segunda-feira, 16 de julho de 2018

Admirando a natureza


"[...]. Sozinho por vezes, acompanhado de amigos da Comissão em outras ocasiões, penetrava a sombra das florestas em busca de instantes tranquilos no seio da natureza virgem. Sentava-me, então, nalgum tronco derrubado, contemplando, sonhador, a vida dos animálculos que aos meus pés decorria. Formigas labutavam metodicamente, formando compridas correntes paralelas em sentido contrário sobre a grossa haste de um cipó de aimbé, de que os caboclos fazem paneiros resistentes; lagartixas ziguezagueavam, perfurando os amontoados de folhas caídas, cabas sorviam dos caules exóticos o mel que os homens não lhe roubavam porque não o podiam comer. Marimbondos zuniam assustadores ao redor de minha cabeça descoberta, maruíns e mamangauas cuja ferroada dói perdidamente. Ao desviar-me deles, tocava espinhos agudos de aturiá, do qual ali se faz bom chá para tratar o beri-beri, e não continha ais dolorosos. Examinava, curioso, plantas estranhas, frutos deliciosamente coloridos, que me acenavam para serem provados. Não! podem ser venenosos! - fugia à tentação. Errava sem destino entre as altas castanheiras e taquariranas, desviando-me não poucas vezes das trilhas abertas pelos caçadores e seringueiros para penetrar o emaranhado da vegetação exuberante, coração a pular descompassado, apavorado com a ideia de pisar nalguma serpente, chegando a avançar de revólver empunhado e engatilhado, pronto para quaisquer surpresas.
Outras oportunidades não perdia para sair de canoa, rio afora, [...]. Dirigia a pequena e frágil embarcação para calmas enseadas, sobre as quais se debruçavam os galhos dos pés de fruta de cera, troncos esguios de palmeira de bacaba, ramos verdes de capurana e de eituá, repletos de frutos azuis cujo gosto lembra vagamente o do milho. Quantas vezes inclinava-se perigosamente a canoa sob o impulso de minhas mãos sequiosas por alcançar um ou outro piquiá, de polpa amarela e gostosamente doce, apesar de bastante oleoso. Cancãs e cojubins negros batiam asas, então, perturbados no seu piar monótono pela minha indesejável aparição. Pelos pedaços rotos da galharia perpassavam as sombras de corocas e socós em voo; e tapurús, que não sei de onde, despencavam sobre meus ombros, mordiam-me ferozmente, como só as formigas da Amazônia sabem morder. [...]". Ernesto Vinhaes. Aventuras de um repórter na Amazônia. 2. ed. 1944.


CANCÃ
 J. Th. Descourtilz.  Pageantry of brazilian birds in their natural surrooundings. Amsterdam; Rio de Janeiro: Colibris Ed. 1960

domingo, 8 de julho de 2018

Uma sinfonia natural


"A tarde some-se nas sombras noturnas do crepúsculo, silenciosamente, e uma nuvem perturbadora de mistério e de tranquilidade se alonga com tristeza por cima das águas do Paracauari. Só um barulho se escuta, e é música... O passaredo, na mata, canta em coro, e aquilo é a única festa de alegria daqueles ermos... Nunca se ouviu no mundo sinfonia mais natural, nem mais bonita!
Nuvens brancas, e nuvens azuis, e nuvens rubras, e nuvens escuras toldam o céu... Uma pura maravilha de colorido ornamental! São as garças reais, as garças morenas, as garças azuis, são as garças brancas, são as colhereiras, e os socós-bois e os arapapás, são as gaivotas e as ciganas, e os guarás, e as marrecas, e os quirirus, e os maguaris, lindamente, em revoada, que esvoejam pela mata, decorando a paisagem, enchendo o céu de cor e de ritmo...". Peregrino Junior (1898-1983). A mata submersa e outras histórias da Amazônia. 1960. p. 207.



Colhereiro (Platalea ajaja)
J. T. Descourtilz (1796-1855). Oiseaux brillans du Brésil. 1834.
www.biodiversitylibrary.org

sábado, 7 de julho de 2018

Prêmio Claudia 2018






Queridos amigos e amigas!



Fui classificada como finalista do Prêmio Claudia 2018 na categoria Ciências.

Envio o link para a votação. Conto com a participação de vocês.


Muito obrigada!



https://claudia.abril.com.br/premio-claudia-2018/






terça-feira, 3 de julho de 2018

Vigilengas


"Quem rompe do Atlântico, canal de Bragança a dentro, diretriz de Belém, começa a ver pintalgada de velas brancas e vermelhas a vastidão crespa das águas. São os barcos de gado, as canoas de farinha, as palhabotes de tabaco, as igarités de caranguejo, as embarcações, em suma, que abastecem, idas da região do salgado e da contra costa marajoara, à capital paraense. Entre elas avista-se um tipo que, por abundante e esquisito, chama logo a atenção:  é a vigilenga, oriunda dos estaleiros inartísticos da Vigia, que espalharam nos meandros potâmicos do golfo amazônico esse modelo inestético. Pintada de negro, pequena tolda à ré, boca aberta, um a dois latinos, que se não fosse a cor vermelha lembrariam asas de morcego, quase redonda, proa e popa toradas e fechadas por duas rodelas, cinco a dez toneladas de deslocamento, cruza todas as baías perdidas entre o litoral bragantino e as orlas de Marajó, indo mesmo, atrevidamente, mar em fora, até as regiões arriscadas das costas guianensis. [...].
Trafega na faina da pescaria a espinhel, com o qual  apanha o filhote, a piraíba, o dourado, a gurijuba, a piramutaba, o bacu. Sua guarnição de paraenses da gema, bisnetos, netos, filhos de pescadores, é composta de latagões vermelhos e morenos, da cor da bujarrona, tisnados ao lume do sol e endurecidos ao fragor da tormenta. Depois de lhe suspender a âncora ou a poita, a equipagem, afeita ao mormaço e ao relento, chega-se à amurada de barlavento; e o piloto, reclinado no painel da popa, nu da cintura para cima, atracado à cana do leme, não deixa transparecer se está acordado ou dormindo, tão indiferente se mostra aos trambolhões da veleira, que sobe na crista da onda, cai no abismo da vaga, empina-se, arfa, guina, corcova como um cavalo brabo.
Sem bússola, sem sextante, sem barquinha, esse palinuro navega olhando em torno, ora elevando, ora baixando a vista, fiado no brilho das estrelas, no assobiar da monção, no voo dos pássaros, no flutuar dos gravetos. Panteísta, adorador da natureza, nada o altera. Sol, chuva, calmaria, trovoada, pampeiro, tempestade, furacão, a tudo ele assiste sem exaltamentos maiores que as atitudes costumeiras. [...]". Raimundo Morais (1875-1941). Na planície amazônica. 2000, p. 61-62.


Vigilengas no Mercado Ver-o-Peso - Belém -Pará
Desenho de Percy Lau (1903-1972)








domingo, 1 de julho de 2018

"Cucos" de caudas longas e cores suaves


"[...]. A superfície dos campos é muito irregular, dificultando bastante as caminhadas. O terreno apresenta uma interminável sucessão de colina e outeiros baixos sendo igualmente aborrecido e fatigante seguir-se tanto pela crista quanto pelo sopé.
Os caules das palmeiras são inteiramente revestidos de plantas orquidáceas, que nessa época estavam quase todas sem folhas ou flores. Apesar disso, pode-se presumir que não haja uma considerável variedade de espécies. Nos alagadiços há grande abundância de convolvuláceas arbustivas. [...].
Voando de uma árvore para outra, viam-se diversos "cucos" de caudas longas e cores suaves, emitindo seu gorjeio característico, um pouco diferente do canto dos nossos, lembrando antes o rangido de uma dobradiça enferrujada. Por onomatopeia, dão-lhe o nome de quiriru. Igualmente abundantes são uns cucos pretos de bico pontudo chamados anus. E em quase toda árvore via-se um gavião pousado em seus galhos. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979. p. 67.


Chincoã - Saci - Anu - Quiriru
Álbum de Aves Amazônicas. 1900-1906
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)

quinta-feira, 28 de junho de 2018

As aves do país das maravilhas da natureza


"[...]. Enumerar todas as aves que se destacam pelo brilho e colorido de sua plumagem, seus hábitos e outras peculiaridades neste país das maravilhas da natureza seria fatigante. Contudo, não podemos concluir a lista sem mencionar os Eufonides, de brilhante plumagem, semelhantes ao pisco, os cardeais, com sua poupa encarnada cor de sangue, a mimosa e alegre patativa, o canário cor-de-ouro e o maravilhoso galo-da-serra cor de fogo. Nenhum país no mundo tem igual variedade de pássaros de cores tão brilhantes; em parte alguma a natureza pintou com cores tão festivas a roupagem plúmea dos alados habitantes, como no Brasil. Enganar-se-ia, porém, quem supusesse que todos os pássaros ostentam as mesmas opulentas roupagens. Há também muitos vestidos com modéstia, e até mesmo com roupagens singelas; neste número estão as muitas espécies de pombas e de galináceos. [...]". Oscar Canstatt (1842-1912). Brasil: terra e gente (1871). 2002. p. 79.


Galo-da-Serra.
 ELETRONORTE. Brasil 500 pássaros. 2000.
Desenho de Antonio Martins

sexta-feira, 22 de junho de 2018

As flores brancas de Clusias


"Carregada de plantas, conseguimos chegar de volta à Missão. As sombras se estenderam; uma paz envolveu a floresta onde somente se ouvia os cantos tardios de alguns pássaros, o murmúrio de animais procurando abrigo para a noite e o gemido de macacos.
Na manhã seguinte, foi possível ver a floresta de igarapés com árvores que permanecem inundadas durante todo o ano. O calor era intenso e vaporoso, e o leito do rio permanecia tão calmo que a linha divisória entre a realidade e a reflexão tornava-se quase indefinível. A floresta nessa região não era muito alta, mas extremamente densa e cortada por cursos de água escuros que penetravam fundo a selva. Raízes de árvores surgiam de dentro do rio formando arcos pelos quais se podia passar de canoa. Plantas cresciam em grande abundância, enraizadas em topos de  árvores e galhos e enfeitando as copas das florestas. Na transição do igapó para a alta floresta, encontramos epífitas penduradas em ramos aglomerados nos galhos das árvores; espigões de araras que brilhavam como plumas ardentes nas copas das árvores; raízes coroando as gigantes da selva ou penduradas nas palmeiras que adornavam as margens do rio; e flores brancas de clúsias que cintilavam como estrelas no firmamento escuro". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2. ed. 2010. p. 44.


Clusia lanceolata.
Aquarela de Maria Werneck de Castro (1905-2000).
Natureza viva -  memórias, carreira e obra de uma pioneira do desenho científico no Brasil. 2004.