folhudo socoró, o paricá falso, o uruá, o acará-açu, de casca pintada como o peixe desse nome, o catauari e poucos galhos e a cuiarana, mal comparada à verdadeira e linda cuieira". José Veríssimo (1857-1916). Cenas da vida amazônica. 2011. p. 36-37.



Palmeira jauari  Astrocaryum jauari
 J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1989.

domingo, 30 de abril de 2017

Samambaias de grandes folhas


"Entre os dias 14 e 18 o tempo mostrou-se calamitoso; chegava a chover às vezes doze horas seguidas; não eram, porém, aguaceiros pesados, e sim uma chuva fina e constante, do tipo a que estamos acostumados na Inglaterra. Atracamos em vários pontos - o Pena para fazer os seus negócios e eu para andar pela mata à procura de pássaros e insetos. Num certo lugar deparei com um quadro muito pitoresco: do alto da encosta do barranco coberto de mata fluía um regato através de uma estreita ravina, o qual se despejava lá de cima numa série de pequenas cascatas que iam terminar no vasto rio lá embaixo e eram orladas por uma infinita variedade de lindas plantas. Bananeiras silvestres, curvavam-se sobre a água, e os troncos das árvores vizinhas mostravam-se cobertos de samambaias de grandes folhas, pertencentes ao gênero Lygodium. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979. p. 131.



Samambaias
Ilustração de Margaret Plus (1828-1901)




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Tarde luminosa na floresta


"Tarde luminosa. A floresta refrescante amenizava o calor do dia. Por cima das frondes verdes pouco densas, o límpido céu azul tropical sem nuvens. Alguns pássaros da floresta chilreavam seu canto sem regra; periquitos ralhavam nos galhos das árvores, ao longo dos quais corriam bandos de macacos com incrível agilidade, enquanto nos galhos mais altos, muitos gaviões se expunham ao sol e passavam os olhos penetrantes por sobre a mata. Pontederáceas floresciam sobre a água escura; cássias e leguminosas doutras espécies formavam matizes azuis e amarelos; uma graciosa asclépia branca e pendurava-se em longos festões até ao rio embaixo, no qual a canoa avançava sempre com algum trabalho por entre os galhos de árvores caídas da margem.
Mas, a selva já se abria; já avistávamos o lago do igarapé, agora mais largo, quando fomos atraídos e presos pelo aspecto duma maravilhosa planta aquática.
De ambos os lados de nossa canoa, 10 a 12 exemplares de Victoria regia ostentavam suas folhas colossais e soberbas flores. [...]". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No Rio Amazonas (1859). 1980. p. 212.




Victoria regia
Ilustração de William Sharp (1803-1875)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Ornamentos do Reino Vegetal


"[...]. Fenecidas ao calor dos dias anteriores, as folhas das árvores e as flores vivamente coloridas duma porção de plantas carnosas ostentam toda a sua riqueza, e parecem adquirir nova vida: Dracontium, Caladium, Pothos, Bromélia, Cactos, Epidendrum, Heliconia, Piper e uma infinidade de outras plantas de textura suculenta, que particularmente se desenvolvem em companhia dos fetos sobre as árvores cobertas de musgos , levantam os seus novos rebentos e muitas delas enchem a mata das mais suaves emanações. Refrescados e reanimados, todos esses ornamentos do reino vegetal, entre os quais cumpre colocar as palmeiras, a começar pelas espécies de Cocos, principal enfeite das florestas virgens, adquirem um grau de vigor mais acentuado, quando, após a chuva, os raios do sol lhes fazem sentir sua influência salutar". Maximilian, Príncipe de Wied Neu-Wied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1958. p. 459.




 Epidendrum paniculatum.
 Lindenia. iconography of orchids v. 1, 1885


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ilhas flutuantes


"Ilhas flutuantes são, antes, jangadas formadas pelo enlaçamento de uma grande quantidade de plantas aquáticas flutuantes que, na época da cheia, são arrancadas, pelo vento, das enseadas dos lagos e das margens dos rios onde elas cresceram, ou se acham encostadas, e, tomando o fio da água, vão descendo o Amazonas.
Estas jangadas que atingem às vezes grandes dimensões, mas pouco emergem à flor d´água, são colhidas, de passagem, pelos galhos de alguma árvore caída no rio com um barranco e também arrastado pela correnteza; são os vultos destas confusas associações vegetais, assim reforçadas e alteadas, que parecem mesmo, ao longe, pequenas ilhas  deslizando água abaixo, uma atrás da outra, em fileira interminável.
A canarana rasteira (Paspalum repens Berg.), ou Pirimembeca, a Canarana de folha miúda (Panicum amplexicaule Rudge), são as ervas que formam a maior parte das ilhas flutuantes, quase sempre orladas por largas folhas de mururé orelha de veado, ou aguapé (Eichhornia azurea Kunth), cujas curtas hastes bolbosas constituem excelentes flutuadores". Paul Le Cointe (1870-1956). O Estado do Pará: a terra, a água e o ar. 1945. p. 222.



Eichhornia azurea e Nymphaea odorata sulfurea.
Revue horticole, 1890.
Biodiversity Heritage Library

domingo, 9 de abril de 2017

A impressionante densidade da mata


"Ao escurecer a umidade era tanta que saía da mata uma densa cerração, como se fosse fumaça de algum incêndio no subosque. As folhas das árvores brilhavam ainda molhadas e o perfume das flores nas margens frequentemente nos atingia. É impressionante a densidade da mata neste trecho do Tiquié, onde ela já é bem mais alta, com árvores de grande porte, hospedando bromélias, orquídeas e aráceas, estas ligadas ao solo por longos e delgados cipós esbranquiçados. Nas margens é extremamente abundante a palmeira jauari, a qual denominei de sentinela da mata, com suas longas raízes elevadas em forma de cone, suas folhas quais bandeiras desfraldadas ao vento. Certos trechos da mata são tão densos que um pássaro teria dificuldade em penetrar ali. Pelo menos, foi isso que aconteceu a um jaó ou macuco que, num grande esforço, atravessou o rio, indo esbarrar com aquela massa verde na margem oposta e caiu de cheio n´água, divertindo aos que assistiram a cena". José Cândido M. Carvalho. Notas de viagem ao Rio Negro. Publicações Avulsas do Museu Nacional, Rio de Janeiro, n. 9, p. 36, 1952.


Bromelia bracteata.( Detalhe).
Sydney Parkinson ilustrações botânicas de espécies brasileiras na expedição de James Cook 1768-769. 2012.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Tucanos de peito branco


"Alta madrugada fomos surpreendidos por mais chuva, vendo-nos forçados a ir para a canoa e ali, acendendo o nosso fogão. Distraimo-nos contando histórias uns aos outros. O dia amanheceu carrancudo, a mata respingando fortemente. Eu estava satisfeito, pois dormira pouco, porém aprendera mais um pouco de Nhêengatu com o Velho Plácido.
Preparamo-nos para largar. Tomei outro banho no igarapé e às 6 horas em ponto, quando apareceu o primeiro bacurau, rumamos para Tatupiera.
As aves desta região são as mesmas do Rio Negro: tucanos de peito branco, taquiris, garças, marianitas, martins-pescadores, siriris e alguns belos cotingídeos desconhecidos por mim. [...]". José Cândido M. Carvalho. Notas de viagem ao Rio Negro. Publicações Avulsas do Museu Nacional, Rio de Janeiro, n. 9, p. 58, 1952.



Tucanos.
 John Gould (1804-1881). A Monograph of The Ramphastidae or faimily of toucans.  2. ed. 1992.

domingo, 26 de março de 2017

Uma riqueza de flores


"Foi nessa floresta, ao mesmo tempo temida e inspiradora, que encontrei uma árvore de Heterostemon ellipticus com uma riqueza de flores ametistas. Essa árvore é comumente chamada de árvore de Orquídeas, pois suas flores lembram vagamente laelias e catléias.
Também vi nessa floresta uma Gongora quinquenervis crescendo no alto de uma grande árvore. Foi a única da espécie que pude encontrar durante a minha jornada. Na mata onde  eu a localizei havia pouca vegetação rasteira, exceto por uma espécie de raiz conhecida como Aninga montrichardia. Nas árvores havia inúmeras epífitas: bromélias, orquídeas e raízes. As flores da árvore bola de canhão (Couroupita guianensis) salpicavam o chão com suas pétalas creme e bronze; os sinos vermelhos e pretos de uma trombeta chinesa repousavam ao seu lado, provavelmente caídos de uma das trepadeiras gigantes entranhadas entre as árvores enormes". Margaret Mee (1909-1988). Flores da Floresta Amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2. ed. São Paulo: Escrituras Editora, 2010. p. 42.


Couroupita guianensis.
L. von Panhuys. Waterclours of Surinam (1811-1824)

terça-feira, 21 de março de 2017

O dia vem nascendo


"[...]. No céu azul, o disco redondo e branco da lua evocava o luar do sertão. Do lado baixo do igarapé, das ventarolas dos miritizeiros, vinham vozes de aves noturnas, jacurutús e  corujas. Dos campos também subiam trinados, rufos de tambores, remadas vivas de quem aporfia. Eram os sapos. Até que a maria-já-é-dia, num primeiro grito, anunciava o sol. Uma nesga cor de opala com frisos de carmim rasgou o oriente. As saracuras, em seguida, reforçaram o alarme. Era mesmo o carro do sol que vinha estrondando no fogo de mil chamas. O quadrante se avermelhava. Aqui, ali, acolá, rebentavam brochadas escarlates, sangue puro do céu. Todos se sentaram nas redes.
-Dia vem rinchando, gente. Aquele três potes! Três potes! três potes! das saracuras não enganam ninguém. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). O mirante do baixo Amazonas. [s.d.]. p. 71-72.
 
 
Saracuras.
Álbum de Aves amazônicas -1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
 


quarta-feira, 15 de março de 2017

O encanto da paisagem


"[...]. No chão, ao nível da água, viam-se numerosos arbustos em flor, muitas vezes inteiramente recobertos de convolvuláceas, passifloráceas ou bignônias. Os troncos caídos e semi-apodrecidos eram revestidos de parasitas de singulares aspectos, algumas belamente floridas. Atrás delas, no interior da floresta, pequenas palmeiras formavam o fundo do cenário, com seus caules curiosamente conformados e envolvidos pelos mais diversos tipos de cipós.
Não faltavam os seres animados para completar o quadro. Araras de brilhantes penugens escarlates e amarelas passavam voando continuamente por sobre nossas cabeças, enquanto os barulhentos papagaios e periquitos iam de uma árvore para outra em busca de alimento. Viam-se por vezes sobre as águas, suspensos dos galhos das árvores, os ninhos dos japins amarelos [...], perto dos quais voejavam seus donos, neles entrando ou deles saindo continuamente. Realçava o efeito visual o fato de que as cenas sucediam-se umas atrás das outras, à medida que seguíamos pelos meandros do igarapé, numa contínua variedade de paisagens. Passada uma curva, deparávamos com um bando de elegantes garças brancas, pousadas num tronco caído que se projetava da margem sobre as águas. Logo que nos avistavam, as garças alçavam voo e fugiam, mas nós as víamos de novo na curva seguinte, e depois na próxima, e assim por diante durante boa parte do percurso. Vimos também muitas borboletas de cores alegres, pousadas nos arbustos em flor. E de vez em quando, num trecho lamacento da margem, avistávamos um preguiçoso jacaré que repousava ao sol". Alfredo Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas Negro. 1979, p. 70.



Garças.
Pintura de Jessie Arms Botke (1883 -1971)
 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Uma vida animal abundante


"A vida animal também é abundante. Papagaios e gaviões gritavam, bandos de periquitos chilreavam em revoada barulhenta de um grupo de árvores para outro e, quando cavalgávamos sobre a areia plana e firme e o suave relvado, muitos outros pássaros apareceram, como as pombas-trocazes cinza-pérola, pombos marrons e numerosas rolinhas castanhas e, em alguns dos belos laguinhos e em suas margens de relva, juncos e plantas aquáticas, havia uma abundância de aves aquáticas, marrecos, galinhas d´água (quase iguais à galinha da charneca do Leicestershire, (Gallinula chloropus), numerosos quenquéns cinza com listras pretas, que emitem um grito como o de um gato, e a jaçanã gritadeira comum (Parra jacana), encontrada em todos os pântanos do Brasil. Também avistei um magnífico socó-boi, de pé na água, com seu longo pescoço enfiado entre os ombros, e soltando de vez em quando sons como estampidos. [...]". James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v. 2, p. 66-67.
 
 
 
Socós (Arapapá - Taquiri - Socó-boi).
Álbum de aves amazônicas -1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)


domingo, 5 de março de 2017

Tesouros botânicos


"Uma vegetação totalmente diferente, de uma exuberância e selvagidade autenticamente tropical recebeu-nos aqui. Árvores de folhagem, de um tamanho gigantesco nunca visto erguiam-se para o infinito. Na base dos troncos retos como velas, de uma circunferência monstruosa, corria para todos os lados raízes em forma de paredes, que nós devíamos ultrapassar. Nas esguias palmeiras de paxiúba, que com numerosas raízes aéreas se agarravam no solo, trepavam os filodendros com folhas largas, e outros parasitas subindo para o alto. Em cada racha das árvores, em cada galho seco, em toda a parte onde poderiam encontrar um pouco de alimento, tinham se aninhado as mais diversas orquídeas. Quantos tesouros botânicos estavam abrigados nestes desconhecidos trópicos selváticos!" Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas: viagens ao noroeste do Brasil (1903-1905). 2005. p. 238-239.
 
 
Oncidium limminghei.
 Lindenia: iconography of orchids, v. 1, 1885


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um silêncio sinfônico na mata


"[...]. A princípio, ainda os olhos fixavam o revestimento deste tronco e de outro, e outro, e outro, mas, depois, abandonavam-se ao conjunto, porque não havia memória nem pupila que pudesse recolher tão grande variedade. Só de frutos que não se comiam e apodreciam na terra porque nunca ninguém se arriscaria a saber se eles davam apenas volúpia ou também intoxicação, havia mais espécies do que todas as que se cultivavam em pomares europeus. [...].
E por toda a  parte o silêncio. Um silêncio sinfônico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que dir-se-ia estar a selva em êxtase.
Às vezes, era certo, uma imprevista e pânica restolhada de folhas e asas levava Alberto a parar e a agarrar-se, instintivamente, ao braço do companheiro.
- É um inhambu -  explicava Firmino, sorrindo.
Mais adiante, um lagarto, correndo sobre a folhagem morta, de novo o galvanizava.
Mas o silêncio volvia. E, com ele, uma longa, uma indecifrável expectativa. Parecia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de uma presa maravilhosa e incognoscível.
Passavam, no ar, bandos palradores de papagaios e maracanãs, agora e logo o grito agudo duma ave - grito de pavão em parque abandonado - caía de árvore distante e vinha reboando até cá embaixo. Tudo isso, porém, era relâmpago em dia de sol, porque o silêncio e a expectativa voltavam com rapidez, numa imposição que devia ser eterna. [...]". Ferreira de Castro (1898-1974). A Selva. 1937, p. 93-94.
 
 
 
Jacu - Aracuã - Inhambus diversos - Sururina - Uru - Capoeira.
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os banhos cheirosos da meia-noite


"[...]. Poucas mulheres no Pará, maximé nativas, filhas da terra bendita, deixam de fazer, na data onomástica do santo, uma grinalda recendente de pataqueira, enfeitada de jasmins e rosas. E, se as coroas são infalíveis, os banhos cheirosos da meia-noite o são mais. Da barraquinha do pobre ao palacete dos ricaços, ao passar de 23 para 24 de junho, as mãos femininas ralam, misturam, combinam, mexem e filtram vegetais para o banho propício. Cada criatura possui a sua cuia de cheiro, a sua bacia, a sua banheira, uma vasilha enfim com o miraculoso líquido perfumado. A infusão admirável não somente dá sorte, alegria, prosperidade, como tira a macacoa, a caipora, o azar. Entornada sobre o corpo, equivale a uma limpeza no físico e na alma do indivíduo; dilui a graxa e a panemice; tonifica o coração e amacia o semblante". Raimundo Morais (1872-1941). Os Igaraúnas. 1985. p. 111.
 
 
 
Banho de cheiro na cuia
Fotografia de Olímpia Reis Resque


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Victoria régia: a gigante do reino da flora


"Rapidamente navegávamos as quatrocentas milhas que separam Maranhão do Pará, alcançando os limites orientais do Norte brasileiro, a costa oceânica dessa vasta bacia que contém uma área igual aos dois terços da Europa. Estamos prestes a penetrar numa das regiões mais assombrosas da natureza, onde tudo é construído na mais elevada escala. O rio mais poderoso do mundo nasce nas altíssimas montanhas da parte ocidental do continente sul-americano e percorre milhares de milhas através de florestas sem rival em beleza, grandeza e fecundidade. É nessa região que a "Vitória Régia", gigante do reino da Flora, recolhe-se ao seio das lagoas sombrias, ou repousa nas águas paradas, protegidas por alguma faixa de vegetação contra as águas velozes da corrente que incessantemente desce dos Andes. Milhões de aves e insetos, das mais brilhantes cores, curiosos répteis e quadrúpedes, habitam essa quase "Terra incógnita". Talvez não haja no planeta outra região que possuindo tantas maravilhas, seja tão acessível e tão pouco explorada". Daniel P. Kidder (1815-1891) & J. C. Fletcher (1823-1901). O Brasil e os brasileiros: esboço histórico e descritivo. 1941. v. 2, p. 283.
 
 
Victoria régia.
Lithograph by Ernst Heyn, 1892.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Diversidade de aves

 
"Horas a fio, nossa canoa deslizou lentamente sob as árvores dessa floresta, em que a vida animal rivalizava com a vegetal em variedade e riqueza. O número e a diversidade das aves me enchiam de espanto. O conjunto das ervas espessas e dos juncos, nas duas margens, se mostrava coalhado de aves aquáticas. Uma das mais comuns era uma pernalta pequena de cor acastanhada - o jaçanã (Parra) - cujos longos dedos, em desproporção com o volume do corpo, permitem correr sobre a superfície da vegetação ribeirinha como sobre um terreno sólido. Estamos em janeiro, é para ela a época dos amores; a cada bater de remo n´água, fazemos voar os casais amedrontados, cujos ninhos chatos, inteiramente abertos, contém em geral cinco ovos cor de carne com ziguezagues castanho-escuro. Os outros pernaltas eram uma garça cor de neve, outro pardo-acizentada, algumas espécies menores, e uma grande cegonha branca. As garças cinzentas andavam sempre aos pares; as brancas andavam sozinhas, solitárias à beira d´água ou meio escondidas no capim.[...]. Entre as pequenas espécies, observei ainda tanagras de brilhantes cores e uma espécie que se assemelha aos canários; havia também lavandeiras, pardais de penas brancas e pretas e de cauda caída, japis como são aqui chamados, cujos ninhos pendem em forma de sacos, e o bem-te-vi tão comum. Os colibris, cuja ideia se associa, em nosso espírito da vegetação tropical, eram muito raros só vi alguns pouco deles. Os tordos e as rolas eram mais numerosos. Notei também a presença de quatro espécies de pica-paus, depois muitos papagaios; estes últimos levantando voo em quantidade incontável diante de nossa canoa, voavam em bandos cerrados por cima de nossas cabeças e cobriam todos os demais ruídos com o barulho do seu grasnar". Luiz Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary  Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil - 1865-1866. 2000. p. 348-349.
 
 
 
  Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900-1906.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)



 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Bromeliaceas que lembram ananases


"Algumas árvores parecem ser formadas de numerosos caules delgados justapostos. São todas sulcadas e fendidas no sentido do seu comprimento, sendo algumas estrias tão profundas que quase as atravessam inteiramente, lembrando compridas seteiras numa estreita torre. Apesar disso, essas árvores crescem tanto quanto outras de tronco retilíneo e diâmetro uniforme.
Outra curiosíssima forma é a que apresentam certas árvores cujas raízes crescem no meio dos caules e estendem seus pedúnculos até o solo. Seus troncos parecem estar apoiados sobre numerosas pernas que soem formar arcadas amplas o bastante para que se possa passar andando por debaixo delas.
Os caules de todas essas árvores, e também as trepadeiras que deles pendem ou neles se enroscam, sustentam uma infinidade de dependentes. Em toda a extensão dos caules surgem Tilandsia e outras Bromeliaceae que lembram ananases, grandes tinhorões de cor verde escura, com suas amplas folhas sagitadas, enormes variedades de pimentas, fetos latifólios, etc. Pode-se vê-los até nos galhos do topo dessas árvores. No espaço entre os troncos, vicejam fetos rastejantes e algumas espécies miúdas e delicadas, semelhantes ao nosso Hymenophyllum. Nos lugares mais escuros e úmidos, também essas plantas rasteiras são revestidas de diminutos musgos e hepaticae, de maneira que aí temos parasitas que sustentam parasitas e, sobre estas, mais parasitas!
Olhando-se para o alto, enxerga-se a escura ramaria multifoliada contrastando com o claro azul do céu, marcante característica das florestas tropicais, tantas vezes ressaltada por Humboldt. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 30.
 
 
 
Bromelia Pseudo-Ananas. Banisteria fulgens. Detalhe.
Sydney Parkinson. Ilustrações botânicas de espécies brasileiras na expedição de James Cook - 1768- 2012.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A palmeira Jupati e suas folhas em forma de plumas


"Conservamo-nos hoje tão perto das margens, que quase pudemos contar as folhas das árvores, e tivemos excelente oportunidade para estudar as várias espécies de palmeiras. A princípio a mais frequente era a Açaí, porém agora se confunde no número das outras. A Miriti (Mauritia) é uma das mais belas, com seus cachos pendentes de frutos avermelhados e suas enormes folhas abertas, em forma de leque, cortadas em fitas, cada uma das quais, na opinião de Wallace, constituindo a carga de um homem. A Jupati (Rhaphia), com suas folhas em forma de plumas, às vezes de 40 a 50 pés de comprimento, parece, por causa do seu caule curto, brotar quase do solo. O seu porte, semelhando uma jarra, é particularmente gracioso e simétrico. A Buçu (Manicaria), com folhas rígidas e inteiriças, de 30 pés de comprimento, mais eretas e fechadas no seu modo de crescimento, e serrilhadas nos bordos. O  caule dessa palmeira é relativamente curto. As margens desse trecho do rio são geralmente ornadas por duas espécies vegetais, formando algumas vezes uma que muralha ao longo da praia; por exemplo, a Aninga (Arum), com suas folhas largas, cordiformes, em cima de grandes caules, e a Murici mais baixa, justamente à beira d´água". Luiz Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil -1865-1866. 2000, p. 167.
 
 
 
Jupati (Raphia taedigera (Mart.) ).
L´Illustration horticole, v 13, t. 499, 1866. Desenho de P. Stroobant.
www.plantilustrations.com


sábado, 28 de janeiro de 2017

Um casal de mutuns na floresta


"Passeava um dia de madrugada pelo mato.
Galhos de árvores cheirosos, salpicavam-me de gotas frias de orvalho; o sol, coando suavemente o seu brilho, por entre a neblina, transformava as clareiras da floresta em pequenas alcovas doiradas. Parei, para olhar em volta. Dentro em pouco ouvi um frú-frú de folhas úmidas e por entre a névoa que se levantava, vi um casal de mutuns. O mutum é uma ave de grande porte, regulando um peru comum em proporção; de uma cor de um negro-azeviche, é sua plumagem dotada de um brilho furta-cor quando exposta ao sol; bico um tanto recurvado, de cor vermelha e um penachozinho à cabeça e um tanto pernalta.
Não estavam procurando comida, mas apenas exprimindo sua satisfação. Abriam a cauda em leque e enchiam as penas de ar, levantavam as asas de vez em quando, como para voar; passeavam assim com pose, de um lado para outro, ou então exibiam-se em graciosas piruetas. Ao fim de algum tempo o mutum voou para um tronco coberto de musgo e inflando as penas  do pescoço, começou a arrulhar docemente; não era o grasnar de desafio mas, um monólogo de contentamento, como a querer saudar o novo dia". Mário Paiva. A vida dos animais da Amazônia: suas lendas e superstições. 1945, p. 19.
 
 
Mutum - Urumutum -
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Um lago no meio da floresta

"[...]. Nunca encontrei lugar em que os animais mostrassem uma tão completa ausência de medo do homem, num verdadeiro estado paradisíaco, como aqui, à beira deste desconhecido lago no meio da floresta, que é provavelmente o mais meridional de uma série de lagos semelhantes, distribuídos na região inexplorada, entre as bocas dos rios Cunani e Cassiporé. As araras azuis pousavam a cada instante, em bandos de quatro a seis, nas majestosas palmeiras-miriti da margem oposta. Vimo-las chocando em buracos destes troncos altos, onde a ave desde longe é traída por sua enorme cauda, para a qual o buraco não oferece naturalmente espaço bastante. Um grande número de papagaios e periquitos estavam também chocando em lugares semelhantes: aqueles, como as araras, nos buracos dos troncos das palmeiras; estes principalmente nas covas dos ninhos das formigas brancas.
Cegonhas, garças, arirambas e mergulhões, animavam a vegetação de um modo surpreendente e maravilhoso. Além destas aves aquáticas havia um número incrível de ciganas, pombos e aves mais pequenas de diversas espécies, enquanto que os guaribas e os macaquinhos-de-cheiro olhavam espantados para as nossas canoas. Emílio A. Goeldi (1859-1917). Resultados ornithologicos de uma viagem de naturalistas à costa da Guyana meridional. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethongraphia, Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 223, 1902.
 
 
Papagaios e periquitos
Album de Aves Amazônicas 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Grandes árvores inclinadas sobre as águas


"A medida que avançávamos pela correnteza turva e borbulhante, perlongando a mata verde e encharcada pelas chuvas, íamos deparando grandes árvores inclinadas sobre as águas, em ambas as margens. Nos pontos em que o rio se estreitava e as árvores pendentes eram muito longas ou coincidia ficarem as de uma margem na direção das da outra, tínhamos pela frente uma barreira que somente o machado removia.
Havia muitas palmáceas, sobretudo buritizeiros de frondes rijas em forma de leque e uma bela espécie de bacaba com longas e graciosas copas recurvadas. Em certos sítios essas palmeiras se erguiam umas bem junto das outras, afuniladas e esguias como majestosa colunata encimada pelas frondes em alto relevo sobre o fundo do céu.
Borboletas de cores variegadas voejavam sobre o rio. A chuva caía em bátegas, do céu nublado. Quando o sol surgiu, por entre as nuvens, a floresta se iluminou com o clarão de seus raios de ouro". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selva do Brasil. 1976, p. 163.
 
 
 Tronco caído na mata.
Viagem ao Brasil do Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied.
Biblioteca Brasiliana da Robert Bosch GmbH. 2001. Petrópolis - RJ.