quarta-feira, 27 de setembro de 2017

As garças do Marajó


"Já de longe avistamos multidões de garças de toda a espécie nas extremidades dos galhos por cima das largas copas das árvores, e quanto mais perto chegamos, maior número vemos de ninhos chatos, grandes como rodas de carros, e que aparecem como manchas escuras por entre a ramagem rala do mato.
Em cada árvore contamos dúzias deles.
O barulho torna-se cada vez mais ensurdecedor: ao penetrar na floresta julga a gente ter caído em um bródio de bruxaria.
Garças brancas, grandes e pequenas, garças morenas, arapapás, maguaris, colhereiros, cauauans, guarás, mergulhões grandes, carará, tudo ali vive em confusão, na mais variada promiscuidade, ao lado e por cima uns dos outros, na mesma árvore, na qual muitas vezes em uma só há diversas colonias de ninhos de meia dúzia de espécies. [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi), Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 390-391, 1902. 


Garças
Pintura de Jessie Arms Botke (1883-1971).
www.pinterest.com

domingo, 24 de setembro de 2017

As majestosas palmeiras miritis


"Ao longo dos furos de Breves existem aqui e acolá porções de terrenos semelhantes aos de Breves, mas, em geral as margens do rio são inundadas em cada maré cheia, e as casas espalhadas são construídas em cima de postes, que as elevam acima d´água. Os canais são estreitos, excessivamente profundos e cheios de água lodosa. Em verdade, tanto faz na maré cheia como na vazante, estão sempre entumescidos como se estivessem com uma enchente - E como é rica a vegetação que os cerca! - Encontram-se aqui trechos de mangues com sua linda e verde folhagem, com suas raízes principais arqueadas, com as pendentes radículas aéreas terminadas em tripeça e com suas sementes em forma de charutos; acolá o canal é bordado de ambos os lados por paredes de verdura, as pontas dos ramos roçam na superfície d´água na maré cheia e param as lindas balsas de ervas e do mururé de folha larga com suas flores azuis, e mais adiante por muitos quilômetros temos em frente as majestosas Miritis, com suas soberbas palmas em forma de leque, com suas folhas mortas, amarelas e pendentes, e sustentando seus pesados cachos de frutos escamosos. [...]". Orville Derby (1851-1915). Trabalhos restantes ineditos da Commissão Geologica do Brazil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physisca do Baixo-Amazonas: A Ilha de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 2, fasc. 1-4, p. 174-175, 1898.



Palmeiras Miriti ou Buriti
Desenho de Taunay.
Expedição Langsdorff ao Brasil (1821-1829)

domingo, 17 de setembro de 2017

A bonita palmeira Jará


"[...]. Aqui vemos, também pela primeira vez, a bonita palmeira Jará, espécie de tamanho moderado, com estípite delgado e gracioso, folhas pendentes. Explorando mais adiante, encontramos um pequeno lago, de no máximo meia milha de diâmetro, todo circundado de declives fortes, exceto onde este barranco o separa do rio. Um córrego diminuto serpeia por sobre a areia e a argila, com cascatas aqui e ali, talvez a queda total possa ter vinte pés. Os camaradas chamam-no de lago de Água Preta; a água é verde escura, muito límpida e profunda, e reflete as colinas revestidas de mata que a circundam e as palmeiras caraná e javari; é tão diferente dos lagos rasos da várzea, como o Tapajós o é do Amazonas. O Lago de Tapary é, como este, um verdadeiro lago de terra firme. Ricardo afirma que em ambos encontram-se pirarucu, mas que a água é demasiada profunda para boa pescaria. [...]. Herbert Smith (1851-1919). Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 184.



Astrocaryum jauari e Leopoldinia pulchra. Palmeiras Jauari e Jará.
Martius, C. F. P. von. Historia Naturalis Palmarum, v. 2, t. 52, 1839.
www.plantillustration.org

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A rica vegetação da floresta amazônica


"O maior rio do mundo corre através da sua maior floresta. Imagina, se podes, dois milhões de milhas quadradas de floresta ininterrupta, exceto pelas correntes que a percorrem, pois os campos que aparecem esparsos, aqui e acolá, são tão insignificantes que eu acredito que faria maior vazio o corte de um único carvalho na maior floresta da Inglaterra do que qualquer destes campos na imensa selva amazônica. Ficas, portanto, preparado para saber que quase todas as ordens de plantas contam árvores aqui entre os seus representantes. Há gramíneas (os bambus) de 40, 60 pés e mais de altura, às vezes eretas, outras formando um intrincado de ramos espinhosos, nos quais nem o elefante poderia penetrar. Verbenas formando árvores copadas, de folhas digitadas como as dos castanheiros da Índia. Polígales que são robustas trepadeiras lenhosas, subindo até a copa das árvores mais altas, enfeitando-as com os festões de perfumadas flores que não são delas. No lugar das tuas pervincas encontramos aqui belas árvores exudando leite, às vezes salutífero, outras violentíssimo veneno e dando frutos com as mesmas propriedades. Há violetas do tamanho de maceiras; malmequeres, ou que podiam parecer malmequeres, desabrochando em árvores do porte do almieiro. As mirtáceas são excessivamente numerosas e notáveis por suas flores efêmeras e simultâneas: hoje todas as de determinada espécie estão cobertas de nevadas flores perfumosas, amanhã já não se vê nem mais uma flor. Outro grupo, sem nada que possa ser comparado na flora européia, é o das melastomáceas, tão abundantes como as murtas e muito mais rico em espécies. Estas duas famílias, e mais as solanáceas e lauráceas, formam a massa da vegetação que se vê na vizinhança das cidades. Mas de todas a mais abundante é a das leguminosas, entre as quais estão as árvores mais nobres da floresta virgem, alguns dos frutos mais deliciosos, alguns dos piores venenos". Richard Spruce (1817-1893).

In: MELLO-LEITÃO, Cândido de. A vida na selva. 1940. p. 6-7.


Parkia discolor (Leguminosae).
Viagem Philosophica. Alexandre Rodrigues Ferreira. Florestas do Rio Negro. 2001.




sábado, 9 de setembro de 2017

Richard Spruce no meio da floresta


"Podiam-se consumir horas na derrubada de uma única árvore. O gigante que caía arrastava então outras na sua queda, vindo no seu séquito uma como desgrenhada cabeça de epífitas e parasitas. Orquídeas havia em barda; havia também colossais ciclantos com suas folhas bífidas e flabeliformes, imensamente largas. Os cipós que se estendiam de uma árvore a outra, vinham abaixo com as massas que caíam carreando na queda os parasitos como se fossem cordas de sino. Spruce recolhia as várias espécies que engrinaldavam uma única árvore. Havia a salsaparrilha, uma liana importante no comércio do seu tempo; havia a yuruparipina, anzóis do diabo, com largos espinhos agudos que podiam ferir seriamente uma pessoa. Ninhos de térmites, os quais tinham uma cor marrom, térrea, tombavam com as árvores. Choviam-lhe formigas sobre a cabeça. O baque de uma árvore desencadeava um verdadeiro pandemônio na floresta. Os macacos primeiro soltavam guinchos e corriam, depois voltavam para esganiçar. Papagaios verdes e vermelhos soltavam gritos estridentes; tucanos de bico de cores variegadas desciam voando para  investigar a causa de toda aquela algazarra.
De resto a mata jamais ficava perfeitamente silenciosa. As cigarras ziziavam continuadamente enchendo toda a selva com o seu ruído. Logo se lhes vinham juntar as rãs com o seu coaxo tão persistente que Spruce tinha impressão de estar no interior de uma forja. O ar parecia vibrar com o rítmico clangor. O botânico não se queria apartar tão depressa daquela floresta encantada, mas o capitão estava impaciente. Foi com relutância que voltou para o navio. O Três de Junho ia continuar a sulcar as águas do Amazonas". Victor W. von Hagen. A América do Sul os chamava. [19--?.]. 266-267.


Tronco com flores e parasitas.
Ilustração de Margaret Mee.




domingo, 3 de setembro de 2017

A espinhosa "jacitara"


"Em alguns lugares, pequenos igarapés, ou riachos florestais, são quase inteiramente tomados por várias gramíneas trepadeiras e plantas rasteiras, entre as quais a "jacitara" ocupa um lugar proeminente e é a montante destes riachos que os índios frequentemente se deleitam em fixar residência. Em tais casos, eles nunca cortam inteiramente um ramo, mas passam e repassam diariamente em pequenas canoas que se insinuam como serpentes entre a emaranhada massa de vegetação espinhosa. Estão, portanto, quase seguros contra as incursões dos negociantes brancos, que frequentemente os atacam em seus refúgios mais distantes, levam fogo e espada para dentro de suas pacíficas casas e tornam cativos as esposas e filhos. Mas poucos homens brancos conseguem penetrar por muitos quilômetros ao longo de um pequeno e tortuoso riacho como o aqui descrito, onde não é encontrado nenhum galho quebrado ou ramo cortado que revele que algum ser humano já tenha alguma vez passado. Portanto, a espinhosa "jacitara" de fato ajuda a defender a independência do índio selvagem nas profundezas das florestas que ele adora". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Palmeiras da Amazônia e seus usos. 2014 p. 101.


Desmoncus sp.
 Carl Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum 1823-1850