quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Viajantes: Pimentas.



"[...]. Nas proximidades das choupanas encontramos ainda muitas das pimenteiras (Capsicum) que lá haviam plantado; seus frutos acres foram para nós um feliz achado, pois é um condimento que, acrescentado ao peixe, nessas florestas úmidas, muito contribui para facilitar a sua digestão, podendo ser ainda encarado como remédio contra febres. Nas viagens pelas matas do Brasil é uso levar uma provisão de pimentas secas, que vão sendo consumidas durante as refeições". Maximilian zu Wied-Neuwied. Viagem ao Brasil. 1958, p. 365.
 
 
 
 
Pimentas.
Ilustração de J. Th. Descourtilz.

domingo, 24 de novembro de 2013

Belém do Grão-Pará: Rua Conselheiro João Alfredo


A Rua Conselheiro João Alfredo teve, primitivamente, o nome de Rua dos Mercadores, pois estavam ali localizados os principais comerciantes da cidade de Belém. Foi também chamada de Rua da Cadeia, por ser o local onde ficava o presídio da cidade. Só depois recebeu o nome de Conselheiro João Alfredo.
 
João Alfredo Corrêa de Oliveira foi Presidente da Província do Pará, nomeado por Carta Imperial de 20 de outubro de 1869, tendo exercido o cargo, de 2 de dezembro daquele ano até o dia 17 de abril de 1870. (Ernesto Cruz. Ruas de Belém. 1970).
 
 
 
 
Rua João Alfredo no início do Século XX.
O Município de Belém. 1906.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Viajantes: Anhuma.


"[...]. Ouvimos e vimos, nas margens, as lindas araras, e encontramos, pela primeira vez, uma ave notabilíssima, a "aniuma" ou anhuma..., que não é rara nessa altura do rio. Essa linda ave, do tamanho de um ganso grande, mas de pernas e pescoços maiores, tem na testa um apêndice longo e delgado, semelhante a um chifre, de quatro a cinco polegadas de comprimento, e, ao nível da articulação dianteira de cada asa, dois fortes esporões pontiagudos. É arisca, mas logo se trai pela voz forte, que, embora muito sonora e potente, tem modulações algo semelhantes à voz do nosso pombo selvagem, sendo, porém, acompanhadas de algumas estranhas notas guturais; esse grito ressoava longe pela mata e trouxe novo entretenimento para o nosso senso venatório. Muitas delas, amedrontadas pela batida dos remos, voaram para a floresta; voando pareciam-se com urubu. [...]". Maximilian zu Wied-Neuwied. (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1958, p. 244.
 
 
Anhuma (Anhuma cornuta)
Ilustração de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.
 


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Viajantes: Orquídeas no Igapó.



"Mas que maravilhosa flor amarela será aquela, estranhamente suspensa no ar? Suas pétalas brilham na penumbra como se fosse de ouro! Aproximamo-nos dela, e o mistério se esclarece: está presa a uma haste delgada como um fio, de uma jarda e meia de comprimento, saindo de um denso aglomerado de folhas que se acha fixado numa casca de árvore. Trata-se de uma variedade de Oncidium, uma das mais lindas orquidáceas, alegrando essa melancólica penumbra com suas brilhantes folhas suspensas. Aos poucos, outras vão surgindo, em profusão cada vez maior, ora brancas, ora purpúreas, ora rajadas; algumas presas a troncos flutuantes, mas a maioria sobre musgos que crescem dentro dos ocos das árvores. Há uma espécie verdadeiramente magnífica, que tem 4 polegadas de largura. Os nativos chamam-na de flor-de-Santana. Tem pétalas roxas e brilhantes, e seu perfume é delicadíssimo. Trata-se de uma espécie nova. No gênero, é a flor mais maravilhosa dessa região. Os próprios nativos não podem deixar de admirá-la, ficando intrigados pelo fato de que uma flor tão linda crescesse à toa no igapó...". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 116-117. 
 
 
 
 
Oncidium maculosum.
J. Barbosa Rodrigues. Iconographie des orchidées du Brésil. (1877-1898).


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Viajantes: Beija-flores em redor das flores suspensas no Rio Solimões.


"[...]. Quando despertei na manhã seguinte, estávamos subindo pela margem esquerda do Solimões por espia. Era então a estação chuvosa na região por onde corre o grande rio. Os bancos de areia e todas as terras baixas já estavam debaixo d´água, e a poderosa corrente, duas ou três milhas de largura, arrastava contínua fila de árvores arrancadas e ilhotas de plantas flutuantes. A paisagem era das mais melancólicas; o único som que se ouvia era o murmúrio surdo das águas. A margem ao longo da qual viajamos o dia todo, estava atravancada, a cada passo, por árvores caídas, algumas das quais tremiam nas correntes que cercavam alguns pontos mais salientes. Nossa velha peste a mutuca, começou a atormentar-nos logo que o sol esquentou. Viam-se bandos de garças brancas a beira d´água, e em alguns lugares os beija-flores se espanejavam em redor das flores suspensas. O desolado aspecto da paisagem aumentou depois do por do sol, quando a lua apareceu, mergulhada em névoas. Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no Rio Amazonas. 1944, v. 2, p. 149.
 
 
Ramos de orquídeas e beija-flores.
Pintura de Martin Johnson Heade.
 

domingo, 17 de novembro de 2013

Viajantes: Caraxué.


"[...]. Nas primeiras horas da manhã, as matas perto da minha casa se enchiam de animação com os seus cantos - uma coisa rara na região.
Ouvi ali, pela primeira vez, o canto suave e agreste do caraxué, uma espécie de tordo. [...]. Verifiquei mais tarde tratar-se de um pássaro muito comum nas pequenas matas da região dos campos, perto de Santarém. Esse pássaro é muito menor do que o nosso tordo, suas cores são menos vistosas e o seu canto não é tão forte, tão variado ou tão prolongado como o deste; o seu tom porém, é doce e plangente, e se harmoniza muito bem com o ar agreste e silvestre das matas onde unicamente ele é ouvido nas manhãs e tardes de opressivo calor tropical. Com o passar do tempo o canto desse humilde pássaro foi despertando em mim agradáveis lembranças, assim como faziam em minha terra os seus congêneres, mais bem dotados. Há várias espécies desses pássaros no Brasil; nas províncias do Sul eles são chamados de sabiás. Os brasileiros não são insensíveis aos encantos do sabiá, que é considerado a sua melhor ave canora; [...]. Em várias ocasiões encontrei ninhos de caraxué; é feito de gravetos e capim seco, forrado de barro; os ovos são coloridos e pintalgados como os do nosso melro, mas de tamanho muito menor.[...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 107.
 
 
 
Caraxué(Sabiá)  - Cutipuruí - Vô-Vô - Peruinha-do-campo.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930). Álbum da Aves Amazônicas. 1900-1906.


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Viajantes: Palmeiras.


"Qualquer trecho da selva que divise na foz do Amazonas, sobretudo para o sul da linha equinocial, é todo entremeado desses vegetais, que fornecem à nossa gente, numa prodigalidade materna, a madeira, óleo, a cera, a palha, o tóxico, o marfim, a tala, o remédio, a goma, o palmito, a água, a farinha, o leite, o fruto. Deles se fazem casas e canoas, pontes e redes, armas e paneiros, balaios e gaiolas, cercas e armadilhas, botes e joias." Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930, p. 104.
 
 

 
Astrocaryum vulgare e Cocos nucifera.
 C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum. 1823-1850.
 


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Lendas e Curiosidades: Mercados & Pajelança.


"Do Ver-o-Peso ao Mercado-de-Ferro é um passo. Um e outro se confundem no turbilhão das invariáveis manhãs de feira. Até as torres esguias, de aspecto oriental, do velho mercado, fazem parte da paisagem do Ver-o-Peso. São o pano de fundo da doca.
Pouco adiante e mais afastado do cais, o turista vai encontrar o Mercado Municipal, ocupando extensa área que lateralmente se delimita com a Travessa Oriental do Mercado e a Travessa Ocidental do Mercado.
Mas o vasto espaço marginal à baía de Guajará onde se enquadram o Ver-o-Peso e aqueles dois entrepostos é todo um mercado: nas calçadas, no leito das ruas, nas pequenas casas de comércio, nos botequins, movimenta-se a multidão num vai-e-vem interessante. Formigueiro matutino. Território do pitoresco. [...].
E a pajelança? Bem, é melhor que o turista entre no Mercado e se detenha a observar gente, coisas... e saia para o ar livre, dando uma volta pela beira do cais, por entre as barracas armadas como se fossem casas em ruas de uma cidadezinha de papelão.[...].

Vidros com banhos cheirosos.
 

Banhos e defumações, embalados em caixinhas, se industrializam um tanto prosaicamente. Ervas, raspas, cipós, raízes, cascas, flores, trevos, são a matéria prima. Os nomes indicam o uso: "Defumação desmancha-tudo", "Defumação desatrapalha", "Banho vai-e-volta", "Banho desempata", ...
Os preparos que entram nessa alquimia cabocla, tão cheirosa e agradável - se encontram dentro ou fora dos mercados. Mas como fazer a coisa certa, temperar esta raiz com aquela erva, por o mínimo ou o máximo desta raspa ou daquele cipó, de acordo com as finalidades da mandinga? É melhor respeitar o segredo desses Cagliostros.
 
Ervas cheirosas
 
 
Contudo, se o turista quiser conhecer alguns dos ingredientes, à venda nos mercados, ei-los: fava-de-baunilha, priprioca, pau-rosa, orisa, macaca-poranga, mão de-onça, alecrim, japana, mucura-caá, pataqui, catinga-de-mulata, chama, trevo-cumarú, patchuli, membeca, verônica, arruda, , cravo-jutaí, casca-preciosa, vindica, casca-de-cedro, canela, hortelã, louro, pau-d´angola, açucena-do-mato, capim-marinho, cumaru, casca-sacaca.,[...]". Leandro Tocantins(1928-2004). Santa Maria de Belém do Grão-Pará. 1963, p. 289-292.
 
 
 
Cascas e Paus que entram nos famosos banhos-de-cheiro.

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Viajantes: Bacaba (Oenocarpus distichus Mart.)



"Aí crescia em abundância uma nobre palmeira, que dava caráter peculiar ao distrito, o Oenocarpus distichus, uma das muitas bacabas dos nativos. Alcança quarenta a cinquenta pés de altura. A copa é verde-escura brilhante e de forma singularmente achatada ou comprimida, pois as folhas estão dispostas de um e outro lado, quase no mesmo plano. A primeira vez que vi esta árvore nos campos, onde o vento leste sopra com fúria noite e dia, meses a fio, pensei que a forma fosse devido a que as folhas seguissem um mesmo meridiano pela ação constante dos ventos. Mas o plano de crescimento nem sempre concorda com a direção do vento, e a copa tem a mesma forma quando a árvore cresce em bosques abrigados. O fruto desta bela palmeira amadurece no fim do ano e é muito apreciado pelos naturais, que com ela fabricam agradável bebida, semelhante ao açaí, [...], destacando a polpa dos caroços e misturando-a com água. [...]. A bebida tem aspecto leitoso e gosto agradável de nozes. Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no Rio Amazonas. 1944. v. 2, p. 42.
 
 
 
 
Oenocarpus distichus Mart.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. vol. 1, t. 38, 1903.



domingo, 10 de novembro de 2013

Reflexões: SONETO XXVIII.


 
SONETO XXVIII
 
 
Minhas cartas! Todas elas frio,
Mudo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
da vida eis que retomo hora por hora.

Nesta queria ver-me era no estio
Como amiga a seu lado... Nesta implora
Vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou: sou teu, e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito que todo inda estremece!

Mas uma... Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara,
Se o que então me disseste eu repetisse...
 
Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)
algumapoesia.com.br
    In
Sonnets from the Portuguese
   
1850

•  Tradução: Manuel Bandeira
    In
Estrela da Vida Inteira
   
Record, Rio de Janeiro, 1998
 
 
 

Leitura da carta. Pintura de  Peter Kraemer

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Viajantes: Os Rápidos (Corredeiras) na Amazônia.


"Na manhã de 22 de março reiniciamos a viagem com seis canoas, percorrendo dez quilômetros. Vinte minutos após a partida, encontramos a primeira série de rápidos. Aí todos nós tivemos de marchar a pé exceto os três melhores canoeiros, os quais despenderam uma hora na travessia das canoas, uma após outra. Neste meio tempo descobrimos uma casa de abelhas no tope de uma árvore inclinada sobre o rio; nossos timoneiros escalaram-na para retirar o mel, porém, infelizmente derramaram tudo no momento da descida. Deparou-se-nos, a seguir, uma pequena, mais forte queda d´água, a qual não tivemos coragem de vencer com nossas toscas e fracas embarcações super lotadas. Felizmente, foi-nos possível seguir por um canal profundo, que se estendia em desvio de um quilômetro, indo ter justamente abaixo da cachoeira, a cerca de cinquenta metros do seu ponto inicial.
Prosseguimos com as embarcações em marcha apenas durante hora e meia, pois que novamente encontramos outra série de rápidos que nos tomou mais seis horas de travessia e em cuja base acampamos. Toda a carga foi retirada das canoas que foram descidas uma de cada vez Em certo ponto mais difícil e perigoso empregaram-se cordas para evitar qualquer surpresa desagradável, mas mesmo assim, quase perdemos uma embarcação. [...]". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 1945, p. 263.
 
 
Um rápido (Corredeira) na Amazônia.
 Karl von den Steinen. 1942.
 
 
 


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Viajantes: Socós na Ilha de Marajó - PA



"A cada pancada dos remos levanta-se do verde labirinto de grinaldas, de um lado ou de outro, um bando de socós, em todas as fases de idade, evidentemente advertidos mais pelo seu agudíssimo ouvido que mesmo pela vista, e se dispersam em todas as direções, com gritos ásperos que bem mostram o embaraço em que se acham para encontrar sem demora um novo esconderijo sombrio.
E assim durante um bom quarto de hora, caminhamos, levando continuamente à nossa frente uma nuvem de 30, 50 e mais socós; [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas) Boletim do Museu de Historia Natural e Ethnographia, t. 3, n. 1-4, 1900-1902, p. 387.
 
 
 
 
Socós
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas. 1900-1906.


domingo, 3 de novembro de 2013

Reflexões: O nosso livro.


Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.
 
Olha que outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!
 
Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!
 
Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós dois!"

Florbela Espanca (1894-1930)
Poemas de Florbela Espanca. 1996.
 
 
 
 
Karl Ludwig Becker (1820-1900).
One year one painting a day.blogspot


sábado, 2 de novembro de 2013

Viajantes: Cássias.

 

"Os caules das palmeiras são inteiramente revestidos de plantas orquidáceas, que nessa época estavam quase todas sem folhas ou flores. Apesar disso, pode-se presumir que não haja uma considerável variedade de espécies. Nos alagadiços há grande abundância de convolvuláceas arbustivas. Em alguns trechos, formam-se verdadeiros jardins de cássias e mimosas, entremeadas de delicadas florezinhas do campo." Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 67.
 
 
 
 
Cassia spp.
Pintura de Marianne North (1830-1890). kew.org