domingo, 24 de setembro de 2017

As majestosas palmeiras miritis


"Ao longo dos furos de Breves existem aqui e acolá porções de terrenos semelhantes aos de Breves, mas, em geral as margens do rio são inundadas em cada maré cheia, e as casas espalhadas são construídas em cima de postes, que as elevam acima d´água. Os canais são estreitos, excessivamente profundos e cheios de água lodosa. Em verdade, tanto faz na maré cheia como na vazante, estão sempre entumescidos como se estivessem com uma enchente - E como é rica a vegetação que os cerca! - Encontram-se aqui trechos de mangues com sua linda e verde folhagem, com suas raízes principais arqueadas, com as pendentes radículas aéreas terminadas em tripeça e com suas sementes em forma de charutos; acolá o canal é bordado de ambos os lados por paredes de verdura, as pontas dos ramos roçam na superfície d´água na maré cheia e param as lindas balsas de ervas e do mururé de folha larga com suas flores azuis, e mais adiante por muitos quilômetros temos em frente as majestosas Miritis, com suas soberbas palmas em forma de leque, com suas folhas mortas, amarelas e pendentes, e sustentando seus pesados cachos de frutos escamosos. [...]". Orville Derby (1851-1915). Trabalhos restantes ineditos da Commissão Geologica do Brazil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physisca do Baixo-Amazonas: A Ilha de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 2, fasc. 1-4, p. 174-175, 1898.



Palmeiras Miriti ou Buriti
Desenho de Taunay.
Expedição Langsdorff ao Brasil (1821-1829)

domingo, 17 de setembro de 2017

A bonita palmeira Jará


"[...]. Aqui vemos, também pela primeira vez, a bonita palmeira Jará, espécie de tamanho moderado, com estípite delgado e gracioso, folhas pendentes. Explorando mais adiante, encontramos um pequeno lago, de no máximo meia milha de diâmetro, todo circundado de declives fortes, exceto onde este barranco o separa do rio. Um córrego diminuto serpeia por sobre a areia e a argila, com cascatas aqui e ali, talvez a queda total possa ter vinte pés. Os camaradas chamam-no de lago de Água Preta; a água é verde escura, muito límpida e profunda, e reflete as colinas revestidas de mata que a circundam e as palmeiras caraná e javari; é tão diferente dos lagos rasos da várzea, como o Tapajós o é do Amazonas. O Lago de Tapary é, como este, um verdadeiro lago de terra firme. Ricardo afirma que em ambos encontram-se pirarucu, mas que a água é demasiada profunda para boa pescaria. [...]. Herbert Smith (1851-1919). Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 184.



Astrocaryum jauari e Leopoldinia pulchra. Palmeiras Jauari e Jará.
Martius, C. F. P. von. Historia Naturalis Palmarum, v. 2, t. 52, 1839.
www.plantillustration.org

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A rica vegetação da floresta amazônica


"O maior rio do mundo corre através da sua maior floresta. Imagina, se podes, dois milhões de milhas quadradas de floresta ininterrupta, exceto pelas correntes que a percorrem, pois os campos que aparecem esparsos, aqui e acolá, são tão insignificantes que eu acredito que faria maior vazio o corte de um único carvalho na maior floresta da Inglaterra do que qualquer destes campos na imensa selva amazônica. Ficas, portanto, preparado para saber que quase todas as ordens de plantas contam árvores aqui entre os seus representantes. Há gramíneas (os bambus) de 40, 60 pés e mais de altura, às vezes eretas, outras formando um intrincado de ramos espinhosos, nos quais nem o elefante poderia penetrar. Verbenas formando árvores copadas, de folhas digitadas como as dos castanheiros da Índia. Polígales que são robustas trepadeiras lenhosas, subindo até a copa das árvores mais altas, enfeitando-as com os festões de perfumadas flores que não são delas. No lugar das tuas pervincas encontramos aqui belas árvores exudando leite, às vezes salutífero, outras violentíssimo veneno e dando frutos com as mesmas propriedades. Há violetas do tamanho de maceiras; malmequeres, ou que podiam parecer malmequeres, desabrochando em árvores do porte do almieiro. As mirtáceas são excessivamente numerosas e notáveis por suas flores efêmeras e simultâneas: hoje todas as de determinada espécie estão cobertas de nevadas flores perfumosas, amanhã já não se vê nem mais uma flor. Outro grupo, sem nada que possa ser comparado na flora européia, é o das melastomáceas, tão abundantes como as murtas e muito mais rico em espécies. Estas duas famílias, e mais as solanáceas e lauráceas, formam a massa da vegetação que se vê na vizinhança das cidades. Mas de todas a mais abundante é a das leguminosas, entre as quais estão as árvores mais nobres da floresta virgem, alguns dos frutos mais deliciosos, alguns dos piores venenos". Richard Spruce (1817-1893).

In: MELLO-LEITÃO, Cândido de. A vida na selva. 1940. p. 6-7.


Parkia discolor (Leguminosae).
Viagem Philosophica. Alexandre Rodrigues Ferreira. Florestas do Rio Negro. 2001.




sábado, 9 de setembro de 2017

Richard Spruce no meio da floresta


"Podiam-se consumir horas na derrubada de uma única árvore. O gigante que caía arrastava então outras na sua queda, vindo no seu séquito uma como desgrenhada cabeça de epífitas e parasitas. Orquídeas havia em barda; havia também colossais ciclantos com suas folhas bífidas e flabeliformes, imensamente largas. Os cipós que se estendiam de uma árvore a outra, vinham abaixo com as massas que caíam carreando na queda os parasitos como se fossem cordas de sino. Spruce recolhia as várias espécies que engrinaldavam uma única árvore. Havia a salsaparrilha, uma liana importante no comércio do seu tempo; havia a yuruparipina, anzóis do diabo, com largos espinhos agudos que podiam ferir seriamente uma pessoa. Ninhos de térmites, os quais tinham uma cor marrom, térrea, tombavam com as árvores. Choviam-lhe formigas sobre a cabeça. O baque de uma árvore desencadeava um verdadeiro pandemônio na floresta. Os macacos primeiro soltavam guinchos e corriam, depois voltavam para esganiçar. Papagaios verdes e vermelhos soltavam gritos estridentes; tucanos de bico de cores variegadas desciam voando para  investigar a causa de toda aquela algazarra.
De resto a mata jamais ficava perfeitamente silenciosa. As cigarras ziziavam continuadamente enchendo toda a selva com o seu ruído. Logo se lhes vinham juntar as rãs com o seu coaxo tão persistente que Spruce tinha impressão de estar no interior de uma forja. O ar parecia vibrar com o rítmico clangor. O botânico não se queria apartar tão depressa daquela floresta encantada, mas o capitão estava impaciente. Foi com relutância que voltou para o navio. O Três de Junho ia continuar a sulcar as águas do Amazonas". Victor W. von Hagen. A América do Sul os chamava. [19--?.]. 266-267.


Tronco com flores e parasitas.
Ilustração de Margaret Mee.




domingo, 3 de setembro de 2017

A espinhosa "jacitara"


"Em alguns lugares, pequenos igarapés, ou riachos florestais, são quase inteiramente tomados por várias gramíneas trepadeiras e plantas rasteiras, entre as quais a "jacitara" ocupa um lugar proeminente e é a montante destes riachos que os índios frequentemente se deleitam em fixar residência. Em tais casos, eles nunca cortam inteiramente um ramo, mas passam e repassam diariamente em pequenas canoas que se insinuam como serpentes entre a emaranhada massa de vegetação espinhosa. Estão, portanto, quase seguros contra as incursões dos negociantes brancos, que frequentemente os atacam em seus refúgios mais distantes, levam fogo e espada para dentro de suas pacíficas casas e tornam cativos as esposas e filhos. Mas poucos homens brancos conseguem penetrar por muitos quilômetros ao longo de um pequeno e tortuoso riacho como o aqui descrito, onde não é encontrado nenhum galho quebrado ou ramo cortado que revele que algum ser humano já tenha alguma vez passado. Portanto, a espinhosa "jacitara" de fato ajuda a defender a independência do índio selvagem nas profundezas das florestas que ele adora". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Palmeiras da Amazônia e seus usos. 2014 p. 101.


Desmoncus sp.
 Carl Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum 1823-1850

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Vegetação do igapó


"[...]. Deixando de lado, porém, as regiões limitadas de campos, reinam em toda parte as associações florísticas típicas do igapó, da várzea e da terra fire. O caçador usa a canoa para ir à sua caça no mato. Através de tapetes flutuantes de lentilhas d´água os índios empurram a sua canoa; talvez eles atravessem uma lagoa na qual as folhas gigantescas da Vitória régia cobrem a superfície quase por completo. Depois procura-se um lugar raso na beira para encostar. Atravessando camadas de lama entre aróideas (hoje aráceas) e espécies de Amaryllis chegamos à vegetação do igapó. Diversas plantas de Ciperáceas e de espécies de cana circundam-nos. Árvores delgadas de Cecropia erguem-se ao céu por cima de folhagem rala, e, logo quando avançamos vagarosamente por um solo mais sólido de várzea, cingem-nos moitas densas de arbustos muitas vezes espinhentos. Palmeiras movimentam as suas palmas ao vento, e, aqui e acolá, transpomos troncos de árvores caídos e em decomposição. Ali aparece uma árvore grande e de alto porte, ancorada com sapopemas, e nos cipós, dela pendentes, iguais a cabos grossos, trepam enormes Philodendrons, enquanto que nos seus galhos crescem frondosamente orquídeas e bromeliáceas. [...]". Hans Bluntschli (1877-1962). A Amazônia como organismo harmônico. 1964. p. 23.



Cattleya superba splendens.
Nativa do Brasil. Região do Rio Negro.
 The Orchid album comprising coloured figures and descriptions of new, rare and beautiful orchidaceous plants. v. 1, 1882.
www.biodiversitylibrary.org

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Um tucano domesticado


"Certo dia, caminhando pela estrada principal das matas de Ega, vi um destes tucanos pousado gravemente em ramo baixo e não tive dificuldade em agarrá-lo com a mão. Parecia ser ave domesticada, fugida, mas ninguém veio reclamá-lo, embora eu o tivesse guardado em casa vários meses. A ave estava faminta e doentia mas depois de alguns dias de boa vida, recobrou a saúde e vivacidade e tornou-se o mais divertido dos companheiros. Publicaram-se muitas excelentes narrativas sobre os costumes dos tucanos mansos e, portanto, eu não os descreverei com minúcias, mas não me lembro de ter visto qualquer notícia sobre a sua inteligência e confiante disposição, quando domesticados, qualidades que no meu pareciam quase iguais às dos papagaios. Eu deixava o Tucano andar livremente pela casa, ao contrário do que costumava fazer com os outros animais amansados. Nunca mais subiu em cima de minha mesa de trabalho, depois de correção severa que recebeu, da primeira vez que o fez. Costumava dormir na tampa de uma caixa, num canto da sala, na posição habitual dessas aves - com a longa cauda deitada sobre o dorso e o bico escondido sob as asas. Comia de tudo o que comíamos: carne, tartaruga, peixe, farinha, frutas e era comensal constante em nossa mesa - uma toalha estendida sobre a esteira. O apetite era dos mais vorazes e o poder de digestão admirável. Aprendeu a conhecer com precisão as horas das refeições e depois das duas primeiras semanas era muito difícil conservá-lo  longe da sala de jantar, onde se tornava muito imprudente. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944. v. 2, p. 326-327.



Tucano
Arte de Robert Bateman