quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amazônia que eu vi: uma orquestra de mil vozes de aves


"[...]. Esforçamo-nos de romper uma passagem por entre as hastes de arumá (Marantha) e juncos mais altos que um homem.
Ainda não vemos nada, mas já uma orquestra de mil vozes de aves que vamos ouvindo cada vez mais distintamente à medida que avançamos é prenúncio de que não voltaremos sem resultado da nossa excursão. Pouco a pouco o entrelaçado da vegetação de brejo vai ficando menos denso e assim veio o momento onde as consequências de cada passo precisam ser cuidadosamente calculadas e premeditadas.
Por entre as últimas hastes podemos descortinar um aspecto desembaraçado sobre uma laguna de savana de alguns centos de metros em comprimento por outros tantos em largura.
A cena da vida animal que ora se apresenta aos nossos olhares é tão grandiosa e imponente que todos permanecemos estupefatos, retendo a respiração, cada um perguntando a si mesmo se o que vê é real ou não será uma "fata morgana" e deslumbramento de algum sonho; [...].
O que ali está em aves do brejo e aquáticas, palmípedes e pernaltas, acumuladas em um espaço relativamente pequeno; tudo o que está ali se enlameando, chapinhando, esgaravatando, bicando, mergulhando, nadando, voando, piando, grasnando, gritando, tudo ao mesmo tempo, num fervet opus incrível, desafia qualquer descrição; diante de tais quantidades é impossível contar e dificílimo mesmo avaliar e todos os recursos da linguagem não são bastante expressivos e brilhantes para dar uma ideia do barulho, da confusão que ali reina.
Algum êxito teria talvez, no que toca à vista, o pincel de um privilegiado pintor de animais, para o qual cada pequeno trecho da paisagem diante de nós formaria um grato assunto para uma tela de real valor". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi). Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 389-390, 1902.


Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O aroma do sassafrás


"Há muito poucas flores na vegetação rasteira da floresta; elas só florescem bem no alto ou às margens da floresta, onde o sol pode alcança-las, mas há numerosas  coisas de interesse, cores variadas e folhas curiosas, trepadeiras e parasitas de estranhas formas, orquídeas, imensas árvores arqueadas, odores aromáticos ou acres, o mais comum dos quais sendo um cheiro apimentado forte que parece ser comum a muitas plantas, como a canela-cheirosa, o sassafrás e a embira-vermelha. [...]". James W. Wells (1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. Belo Horizonte, 1995. p. 135.

Sassafras albidum.
Trew, C. J. ; Ehret, G. D. Plantae selectae. v. 7: t. 70, 1765.
Desenho de G. D. Ehret


sábado, 14 de outubro de 2017

No coração da selva


"O "varador" era estreita senda que não daria passagem a um carro de bois e cortavam-no, aqui e ali, grossos troncos que haviam caído e apodreciam sem que ninguém os removesse. Dum lado e outro, a selva. Até esse instante Alberto vira apenas as linhas marginais; surgia, agora, o coração.
Era um aglomerado exuberante, arbitrário, louco, de troncos e hastes, ramaria pegada, multiforme, por onde serpeava, em curvas imprevistas, em balanços largos, em anéis repetidos, todo um mundo de lianas e parasitas verdes, que fazia de alguns trechos uma rede intransponível. Não havia caule que subisse limpo de tentáculos a expor a crista ao sol; a luz descia muito dificilmente e vinha, esfarrapando-se entre folhas, galhos e palmas, morrer na densa multidão de arbustos, cujo verde intenso e fresio nunca esmorecera com os ardores do estio. Primeiro, a folhagem seca, que cobria o chão, apodrecendo em irmandade com troncos mortos e esfarelados, dos quais já brotavam, vitoriosas para a vida, folhitas petulantes como orelhas de coelho. Alastravam, depois, as largas palmas de tajás e de outra plantaria, de tudo quanto vinha nascendo e atapetava a terra onde as árvores sepultavam as raízes. Crescia a mata até a altura de dois homens, posto um em cima do outro, e só então os olhos podiam encontrar algum espaço em branco, riscado, ainda assim, pelos coleios dos cipós que iam de tronco a tronco, fornecendo ponte a capijubas e demais macacaria pequena, que não quisesse saltar. De lá para riba abriam-se as umbelas seculares e constituíam batalhão interminável os seus portentosos cabos. E era aí que a luz dava um ar da sua graça, branqueando e tornando luzidio o pescoço de algumas árvores mais altas e restituindo, pela transparência, às asas de milhares de borboletas, as suas verdadeiras cores de arco-iris fantástico". Ferreira de Castro (1898-1974). A Selva. 2. ed. 1937. p. 92-93.


Caladium bicolor.
Hoola van Nooten, B. Fleurs, fruits e fenillages choisis de l´ille de Java- peints d´aprés nature. t. 9, 1880. www.plantillustration.org

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Uma linda flor, uma Amaryllis


"[...]. Estando próxima a volta do verão, muitas belas árvores e arbustos estavam em flor, tais como a Visnea, de folhas sedosas e brilhantes, ruivo-pardacentas na face interior; as Rhexia, de grades flores violetas; a espécie de Melastoma com folhas de um lindo branco-prateado na face inferior; as Bignonia, com os esplêndidos ramos floridos trepando e entrelaçando-se nos arbustos acima dos quais se erguia o jenipapeiro (Genipa americana) de grandes flores brancas. O tom verde-escuro natural das flores do Brasil estava então atenuado pelos tenros renovos verde-amarelados ou vermelhos; e sob todas as moitas havia uma sombra mais densa, muito amena nos grandes estios, que os mosquitos, porém, tornavam bem menos aprazível ao viajante. Uma bela flor, uma Amaryllis branca de estames purpúreos, debruava as margens do rio. [...]". Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817. 1958. p. 274.


Amaryllis vittata major.
Collectanea botanica by John Lindley. 1821.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A Amazônia que eu vi: Monte Alegre e Ereré


"Acompanhando todo o lado do norte do sopé da serra do Ereré, corre uma zona de terrenos baixos, pantanosos, atoladiços e cheios de nascentes de água, que pelo menos do lado de leste, escoam-se por um córrego, que vai ter ao igarapé do Ereré. Nessa zona cresce uma linda floresta e conheço poucos lugares mais pitorescos do que as fontes do Ereré ou os palmeirais de Urucuri, que tem aspecto de templo e ficam a oeste da vila. Faz-me virem à lembrança, como se fosse ainda ontem, os deliciosos banhos frios nessas fontes depois de muito andar e com extremo calor, por sobre os campos, ou depois de ter levado o dia todo a lutar com o entrançado Curuá dentro da bacia de areia por baixo de uma grande palmeira, com seu bojudo e espinhoso tronco, e com a esplêndida copa, cuja folhas, em forma de estrelas, se destacam pretas de encontro ao céu no por do sol; as palmeiras sentinelas com os troncos cobertos de uma multidão de fetos e as grandes folhas ligeiramente balançando-se ao sopro da deliciosa brisa; os lindos phoenacospermuns  e as luxuriantes heliconias com suas flores cor de laranja; a palmeira estrangulada no briareico abraço do Apuí que ergue a verde folhagem de seu tope por cima da emurchescida e mirrada coroa; a jarra quebrada e as cabaças por baixo da ribanceira coberta de fetos e de lycopodiuns e nas sombras da noite, que se vai fechando, vagueio pelo caminho abaixo, através da mata passando pelos cercadinhos em que as raízes de mandioca estão n´água amolecendo, e por entre as palmeiras, em que ouve-se o agudíssimo canto das cigarras, chego até a fonte de baixo, na qual um rancho de risonhas e jovens índias, com as compridas e pretas tranças ainda molhadas do banho, estão enchendo as jarras, enquanto as crianças nuas estão na água folgando, e então com o sentimento de repouso e satisfação depois de um dia de calor, vou caminhando para casa, ao repicar do sino da capela tocando a Ave Maria, e com o vivo clarão do por do sol iluminando o cume da serra, os despenhadeiros e os largos campos". Charles Frederick Hartt (1840-1878). Trabalhos restantes ineditos da Commisão Geologica do Brasil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physica do Baixo-Amazonas: Monte Alegre e Ereré. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t.2, fasc. 1-4, p. 328-329, 1898.


Heliconia rostrata.
Aquarela de Maria Werneck de Castro (1905-2000).
 Natureza viva -  memórias, carreira e obra de uma pioneira do desenho científico no Brasil. 2004.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

As garças do Marajó


"Já de longe avistamos multidões de garças de toda a espécie nas extremidades dos galhos por cima das largas copas das árvores, e quanto mais perto chegamos, maior número vemos de ninhos chatos, grandes como rodas de carros, e que aparecem como manchas escuras por entre a ramagem rala do mato.
Em cada árvore contamos dúzias deles.
O barulho torna-se cada vez mais ensurdecedor: ao penetrar na floresta julga a gente ter caído em um bródio de bruxaria.
Garças brancas, grandes e pequenas, garças morenas, arapapás, maguaris, colhereiros, cauauans, guarás, mergulhões grandes, carará, tudo ali vive em confusão, na mais variada promiscuidade, ao lado e por cima uns dos outros, na mesma árvore, na qual muitas vezes em uma só há diversas colonias de ninhos de meia dúzia de espécies. [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi), Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 390-391, 1902. 


Garças
Pintura de Jessie Arms Botke (1883-1971).
www.pinterest.com

domingo, 24 de setembro de 2017

As majestosas palmeiras miritis


"Ao longo dos furos de Breves existem aqui e acolá porções de terrenos semelhantes aos de Breves, mas, em geral as margens do rio são inundadas em cada maré cheia, e as casas espalhadas são construídas em cima de postes, que as elevam acima d´água. Os canais são estreitos, excessivamente profundos e cheios de água lodosa. Em verdade, tanto faz na maré cheia como na vazante, estão sempre entumescidos como se estivessem com uma enchente - E como é rica a vegetação que os cerca! - Encontram-se aqui trechos de mangues com sua linda e verde folhagem, com suas raízes principais arqueadas, com as pendentes radículas aéreas terminadas em tripeça e com suas sementes em forma de charutos; acolá o canal é bordado de ambos os lados por paredes de verdura, as pontas dos ramos roçam na superfície d´água na maré cheia e param as lindas balsas de ervas e do mururé de folha larga com suas flores azuis, e mais adiante por muitos quilômetros temos em frente as majestosas Miritis, com suas soberbas palmas em forma de leque, com suas folhas mortas, amarelas e pendentes, e sustentando seus pesados cachos de frutos escamosos. [...]". Orville Derby (1851-1915). Trabalhos restantes ineditos da Commissão Geologica do Brazil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physisca do Baixo-Amazonas: A Ilha de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 2, fasc. 1-4, p. 174-175, 1898.



Palmeiras Miriti ou Buriti
Desenho de Taunay.
Expedição Langsdorff ao Brasil (1821-1829)