sábado, 28 de novembro de 2015

O Gaturamo: o mavioso cantador das matas


"Talvez nenhum outro pássaro cantor seja mais querido dos nossos escritores, do que o gentil, minúsculo e faceiro gaturamo, o mavioso cantador das matas, dos campos e dos quintais; e mais das taperas e das capoeiras, cujo silencioso abandono ele desperta com o seu canto às vezes, terno, vivo, alegre, outras vezes, apaixonado, nostálgico, sentido.
Nem o sabiá, melodioso flautista de asas, que Gonçalves Dias imortalizou, e que, pela madrugada e ao cair da noite, pelos mesmos pousos do gaturamo, desfere as notas do seu cantor vibrante e suave; nem o rouxinol, com as suas endeixas inspiradas, maviosas; nem o canário, com a variedade medida de seus acordes, nem a juriti, nem a rola, com os seus arrulhos, queixosos, tocantes; nem o bicudo, o curió, as patativas, os brejais, nos seus dulcídios gorjeios; nem os caboclinhos, com a ternura dos seus descantes; nem todos os outros cantores emplumados, jamais mereceram a estima, o afeto, a simpatia geral, que o gaturamo desfruta, indiferente, saltitante, jovial, modesto. [...].
Na literatura mitológica dos índios ou melhor, na crendice indígena, é o espírito de bondade e virtude, a alma boa, justa, medida, tal assim quer dizer gaturamo, corrupção de angaturama, lindo vocábulo da língua tupi.
Do sul ao norte do Brasil, o gaturamo, com este ou com outros nomes, é sempre o mesmo bardo de penas, o cantador das goiabeiras, dos laranjais e cajueiros, o musicista alado das selvas.
Todos nós, os que não nascemos nas capitais, nem nas grandes cidades, guardamos, de criança, uma lembrança desse canto, que é bem como a alma da saudade, a remoçar-nos à estância dos primeiros anos. [...].
Em nosso Estado, o gaturamo, como em todo o Brasil, existe por toda parte.
Nas taperas e nas capoeiras, é sempre o primeiro que ouvimos, entre os musicistas emplumados dessas paragens.
Aquele garganteio, sonoro, agradável, variado, derrama-se sobre a tapera, como um canto de aleluia, sob as abóbadas de um templo abandonado.
É um acorde espiritualizante, transcendente, na solidão agreste das ruínas.
Quem, por um dia de verão, haja visitado um sítio em abandono, a cujo meio da chácara assente a velha casa de antiga fazenda ou seringal antigo, jamais esquecerá esse gorjeio enternecido, quase suspirado, do cantadorzinho de penas.
Mas, se o ouvirmos nos campos ou nos quintais, temos a impressão de outro canto, alegre, vivo, rútilo, pomposo. A nostalgia insólita da tapera, sucede, então, a nota ardente, tonificante da alegria.
E quando, por uma vereda ou caminho da mata, se nos depara a avezinha, cantando, como que sentimos, nesse canto, um misto de alegria e dor, de tristeza e contentamento.
E o cantor ingente, saltitante, faceiro, borboletando, gentil, por entre as árvores, muda, a cada instante, de pouso, seguido por uma nuvem de companheiros, chusma de pássaros de toda a espécie, que, de certo, ou faz coro ao artista, ou assiste estupefato ao concerto harmonioso do músico divino.
Há várias espécies de gaturamo.
Goeldi fala em 32 e delas diz pertencerem 18 ao Brasil.
Aquela a que nos referimos é a Euphonia violácea, que é a do nosso tem-tem de-papo-amarelo. Mas devemos anotar que apesar das variantes do colorido, nas diversas espécies, quem estiver habituado ao trato com os indivíduos da Euphonia violácea, facilmente reconhecerá as outras espécies, que se traem pela semelhança àquela: tamanho, porte, sibilo e voo; nenhuma, porém, igualando-a, no canto inimitável, - a não ser, talvez, o nosso tem-tem da mata, de um brilhante azul, quase negro, e encontros amarelos, como o corrupião do meio norte ou o nosso rouxinol da mata. [...]". Aldo Guajará. De Bubuia. 1925, p. 83-88.
 

 
 
 
Gaturamo.
 Rodolpho von Ihering (1883-1939).
O livrinho das aves. 1914.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

As Palmeiras


"A família das palmeiras é a providência do seringueiro, ou habitante do vale amazônico. A Pupunheira dá-lhe substancial e delicioso alimento, como sustenta também o saboroso Tucumã. O Açaizeiro fornece o revigorante açaí, alimento completo, tão gostoso, que vicia quem o prova. O Patauá sustenta-o, dá-lhe óleo para a cozinha e luz para a candeia. A Paxiúba, rija como aço é a estrutura de seu rancho. A Paxiubinha, o soalho da palafita moderna, que é o rancho do seringueiro, ou morador ribeirinho. O Tucum fornece a linha e a rede de pesca, ou aquela em  que dorme. [...]". Francisco de Barros Junior. Caçando e pescando por todo o Brasil. 5a. Série: Purus e Acre. [s.d.], p. 50.
 
 
 J. Barbosa Rodrigues.
Sertum palmarum brasiliensium. 1989.
 


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Uma viagem com as margens floridas


"Navegamos até Barcelos e de lá, pelo rio Demini, até o rio Araçá. Aproveitei a glória das margens já que todas as flores resolveram se abrir ao mesmo tempo: Gustavia augusta, branca de tantas flores; uma trombeta chinesa com flores cor-de-rosa aparecia por cima dos arbustos dentro da água, perdendo suas pequenas trombetas na correnteza; o panículo amarelo da Oncidium ceboletta pendurado sob uma bromélia com brácteas escarlates apresentando uma sinfonia de cores e formas. Navegamos por um cenário glorioso, o rio espelhado e ornado com tulias graciosas, buritis escuros e jarás nas margens e praias de área branca. Bacuris  cobertos com flores cor-de-rosa enfileiravam-se pelo rio. Essa árvore produz um pequeno fruto com o sabor parecido com o da Chinese lychee". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010, p. 76.
 
 
 
Gustavia augusta
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2010


sábado, 14 de novembro de 2015

Um lugar encantador


"[...]. Este é um dos lugares mais encantadores que já vi. O leito do riacho tem uns dez pés de largura; porém só durante o período das fortes chuvas é que a água cobre tal espaço: na ocasião a corrente era apenas perceptível. A água cai sobre três planos sucessivos de granito, cada um de cerca de oito pés de altura, com a superfície coberta de musgo. Ao longo da corrente, no fundo, da cascata, há diversas árvores de porte médio, cujos galhos se cobrem de festões de uma Fuchsia repleta de esplêndidas flores escarlates. Ao lado da cascata há diversas moitas de uma Pleroma de grandes flores e, no meio delas, alguns exemplares de uma Esterhazya, de flor vermelha e uma Clusia cheia de folhas (C. fragans, Gard.), saturando o ambiente com o deleitoso olor de suas grandes e níveas flores; abaixo destas cresce um Amaryllis, um Eryngium, várias Tillandsia e muitos fetos." George Gardner (1812-1849). Viagem ao interior do Brasil. 1975, p. 44.
 
 
Tillandisia paraensis.
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2010.



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Uma vegetação luxuriante!


"Entre as trepadeiras, é muito interessante a Bauhinia, cujos fortes caules lenhosos crescem sempre em arcos de círculos alternados; a concavidade de cada arco é como que artificialmente escavada pelo cinzel curvo de um escultor, e no lado oposto convexo há um espinho curto e rombo. Essa planta original, que facilmente se confunde com uma obra de arte trepa ao topo das mais altas árvores. A folha é pequena e bilobada; mas nunca vi a flor, se bem que seja a planta bastante comum. O aroma desprendido por muitas dessas trepadeiras é forte e variável: o "cipó cravo" tem cheiro muito agradável semelhante ao do cravo: outras, ao contrário como observou La Condamine, viajando pelo rio Amazonas, cheiram a alho. Muitas dão longos ramos para baixo, que se enraízam; o que estorva o caminho do viajante, obrigando-o a cortá-los com o "facão" antes de poder prosseguir. Há galhos pendurados que, quando agita o vento, dão, frequentemente, rudes pancadas na cabeça do transeunte. Em geral, o vegetal é tão luxuriante nesses climas, que vemos em cada velha árvore um verdadeiro jardim botânico, muitas vezes difícil de atingir, e formado de plantas certamente na maior parte desconhecidas". Maximilian zu Wied Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1954, p. 62.
 
 
Tronco de árvore com flores.
Ilustração de W. H. Fitch (1817-1892).


domingo, 1 de novembro de 2015

Uma Clusia rosa e branca


"Outra planta que então se tornara muito abundante era uma Clusia rosa e branca, de grandes folhas brilhantes e flores que exalavam um aroma forte e penetrante. Conquanto possa desenvolver-se independentemente, tornando-se uma árvore de alto porte, ela geralmente cresce como parasita, apoiando-se em outras árvores da floresta. Seus grandes frutos redondos e esbranquiçados são chamados de cebola-braba pelos naturais, sendo muito apreciados pelos pássaros, que provavelmente depositam suas sementes nas altas forquilhas das árvores. Ali, aproveitando matéria orgânica decomposta, fezes de aves, etc. ela rapidamente desenvolve suas raízes, até atingir um tamanho tal que necessite um maior volume de nutrientes do que aquele de que dispõe. Quando isso acontece, essa planta emite longos rebentos que chegam até ao solo. Esses também lançam raízes e acabam por desenvolver um longo caule. Em Nazaré há uma árvore, à beira da estrada, numa forquilha da qual cresce uma enorme palmeira mucajá sobre a qual desenvolveram-se três ou quatro jovens Clusias. Estas, por sua vez, certamente devem abrigar numerosas orquídeas e fetos!
Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 36.
 
 
Clusia nemorosa.
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2. ed.  2010.