quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amazônia que eu vi: uma orquestra de mil vozes de aves


"[...]. Esforçamo-nos de romper uma passagem por entre as hastes de arumá (Marantha) e juncos mais altos que um homem.
Ainda não vemos nada, mas já uma orquestra de mil vozes de aves que vamos ouvindo cada vez mais distintamente à medida que avançamos é prenúncio de que não voltaremos sem resultado da nossa excursão. Pouco a pouco o entrelaçado da vegetação de brejo vai ficando menos denso e assim veio o momento onde as consequências de cada passo precisam ser cuidadosamente calculadas e premeditadas.
Por entre as últimas hastes podemos descortinar um aspecto desembaraçado sobre uma laguna de savana de alguns centos de metros em comprimento por outros tantos em largura.
A cena da vida animal que ora se apresenta aos nossos olhares é tão grandiosa e imponente que todos permanecemos estupefatos, retendo a respiração, cada um perguntando a si mesmo se o que vê é real ou não será uma "fata morgana" e deslumbramento de algum sonho; [...].
O que ali está em aves do brejo e aquáticas, palmípedes e pernaltas, acumuladas em um espaço relativamente pequeno; tudo o que está ali se enlameando, chapinhando, esgaravatando, bicando, mergulhando, nadando, voando, piando, grasnando, gritando, tudo ao mesmo tempo, num fervet opus incrível, desafia qualquer descrição; diante de tais quantidades é impossível contar e dificílimo mesmo avaliar e todos os recursos da linguagem não são bastante expressivos e brilhantes para dar uma ideia do barulho, da confusão que ali reina.
Algum êxito teria talvez, no que toca à vista, o pincel de um privilegiado pintor de animais, para o qual cada pequeno trecho da paisagem diante de nós formaria um grato assunto para uma tela de real valor". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi). Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 389-390, 1902.


Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O aroma do sassafrás


"Há muito poucas flores na vegetação rasteira da floresta; elas só florescem bem no alto ou às margens da floresta, onde o sol pode alcança-las, mas há numerosas  coisas de interesse, cores variadas e folhas curiosas, trepadeiras e parasitas de estranhas formas, orquídeas, imensas árvores arqueadas, odores aromáticos ou acres, o mais comum dos quais sendo um cheiro apimentado forte que parece ser comum a muitas plantas, como a canela-cheirosa, o sassafrás e a embira-vermelha. [...]". James W. Wells (1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. Belo Horizonte, 1995. p. 135.

Sassafras albidum.
Trew, C. J. ; Ehret, G. D. Plantae selectae. v. 7: t. 70, 1765.
Desenho de G. D. Ehret


sábado, 14 de outubro de 2017

No coração da selva


"O "varador" era estreita senda que não daria passagem a um carro de bois e cortavam-no, aqui e ali, grossos troncos que haviam caído e apodreciam sem que ninguém os removesse. Dum lado e outro, a selva. Até esse instante Alberto vira apenas as linhas marginais; surgia, agora, o coração.
Era um aglomerado exuberante, arbitrário, louco, de troncos e hastes, ramaria pegada, multiforme, por onde serpeava, em curvas imprevistas, em balanços largos, em anéis repetidos, todo um mundo de lianas e parasitas verdes, que fazia de alguns trechos uma rede intransponível. Não havia caule que subisse limpo de tentáculos a expor a crista ao sol; a luz descia muito dificilmente e vinha, esfarrapando-se entre folhas, galhos e palmas, morrer na densa multidão de arbustos, cujo verde intenso e fresio nunca esmorecera com os ardores do estio. Primeiro, a folhagem seca, que cobria o chão, apodrecendo em irmandade com troncos mortos e esfarelados, dos quais já brotavam, vitoriosas para a vida, folhitas petulantes como orelhas de coelho. Alastravam, depois, as largas palmas de tajás e de outra plantaria, de tudo quanto vinha nascendo e atapetava a terra onde as árvores sepultavam as raízes. Crescia a mata até a altura de dois homens, posto um em cima do outro, e só então os olhos podiam encontrar algum espaço em branco, riscado, ainda assim, pelos coleios dos cipós que iam de tronco a tronco, fornecendo ponte a capijubas e demais macacaria pequena, que não quisesse saltar. De lá para riba abriam-se as umbelas seculares e constituíam batalhão interminável os seus portentosos cabos. E era aí que a luz dava um ar da sua graça, branqueando e tornando luzidio o pescoço de algumas árvores mais altas e restituindo, pela transparência, às asas de milhares de borboletas, as suas verdadeiras cores de arco-iris fantástico". Ferreira de Castro (1898-1974). A Selva. 2. ed. 1937. p. 92-93.


Caladium bicolor.
Hoola van Nooten, B. Fleurs, fruits e fenillages choisis de l´ille de Java- peints d´aprés nature. t. 9, 1880. www.plantillustration.org

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Uma linda flor, uma Amaryllis


"[...]. Estando próxima a volta do verão, muitas belas árvores e arbustos estavam em flor, tais como a Visnea, de folhas sedosas e brilhantes, ruivo-pardacentas na face interior; as Rhexia, de grades flores violetas; a espécie de Melastoma com folhas de um lindo branco-prateado na face inferior; as Bignonia, com os esplêndidos ramos floridos trepando e entrelaçando-se nos arbustos acima dos quais se erguia o jenipapeiro (Genipa americana) de grandes flores brancas. O tom verde-escuro natural das flores do Brasil estava então atenuado pelos tenros renovos verde-amarelados ou vermelhos; e sob todas as moitas havia uma sombra mais densa, muito amena nos grandes estios, que os mosquitos, porém, tornavam bem menos aprazível ao viajante. Uma bela flor, uma Amaryllis branca de estames purpúreos, debruava as margens do rio. [...]". Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817. 1958. p. 274.


Amaryllis vittata major.
Collectanea botanica by John Lindley. 1821.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A Amazônia que eu vi: Monte Alegre e Ereré


"Acompanhando todo o lado do norte do sopé da serra do Ereré, corre uma zona de terrenos baixos, pantanosos, atoladiços e cheios de nascentes de água, que pelo menos do lado de leste, escoam-se por um córrego, que vai ter ao igarapé do Ereré. Nessa zona cresce uma linda floresta e conheço poucos lugares mais pitorescos do que as fontes do Ereré ou os palmeirais de Urucuri, que tem aspecto de templo e ficam a oeste da vila. Faz-me virem à lembrança, como se fosse ainda ontem, os deliciosos banhos frios nessas fontes depois de muito andar e com extremo calor, por sobre os campos, ou depois de ter levado o dia todo a lutar com o entrançado Curuá dentro da bacia de areia por baixo de uma grande palmeira, com seu bojudo e espinhoso tronco, e com a esplêndida copa, cuja folhas, em forma de estrelas, se destacam pretas de encontro ao céu no por do sol; as palmeiras sentinelas com os troncos cobertos de uma multidão de fetos e as grandes folhas ligeiramente balançando-se ao sopro da deliciosa brisa; os lindos phoenacospermuns  e as luxuriantes heliconias com suas flores cor de laranja; a palmeira estrangulada no briareico abraço do Apuí que ergue a verde folhagem de seu tope por cima da emurchescida e mirrada coroa; a jarra quebrada e as cabaças por baixo da ribanceira coberta de fetos e de lycopodiuns e nas sombras da noite, que se vai fechando, vagueio pelo caminho abaixo, através da mata passando pelos cercadinhos em que as raízes de mandioca estão n´água amolecendo, e por entre as palmeiras, em que ouve-se o agudíssimo canto das cigarras, chego até a fonte de baixo, na qual um rancho de risonhas e jovens índias, com as compridas e pretas tranças ainda molhadas do banho, estão enchendo as jarras, enquanto as crianças nuas estão na água folgando, e então com o sentimento de repouso e satisfação depois de um dia de calor, vou caminhando para casa, ao repicar do sino da capela tocando a Ave Maria, e com o vivo clarão do por do sol iluminando o cume da serra, os despenhadeiros e os largos campos". Charles Frederick Hartt (1840-1878). Trabalhos restantes ineditos da Commisão Geologica do Brasil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physica do Baixo-Amazonas: Monte Alegre e Ereré. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t.2, fasc. 1-4, p. 328-329, 1898.


Heliconia rostrata.
Aquarela de Maria Werneck de Castro (1905-2000).
 Natureza viva -  memórias, carreira e obra de uma pioneira do desenho científico no Brasil. 2004.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

As garças do Marajó


"Já de longe avistamos multidões de garças de toda a espécie nas extremidades dos galhos por cima das largas copas das árvores, e quanto mais perto chegamos, maior número vemos de ninhos chatos, grandes como rodas de carros, e que aparecem como manchas escuras por entre a ramagem rala do mato.
Em cada árvore contamos dúzias deles.
O barulho torna-se cada vez mais ensurdecedor: ao penetrar na floresta julga a gente ter caído em um bródio de bruxaria.
Garças brancas, grandes e pequenas, garças morenas, arapapás, maguaris, colhereiros, cauauans, guarás, mergulhões grandes, carará, tudo ali vive em confusão, na mais variada promiscuidade, ao lado e por cima uns dos outros, na mesma árvore, na qual muitas vezes em uma só há diversas colonias de ninhos de meia dúzia de espécies. [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi), Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 390-391, 1902. 


Garças
Pintura de Jessie Arms Botke (1883-1971).
www.pinterest.com

domingo, 24 de setembro de 2017

As majestosas palmeiras miritis


"Ao longo dos furos de Breves existem aqui e acolá porções de terrenos semelhantes aos de Breves, mas, em geral as margens do rio são inundadas em cada maré cheia, e as casas espalhadas são construídas em cima de postes, que as elevam acima d´água. Os canais são estreitos, excessivamente profundos e cheios de água lodosa. Em verdade, tanto faz na maré cheia como na vazante, estão sempre entumescidos como se estivessem com uma enchente - E como é rica a vegetação que os cerca! - Encontram-se aqui trechos de mangues com sua linda e verde folhagem, com suas raízes principais arqueadas, com as pendentes radículas aéreas terminadas em tripeça e com suas sementes em forma de charutos; acolá o canal é bordado de ambos os lados por paredes de verdura, as pontas dos ramos roçam na superfície d´água na maré cheia e param as lindas balsas de ervas e do mururé de folha larga com suas flores azuis, e mais adiante por muitos quilômetros temos em frente as majestosas Miritis, com suas soberbas palmas em forma de leque, com suas folhas mortas, amarelas e pendentes, e sustentando seus pesados cachos de frutos escamosos. [...]". Orville Derby (1851-1915). Trabalhos restantes ineditos da Commissão Geologica do Brazil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physisca do Baixo-Amazonas: A Ilha de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 2, fasc. 1-4, p. 174-175, 1898.



Palmeiras Miriti ou Buriti
Desenho de Taunay.
Expedição Langsdorff ao Brasil (1821-1829)

domingo, 17 de setembro de 2017

A bonita palmeira Jará


"[...]. Aqui vemos, também pela primeira vez, a bonita palmeira Jará, espécie de tamanho moderado, com estípite delgado e gracioso, folhas pendentes. Explorando mais adiante, encontramos um pequeno lago, de no máximo meia milha de diâmetro, todo circundado de declives fortes, exceto onde este barranco o separa do rio. Um córrego diminuto serpeia por sobre a areia e a argila, com cascatas aqui e ali, talvez a queda total possa ter vinte pés. Os camaradas chamam-no de lago de Água Preta; a água é verde escura, muito límpida e profunda, e reflete as colinas revestidas de mata que a circundam e as palmeiras caraná e javari; é tão diferente dos lagos rasos da várzea, como o Tapajós o é do Amazonas. O Lago de Tapary é, como este, um verdadeiro lago de terra firme. Ricardo afirma que em ambos encontram-se pirarucu, mas que a água é demasiada profunda para boa pescaria. [...]. Herbert Smith (1851-1919). Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 184.



Astrocaryum jauari e Leopoldinia pulchra. Palmeiras Jauari e Jará.
Martius, C. F. P. von. Historia Naturalis Palmarum, v. 2, t. 52, 1839.
www.plantillustration.org

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A rica vegetação da floresta amazônica


"O maior rio do mundo corre através da sua maior floresta. Imagina, se podes, dois milhões de milhas quadradas de floresta ininterrupta, exceto pelas correntes que a percorrem, pois os campos que aparecem esparsos, aqui e acolá, são tão insignificantes que eu acredito que faria maior vazio o corte de um único carvalho na maior floresta da Inglaterra do que qualquer destes campos na imensa selva amazônica. Ficas, portanto, preparado para saber que quase todas as ordens de plantas contam árvores aqui entre os seus representantes. Há gramíneas (os bambus) de 40, 60 pés e mais de altura, às vezes eretas, outras formando um intrincado de ramos espinhosos, nos quais nem o elefante poderia penetrar. Verbenas formando árvores copadas, de folhas digitadas como as dos castanheiros da Índia. Polígales que são robustas trepadeiras lenhosas, subindo até a copa das árvores mais altas, enfeitando-as com os festões de perfumadas flores que não são delas. No lugar das tuas pervincas encontramos aqui belas árvores exudando leite, às vezes salutífero, outras violentíssimo veneno e dando frutos com as mesmas propriedades. Há violetas do tamanho de maceiras; malmequeres, ou que podiam parecer malmequeres, desabrochando em árvores do porte do almieiro. As mirtáceas são excessivamente numerosas e notáveis por suas flores efêmeras e simultâneas: hoje todas as de determinada espécie estão cobertas de nevadas flores perfumosas, amanhã já não se vê nem mais uma flor. Outro grupo, sem nada que possa ser comparado na flora européia, é o das melastomáceas, tão abundantes como as murtas e muito mais rico em espécies. Estas duas famílias, e mais as solanáceas e lauráceas, formam a massa da vegetação que se vê na vizinhança das cidades. Mas de todas a mais abundante é a das leguminosas, entre as quais estão as árvores mais nobres da floresta virgem, alguns dos frutos mais deliciosos, alguns dos piores venenos". Richard Spruce (1817-1893).

In: MELLO-LEITÃO, Cândido de. A vida na selva. 1940. p. 6-7.


Parkia discolor (Leguminosae).
Viagem Philosophica. Alexandre Rodrigues Ferreira. Florestas do Rio Negro. 2001.




sábado, 9 de setembro de 2017

Richard Spruce no meio da floresta


"Podiam-se consumir horas na derrubada de uma única árvore. O gigante que caía arrastava então outras na sua queda, vindo no seu séquito uma como desgrenhada cabeça de epífitas e parasitas. Orquídeas havia em barda; havia também colossais ciclantos com suas folhas bífidas e flabeliformes, imensamente largas. Os cipós que se estendiam de uma árvore a outra, vinham abaixo com as massas que caíam carreando na queda os parasitos como se fossem cordas de sino. Spruce recolhia as várias espécies que engrinaldavam uma única árvore. Havia a salsaparrilha, uma liana importante no comércio do seu tempo; havia a yuruparipina, anzóis do diabo, com largos espinhos agudos que podiam ferir seriamente uma pessoa. Ninhos de térmites, os quais tinham uma cor marrom, térrea, tombavam com as árvores. Choviam-lhe formigas sobre a cabeça. O baque de uma árvore desencadeava um verdadeiro pandemônio na floresta. Os macacos primeiro soltavam guinchos e corriam, depois voltavam para esganiçar. Papagaios verdes e vermelhos soltavam gritos estridentes; tucanos de bico de cores variegadas desciam voando para  investigar a causa de toda aquela algazarra.
De resto a mata jamais ficava perfeitamente silenciosa. As cigarras ziziavam continuadamente enchendo toda a selva com o seu ruído. Logo se lhes vinham juntar as rãs com o seu coaxo tão persistente que Spruce tinha impressão de estar no interior de uma forja. O ar parecia vibrar com o rítmico clangor. O botânico não se queria apartar tão depressa daquela floresta encantada, mas o capitão estava impaciente. Foi com relutância que voltou para o navio. O Três de Junho ia continuar a sulcar as águas do Amazonas". Victor W. von Hagen. A América do Sul os chamava. [19--?.]. 266-267.


Tronco com flores e parasitas.
Ilustração de Margaret Mee.




domingo, 3 de setembro de 2017

A espinhosa "jacitara"


"Em alguns lugares, pequenos igarapés, ou riachos florestais, são quase inteiramente tomados por várias gramíneas trepadeiras e plantas rasteiras, entre as quais a "jacitara" ocupa um lugar proeminente e é a montante destes riachos que os índios frequentemente se deleitam em fixar residência. Em tais casos, eles nunca cortam inteiramente um ramo, mas passam e repassam diariamente em pequenas canoas que se insinuam como serpentes entre a emaranhada massa de vegetação espinhosa. Estão, portanto, quase seguros contra as incursões dos negociantes brancos, que frequentemente os atacam em seus refúgios mais distantes, levam fogo e espada para dentro de suas pacíficas casas e tornam cativos as esposas e filhos. Mas poucos homens brancos conseguem penetrar por muitos quilômetros ao longo de um pequeno e tortuoso riacho como o aqui descrito, onde não é encontrado nenhum galho quebrado ou ramo cortado que revele que algum ser humano já tenha alguma vez passado. Portanto, a espinhosa "jacitara" de fato ajuda a defender a independência do índio selvagem nas profundezas das florestas que ele adora". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Palmeiras da Amazônia e seus usos. 2014 p. 101.


Desmoncus sp.
 Carl Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum 1823-1850

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Vegetação do igapó


"[...]. Deixando de lado, porém, as regiões limitadas de campos, reinam em toda parte as associações florísticas típicas do igapó, da várzea e da terra fire. O caçador usa a canoa para ir à sua caça no mato. Através de tapetes flutuantes de lentilhas d´água os índios empurram a sua canoa; talvez eles atravessem uma lagoa na qual as folhas gigantescas da Vitória régia cobrem a superfície quase por completo. Depois procura-se um lugar raso na beira para encostar. Atravessando camadas de lama entre aróideas (hoje aráceas) e espécies de Amaryllis chegamos à vegetação do igapó. Diversas plantas de Ciperáceas e de espécies de cana circundam-nos. Árvores delgadas de Cecropia erguem-se ao céu por cima de folhagem rala, e, logo quando avançamos vagarosamente por um solo mais sólido de várzea, cingem-nos moitas densas de arbustos muitas vezes espinhentos. Palmeiras movimentam as suas palmas ao vento, e, aqui e acolá, transpomos troncos de árvores caídos e em decomposição. Ali aparece uma árvore grande e de alto porte, ancorada com sapopemas, e nos cipós, dela pendentes, iguais a cabos grossos, trepam enormes Philodendrons, enquanto que nos seus galhos crescem frondosamente orquídeas e bromeliáceas. [...]". Hans Bluntschli (1877-1962). A Amazônia como organismo harmônico. 1964. p. 23.



Cattleya superba splendens.
Nativa do Brasil. Região do Rio Negro.
 The Orchid album comprising coloured figures and descriptions of new, rare and beautiful orchidaceous plants. v. 1, 1882.
www.biodiversitylibrary.org

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Um tucano domesticado


"Certo dia, caminhando pela estrada principal das matas de Ega, vi um destes tucanos pousado gravemente em ramo baixo e não tive dificuldade em agarrá-lo com a mão. Parecia ser ave domesticada, fugida, mas ninguém veio reclamá-lo, embora eu o tivesse guardado em casa vários meses. A ave estava faminta e doentia mas depois de alguns dias de boa vida, recobrou a saúde e vivacidade e tornou-se o mais divertido dos companheiros. Publicaram-se muitas excelentes narrativas sobre os costumes dos tucanos mansos e, portanto, eu não os descreverei com minúcias, mas não me lembro de ter visto qualquer notícia sobre a sua inteligência e confiante disposição, quando domesticados, qualidades que no meu pareciam quase iguais às dos papagaios. Eu deixava o Tucano andar livremente pela casa, ao contrário do que costumava fazer com os outros animais amansados. Nunca mais subiu em cima de minha mesa de trabalho, depois de correção severa que recebeu, da primeira vez que o fez. Costumava dormir na tampa de uma caixa, num canto da sala, na posição habitual dessas aves - com a longa cauda deitada sobre o dorso e o bico escondido sob as asas. Comia de tudo o que comíamos: carne, tartaruga, peixe, farinha, frutas e era comensal constante em nossa mesa - uma toalha estendida sobre a esteira. O apetite era dos mais vorazes e o poder de digestão admirável. Aprendeu a conhecer com precisão as horas das refeições e depois das duas primeiras semanas era muito difícil conservá-lo  longe da sala de jantar, onde se tornava muito imprudente. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944. v. 2, p. 326-327.



Tucano
Arte de Robert Bateman

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O passarinho que emudeceu o Uirapuru


"[...]. O uirapuru que cantava possuía na voz qualquer coisa de flauta e violino. Embaixo, no amplo descampo, acumulavam-se centenas de milhares de animais, inclusive alguns anfíbios, e mesmo ictiológicos, vistos no verão duro a se mudarem deste para aquele ponto. Havia a trocal e havia a queixada. Papagaios, periquitos, graúnas, tucanos a se misturarem no arvoredo aos lagartos, aos tatus, aos japiins, às tucandeiras. Largas placas de saúvas e formigas de fogo envolviam pacificamente os mais gulosos inimigos: os tamanduás, sem que estes manifestassem, como de costume, a mais leve hostilidade. [...].
A atmosfera vibrava à irradiação cadenciosa da música ondulante e entorpecente. Alguma coisa de misterioso tal a originalidade, fremia naquelas árias, obra, quem sabe, de um deus autóctone. [...].
Nesse ínterim, ouviu-se uma linda ária para as bandas vizinhas da capoeira, à esquerda do lugar onde estavam os bichos. O canto era tão comunicativo, ao mesmo tempo que belo, a ponto do uirapuru se calar, talvez enciumado, senão vencido. Todos os animais prestavam viva atenção à musica daquela garganta de ouro, singularmente inebriante. Afigurava-se a voz de um apaixonado, reivindicando na ternura eloquente do canto, a volta da sua eleita; seria talvez um apelo à companheira entrevista no sonho duma noite de São João.
- É o caraxué, murmurou o João Cabeludo, quase em surdina, às duas senhoras.
O passarinho que havia feito emudecer o uirapuru abria agora no ar uma aleluia de mágoas e ternuras, esperanças e dores.
O coração dos bichos, sobretudo o feminino, parecia querer parar, tal a melodia embriagante do carachué. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Os Igaraúnas. 1985. p.133-134.


Carachué(Sabiá) - Cutipuruí - Vô-Vô - Peruinha-do-campo.
Ilustração de Ernst Lhose.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Guará com sua rica plumagem flamejante


"Nas praias mais desertas, quando uma camada de lama substitui a areia ou se cobre de vegetação característica dos terrenos banhados pelas grandes marés salgadas, fervilham os caranguejos, os siris, saratus, os maraquanis, guarás, os sararás.
Dá-se então a cena interessante de afluência de várias aves, apenas se retira a maré. Entre elas distingue-se francamente o guará. Sua rica plumagem flamejante faz dele um magnífico ornato dessas praias. Quando novo é ele negro, mas correm os anos e o carvão se faz brasa viva. Quando a aurora rubra sucede às trevas da noite, recorda a transição das cores do guará.
É de particular amigo dos maraquanis; não faz, portanto, concorrência ao homem que não é apreciador desses modestos habitantes das praias, se bem que o não despreze.
Não são deselegantes as linhas do guará. Lembra a garça esbelta. Contudo, o que nele é mais atraente, sem dúvida, é o vivo colorido da indumentária natural. Afirmam-nos que o guará é perfeitamente domesticável, mas que, longe de suas praias povoadas de maraquanis, desbota-se o encarnado da plumagem e fica ele cor-de-rosa. Efeito de nostalgia? [...]". Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974). No estuário amazônico: à margem da visita pastoral. 1976. p. 191.


Ninhal de guarás.
Ilustração de Ernst Lohse.
Álbum de aves amazônicas de Emílio A. Goeldi, 1900-1906.

sábado, 12 de agosto de 2017

Agradável impressão do Araguaia




"[...]. Não posso esquecer-me da agradável impressão que me deixou esta primeira noite do Araguaia. O céu tinha estado nublado até essas horas; de quando em quando, o vento mugia nas praias e as nuvens largavam gotas raras, mas grossas, de uma chuva gelada; na hora, porém, em que eu me deitava, as nuvens rarefizeram-se e foram pouco a pouco se dissipando, até que o céu se tornou límpido e puro como um espelho infinito de safiras; então, no oriente, que se avistava muito ao longe, porque naquelas planícies não há morros, nem outeiros, nem serras, a lua desenhou-se calma e revestida desse encanto melancólico que tem sempre esse astro da noite em nossas solidões, despertando no coração vagas saudades e incertas esperanças de um futuro ideal, que nunca realizaremos na terra, e que é, talvez, uma aspiração de nossa alma para a imortalidade.
Fora-me impossível descrever o que então senti à vista daquelas paisagens tão grandes, contempladas de uma das mais belas praias do rio, ao clarão dessa noite, nas horas silenciosas e quietas que estávamos: era uma espécie de êxtase o estado de minha alma, e eu, contemplo todas essas grandezas, entre a penumbra do sono e da vigília, enxergava não só o que estava presente, como ainda tudo o que eu tinha sentido nesse dia, completamente cheio de impressões profundas e inteiramente novas para mim". José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898). Viagem ao Araguaia. 7. ed. 1975. p. 106.


C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum - 1823-1850)






segunda-feira, 7 de agosto de 2017

As graciosas plantas à margem da lagoa


"Entre as graciosas plantas da margem da lagoa merece também atenção especial a Mari-Mari, qualidade de Cássia, cujas belas e longas vagens são apreciadas pelos índios como um grande petisco.
Nas calmas enseadas, enfim, sobrenadam, grandes como outras tantas barquinhas e da forma de bandejas, as folhas da soberba Victoria regia, a rainha sem rival de toda a flora aquática. Petulantes golfinhos brincam em cardumes no meio do lago. [...].
Lá onde não chegam as inundações periódicas, na chamada terra firme, a vegetação já assume caráter diferente. O castanheiro (Bertholletia excelsa), nosso augusto conhecido das margens do Tocantins, aparece aqui outra vez em grandes bosques, ornado dos seus grandes e pesados cocos.
Aqui também é que se encontra a verdadeira riqueza de madeiras de construção, cuja enumeração encheria um volume. [...]". Paulo Ehrenreich (1855-1914). Viagem nos rios Amazonas e Purus. Revista do Museu Paulista, São Paulo, t. 16, p. 305, 1929.



Cassia occidentalis.
M. E. Descourtilz. Flore médicale des Antilles, v. 2, t. 135, 1822.
 Desenho de J. T. Descourtilz.
www.plantillustrations.org

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Encantadores passeios pela floresta


"Um dos grandes prazeres da estadia em Tefé, é que temos ao nosso inteiro alcance encantadores passeios. A minha maior diversão e passear de manhã muito cedo, pela floresta que domina o povoado. É alguma coisa de admirável contemplar, dessa elevação, o sol nascer por cima das pequeninas casas que estão a nossos pés, o lago pitorescamente recortado de pequenos canais que se prolongam ao longe, e, nos últimos planos, o fundo das grandes florestas da margem oposta. Do nosso posto de observação sai um estreito caminho que se estende por entre as moitas e conduz a uma magnífica mata, espessa e sombria. Aí pode a gente vagar ao léu do seu capricho, porque há como que um dédalo de pequenas trilhas abertas pelos índios através das árvores. E como não se deixar tentar pelo sombrio frescor, pelo cheiro dos musgos e das filicíneas, pelo perfume das flores? A mata é cheia de vida e de ruídos; o zumbido dos insetos, os sons estrídulos dos gafanhotos, o grito dos papagaios, as vozes inquietas dos macacos, tudo isso faz a floresta falar. [...]. Um dos caminhos mais bonitos, que se me tornou familiar em meus passeios quotidianos, vai ter, do outro lado de um igarapé, a uma casa ou antes a um telheiro coberto de folhas de palmeiras, situado em plena floresta e onde se prepara a mandioca". Luís Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil -  1865-1866. 2000. p. 221-222.


Floresta.
C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum 1823-1850

sábado, 29 de julho de 2017

Uma maravilhosa bromélia


"Procuramos em vão pelo rio Cauhy. Encontramos a estreita foz do rio Nhamundá cercada por um atraente igarapé, uma complexa quantidade de ilhas com árvores atrofiadas obscurecidas pela quantidade de epífitas em seus galhos. A cor dominante era o vermelho, bromélias com folhas escarlates e inflorescências (Achmea huebneri) cresciam junto às concentrações verde-escuras de orquídeas (Schomburgkia) e antúrios com grandes folhas. A paisagem da floresta tornou-se escura gradativamente, com muitas palmeiras Jauari e árvores com troncos enfileirados como colunas góticas; sobre o rio espalhava-se Macrolobium com suas folhas semelhantes às da samambaia. Continuamos navegando pelo rio até ancorarmos próximo ao tronco de uma árvore caída na qual cresciam orquídeas, incluindo uma Catasetum - a primeira que vi na região. Colhi uma maravilhosa bromélia com uma coroa de plumas corais que encontrei em uma palmeira (Achmea huebneri). O ponto alto, no entanto, foi quando uma outra bromélia, a Aechmea polyantha, apareceu em uma grande árvore. Fiquei tão entusiasmada que desenhei até acabar a luz". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2010. p.132.


Achmea huebneri.
Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma floresta de Cecrópias


"Vimos assim, logo nos primeiros dias de viagem no Rio Amazonas, as sumaumeiras saindo da água nas margens inundadas, rodeadas de numerosas mungubas (Bombax munguba), rivais dos citados eriodendros e, em muitos respeitos, semelhantes a eles. Vimos flocos encarnados e brancos da lã de ambas as árvores voando em grande quantidade por cima do rio
Muito menores do que aquelas grandes rivais, providas de muito menos e escassos galhos, ostentando nas extremidades folhas de longos pecíolos e profundamente recortadas, medram em quantidades ainda maiores do que as bombáceas as cecrópias, por toda parte, na orla da floresta. Já falei muitas vezes dessas árvores singulares, cujo tronco oco, em cada cicatriz de folha forma uma parede divisória, servindo de morada às formigas e sobretudo à preguiça. Invadem às vezes toda a floresta, prados inteiros e toda a ilha. Parecem mesmo ter certa propriedade de formar praias. Uma cecrópia será sempre a última árvore a manter-se num terreno pantanoso e a primeira a criar raízes num terreno recém-inundado e transformá-lo, pela proliferação em solo firme. Uma ilha de cecrópias assim, uma floresta de cecrópias como essas, tem o aspecto tão bonito e tão em ordem quanto qualquer plantação e diferencia-se muito da floresta bravia". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961. p. 66.


Embaúba. Cecropia peltata.
 M. E. Descourtilz. Flore medicale des Antilhes, v. 2, t. 75, 1822.
Desenho de J. T. Descourtilz.

sábado, 8 de julho de 2017

Os macaquinhos de cheiro


"[...]. Poucos dias atrás, ouvi um ruído estranho e um estrondo na mata, que a princípio não conseguia explicar. Por um momento, pensei que uma gigantesca árvore tinha caído no meio da mata, tamanho foi o estalo da galharia; notei, então, que o barulho mudava de lugar e achei que era o estouro de um bando de animais de grande porte, quem sabe até porcos selvagens correndo pelo mato. Por fim, quando o barulho que vinha em minha direção estava bem perto, ouvi também o chilro agudo e estridente com o qual todos os nossos macaquinhos se distinguem, porém sem conseguir nada além de alguma sombra por entre os galhos, de vez em quando. Então, de repente, surgiu numa copa de palmeira mais baixa, bem perto de mim, uma cabecinha: duas orelhinhas pontudas e cara rosada com focinho preto permitiam reconhecer, na mesma hora, o meu predileto do jardim zoológico, o macaco-de-cheiro [...]. Por vários instantes, ficamos nos olhando imoveis, cheios de interesse um pelo ouro; então, a pequena sentinela (claramente o chefe do bando) demonstrou preocupação; emitindo um som curto, quebrado, recuou; em seguida, ouvi o barulho de galhos quebrando de novo e agora por todo lugar, o grito de alerta, enxergando em seguida os bichinhos esguios praticamente voando de copa em copa em enormes ajuntamentos. Por muito tempo, foi possível saber para onde iam pelo barulho que faziam. [...]". Emília Snethlage ( 1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 202-203, jan.-abr. 2013.



Macaquinhos na floresta.
Art-Tropical.
 www.pinterest.com

domingo, 2 de julho de 2017

Uma encantadora paisagem



"O rio desdobrou hoje aos nossos olhos perspectivas encantadoras. Bastante mais espaçoso, dado que em certo ponto teria mesmo quatrocentos metros de largura, o seu leito apresentava-se constantemente garrido de pequenas e atraentes ilhotas, com prainhas muito limpas, pedras bem polidas e uma viçosa vegetação sombreira. Nelas predominavam os araparis, alguns em flor, bosquetes de mongubeiras e uma ou outra soca de palmeiras jauaris. As suas franjas de praia, caprichosamente recortadas, são quase sempre de areia avermelhada, formando brilhante contraste com os verdes do arvoredo. A mais, neste trecho do rio, amiudavam-se as peúvas, debruçadas das ribanceiras e como que a se mirarem no espelho das águas, que lhes reproduzia a imagem em grandes manchas de ametista líquida". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 1930. p. 127-128.


Paisagem amazônica.
 Arte de Edivaldo Barbosa de Souza

domingo, 25 de junho de 2017

Viagens pelos rios de água preta


"Se viajarmos pelos rios, principalmente os rios de água preta, escassos de sedimento, ao contrário dos outros, os de aluvião, não teremos grande contato com a avifauna amazonense. Essas correntes fluviais são tão pobres de caça e de pesca que se lhes deu o nome de rios famintos e neles, mormente se atingirmos os seus altos, acima das cachoeiras, não será difícil passar fome. Conhecemo-los bem, pois foi por um eles, o Erepecuru, e depois o Parú, de oeste, que subimos até chegar aos contrafortes de Tumucumaque, já nos limites da Guiana Holandesa. Aí, uma ou outra ave que se visse, durante todo um longo dia de viagem, era sempre um acidente digno de nota. Isolados maguaris que , com voo pesado, à aproximação da canoa, abandonavam um pouso para procurar outro, em sítio mais distante, mas sempre à mesma margem. Arirambas maiores ou menores que riçavam o espelho das águas e surgiam com um peixinho no bico. Biguatingas de pescoço esguio colubreante mergulhando aqui para aparecer muitos metros além. Um casal de araras vermelhas cortando o azul do céu ou um caracará de asas ao pairo, pronto a despejar-se sobre qualquer presa. Em bandos, só as gaivotas, sempre a gritar, revoluteando sobre as praias, onde os seus ovos incubavam ao sol; ou, então, alguns patos asa-branca, nadando gostosamente nos espraiados de água remansosa. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2003. p. 86-87.




Biguá e Biguatinga.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986. 


terça-feira, 6 de junho de 2017

Enormes tufos de bromélias


"[...]. Espécies dos gêneros Cocos, Melastoma, Bignonia, Rhexia, Mimosa, Inga, Bombax, Ilex, Laurus, Myrthus, Eugenia, Jacaranda, Jatropha, Vismia, Lecythis, Ficus e milhares de árvores outras, a maior parte ainda desconhecidas, compõem o maciço da floresta. O solo está juncado de flores, e fica-se embaraçado para saber, de qual elas provêm. Alguns galhos gigantescos, cobertos de flores, de longe parecem brancos, amarelo vivo, vermelho escarlate, róseos, violetas, azul celeste, etc.; nos lugares pantanosos, erguem-se em grupos unidos sobre longos pecíolos, grandes e belas folhas elípticas das helicônias, que têm às vezes de 8 a 10 pés de altura, acompanhadas de flores de forma extravagante, e cor vermelha carregada, ou de fogo. No ponto de divisão dos galhos das árvores maiores, crescem enormes bromélias, de flores em espiga ou em panícula, escarlates ou de outras cores igualmente belas; descem grandes feixes de raízes, à semelhança de cordas que descem até o solo e constituem novos obstáculos para o viajante. Esses tufos de bromélias cobrem as árvores até que, depois de muitos anos de existência, morram e, desarraigados pelo vento, caiam em terra com grande fragor. Milhares de plantas trepadeiras de todos os tamanhos, desde as mais delicadas até as que têm a grossura de uma coxa , muitas de lenho rijo (Bauhinias, Banisteria, Paullinia e outras) entrelaçam-se em volta dos troncos e dos galhos, elevam-se até o cimo das árvores, onde dão flores e frutos fora do alcance da vista humana. Alguns desses vegetais têm forma tão singular, como por exemplo certas espécies de Bauhinia, que não podem ser observadas sem surpresa. Não raro o tronco em volta do qual elas se enrroscaram morre e vai-se consumindo; vêem-se então cipós colossais que sobem com as espirais livres, e compreende-se facilmente a causa do fenômeno. Seria bem difícil representar o aspecto dessas florestas, pois a arte ficará sempre aquém do que pretende exprimir". Maximilan, Príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958. p. 350-351.



Bromélia. Aechmea fulgens.
D´Orbigny, C. V. D. Dictionnaire universel d´histoire naturelle. v. 3, 1841-1849.
www.plantilustration.org.

sábado, 20 de maio de 2017

Pavãozinho do Pará


"[...]. Mas tornemos ao pavãozinho-do-Pará, para surpreende-lo agora no seu habitat natural, preferentemente sempre solitário, à beira de furos e igarapés sombrios, mas gostando também de apanhar o seu bocado de sol, como depõe o americano Rusby, na seguinte passagem:
"Achei muitas das aves desta região tão interessantes como as plantas. Uma das mais encantadoras era a chamada ave-sol (Eurypyga helias). Só pude vê-la uma vez, embora me dissessem que elas não eram raras. Tive uma excelente oportunidade para observar por algum tempo esta que se me deparou, aproximadamente do tamanho de um frango, com formas mais esguias e penas brilhantemente coloridas. Vive na mata fechada, mas procura as clareiras ensoalhadas, para realizar as suas danças acrobáticas. A que eu vi, estava numa aberta bem iluminada, com uns dez a doze pés de diâmetro, situada no meio do caminho. Corria rapidamente, fazendo círculos da direita para esquerda, com a asa direita bem levantada, evidentemente para que tivesse maior estabilidade, não só para rodar com mais rapidez e segurança, como também a fim de inverter o movimento. Então saltou no centro do terreno e aí se pôs aos pulinhos, para cima e para baixo, ora sobre os dois pés ora apenas sobre um. Levantava a cabeça tão alto  quanto possível, para, de repente, curvando o dorso, abaixá-la até o chão. Além desses movimentos regulares, entregava-se à mais extravagante série de saltos e cabriolas que imaginar se possa. Era claro que não havia a menor relação entre aqueles saracoteios e qualquer objetivo prático, como a procura de alimentos. Tratava-se, sem dúvida, de um simples folguedo em instante de alegria. Visivelmente, a ave sentia-se muito feliz e isto deu-me também vontade de participar do seu brinquedo". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955. p. 114-115.



Pavãozinho-do-Pará à esquerda.
Desenho de Ernst Lohse. Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Segredos e mistérios do Tajá


"Não é apenas pelo seu feitio decorativo que o tajá (Caladium bicolor) é festejado na Amazônia como planta de estimação. Mais do que pela esbelteza das folhas, pela graça e elegância do corte, pela simplicidade geométrica das linhas, ele possui segredos e mistérios que só a alma cabocla entende e aprecia. Enorme é a variedade dessas plantas que formam as vistosas e esmeradas toiças da planície: tajapeba, com a sua raiz chata; o tajá-piranga, de uma coloração vermelha, belo aspecto, perigoso pelo veneno, e cujas raízes eram utilizadas pelos indígenas do Uaupés como o castigo para as mulheres curiosas que se atreviam a espiar as cerimônias maçônicas do Jurupari; o tajá-pinima, o tajá tatuado, cheio de manchas; o tajá grande, o tajá-preto, o tajá-de-sol, o tajá-membeca, o tajá-purú, este a espécie mais sugestiva e preferida pelas virtudes que são atribuídas às raízes de fazer-nos felizes nos amores e afortunados e bem sucedidos na caça e na pesca. [...]". Gastão de Bettencourt. A Amazônia no fabulário e na arte. 1946. p. 149-150.



Caladium bicolor.
Curtis´s Botanical Magazine, 1861.

terça-feira, 9 de maio de 2017

A majestosa Inajá


"[...]. Entre as árvores de folhagem, leguminosas e bombáceas, que alteiam suas copas acima das vizinhas, erguem-se outras palmeiras: paxiúba (Iriartea exorrhiza), a majestosa inajá (Maximiliana regia), bacaba (Oenocarpus bacaba) e o esguio açaí (Euterpe oleracea), cujos frutos fornecem uma apreciada e nutritiva compota (doce) aos moradores do beiradão do Amazonas, que os pequenos moleques de cor anunciam aos gritos nas ruas do Pará e de Manaus.
Embora a vegetação seja tão rica de variedades, a vida animal é pobre. Pelo menos, do navio, não se vê quase nada dela. De vez em quando, voam araras, sempre aos pares, deixando suas belas cores brilhar ao sol. Incontáveis papagaios e periquitos enchem a floresta com seus gritos briguentos. Pequenos martins-pescadores acompanham o navio em certos trechos. Aqui e acolá, num galho seco da árvore, uma garça branca está espreitando o peixe, ou, espantada pelos estampidos da espingarda dos passageiros, plaina num voo majestoso diante do navio, para logo se apresentar de novo. Mas isto é tudo". Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas - viagens no noroeste do Brasil (1903/1905). 2005. p. 24-25.



Palmeiras. Maximiliana regia ao centro.
A. D.  d´Orbigny. Voyage dans l´Amérique Méridionale, v. 7, n. 3, 1847.
 www.plantillustrations.org.


sábado, 6 de maio de 2017

Palmeira jauari onde cantam os sabiás do poeta


"[...]. A vegetação escassa dessas terras aguacentas tem um verde-claro, lavado. São os dilatados campos de canarana e de muri, de onde se eleva isolada uma ou outra palmeira caraná ou jauari, em cujas ramas cantam nas manhãs alegres os sabiás do poeta; a fraca imbaúba de folhas grandes, recortadas e ásperas, a grossa e rude mongubeira em cujos galhos fabricam seus ninhos, compridos como abóboras, os japiins brancões; o taxi, cujas flores brancas, de que nesta época se cobre a sua copa simétrica, dão-lhe de longe o aspecto de um enorme ramalhete erguido no ar. Raramente, lá em ponto favorecido por não sei que circunstância do terreno, crescem juntas, qual ilha no meio este mar de canarana, algumas árvores pecas, condenadas fatalmente a serem afogadas pela cheia. Nas beiras dos canais que comunicam os lagos  entre si e em toda a extensão do comprido igarapé é onde se reúne alguma vegetação - uma vegetação fraca, sob enganadora aparência do seu brilho - formando como que uma trincheira para impedir a queda das terras roídas pelas águas. [...]". Umas árvores de cerne alvadio, rugoso, de nomes esquisitos: o magro e folhudo socoró, o paricá falso, o uruá, o acará-açu, de casca pintada como o peixe desse nome, o catauari e poucos galhos e a cuiarana, mal comparada à verdadeira e linda cuieira". José Veríssimo (1857-1916). Cenas da vida amazônica. 2011. p. 36-37.



Palmeira jauari  Astrocaryum jauari
 J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1989.

domingo, 30 de abril de 2017

Samambaias de grandes folhas


"Entre os dias 14 e 18 o tempo mostrou-se calamitoso; chegava a chover às vezes doze horas seguidas; não eram, porém, aguaceiros pesados, e sim uma chuva fina e constante, do tipo a que estamos acostumados na Inglaterra. Atracamos em vários pontos - o Pena para fazer os seus negócios e eu para andar pela mata à procura de pássaros e insetos. Num certo lugar deparei com um quadro muito pitoresco: do alto da encosta do barranco coberto de mata fluía um regato através de uma estreita ravina, o qual se despejava lá de cima numa série de pequenas cascatas que iam terminar no vasto rio lá embaixo e eram orladas por uma infinita variedade de lindas plantas. Bananeiras silvestres, curvavam-se sobre a água, e os troncos das árvores vizinhas mostravam-se cobertos de samambaias de grandes folhas, pertencentes ao gênero Lygodium. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979. p. 131.



Samambaias
Ilustração de Margaret Plus (1828-1901)




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Tarde luminosa na floresta


"Tarde luminosa. A floresta refrescante amenizava o calor do dia. Por cima das frondes verdes pouco densas, o límpido céu azul tropical sem nuvens. Alguns pássaros da floresta chilreavam seu canto sem regra; periquitos ralhavam nos galhos das árvores, ao longo dos quais corriam bandos de macacos com incrível agilidade, enquanto nos galhos mais altos, muitos gaviões se expunham ao sol e passavam os olhos penetrantes por sobre a mata. Pontederáceas floresciam sobre a água escura; cássias e leguminosas doutras espécies formavam matizes azuis e amarelos; uma graciosa asclépia branca e pendurava-se em longos festões até ao rio embaixo, no qual a canoa avançava sempre com algum trabalho por entre os galhos de árvores caídas da margem.
Mas, a selva já se abria; já avistávamos o lago do igarapé, agora mais largo, quando fomos atraídos e presos pelo aspecto duma maravilhosa planta aquática.
De ambos os lados de nossa canoa, 10 a 12 exemplares de Victoria regia ostentavam suas folhas colossais e soberbas flores. [...]". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No Rio Amazonas (1859). 1980. p. 212.




Victoria regia
Ilustração de William Sharp (1803-1875)