sábado, 16 de junho de 2018

Lançamento do Livro Amazônia Exótica: curiosidades da floresta v. 2

Prezados amigos

Na próxima quarta-feira, dia 20 de junho às 19:00h será lançado o segundo volume do livro Amazônia Exótica: curiosidades da floresta.
O livro é o resultado de muitos anos de pesquisa junto ao valioso acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna, conhecida também como"Biblioteca do Museu Paraense", fundada no final do século XIX e conhecida internacionalmente.
Para este volume foram selecionados 57 espécies da fauna e da flora da Amazônia, procurando descrever algumas curiosidades como a etimologia do termo, nomenclatura científica, lendas relacionadas, relatos de viajantes e naturalistas que por aqui passaram.
O livro também apresenta um Glossário contendo algumas palavras regionais que aparecem no texto, uma breve biografia de alguns naturalistas e viajantes e uma relação bibliográfica com os livros consultados.

O objetivo é resgatar a história natural e a fantasia que envolvem essa região exótica e misteriosa.


Obrigada!

Olímpia Reis Resque









Um forte temporal


"Passamos esta noite por um grande susto. Já estávamos deitados quando se desencadeou forte temporal, com trovões reboantes e largas lufadas de vento. O nosso primeiro pensamento foi para a canoa, amarrada à beira do rio. E se viéssemos a perde-la? Às pressas, saltei da rede e munido da lâmpada de mão, na companhia do Vicente, joguei-me barranca abaixo. Felizmente, lá estava o nosso barquinho, mas, por precaução reforçamos-lhe o cabo, prendendo-o bem ao tronco de um araçazeiro.
Enquanto isso, o Sampaio providenciava para recolher as nossas redes, pois dormíamos ao relento e a chuva já começava. Como àquela hora e entre tanta treva, não era possível pensar em armar qualquer abrigo, metemo-nos todos sob o toldo, que protegia a bagagem, e a maior parte da noite passamos assim, deitados sobre o chão e encolhidos entre sacos, latas e panelas isso serviu-nos de lição e hoje deliberamos que, daqui  por diante, mesmo que o tempo esteja firme, nunca mais deixaremos de ter preparado algum refúgio, quando não o toldo grande, ao menos a barraquinha da botânica". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 4. ed. ilust. 1954, p. 244.



Acampamento na floresta
Alcide D’Orbigny (1802-1857). Viagem pitoresca através do Brasil. 1976.
 


quinta-feira, 7 de junho de 2018

A floresta e suas plantas aéreas


"O aspecto mais surpreendente da floresta é, talvez, representado pelas plantas epífiticas, aéreas e parasitas. O fraco envolve o forte, dos pés à cabeça, em eriçadas massas ascensionais e o esconde em pilares de verdura, semelhantes aos ciprestes. Mesmo os mortos são abraçados pelos vivos que os galgam, agarram, abraçam, sufocam e sobem até o alto, para cultuar de mais perto possível o Sol e o Éter. Todo tronco alto, magro, cadavérico, esbranquiçado com a idade e chorando tristemente suas glórias passadas, é cingido e coberto de folhas, abafado e coroado com uma planta estranha, que suga, como vampiro, sua seiva, até que essa se misture com a sua. As menores fendas ou irregularidades no tronco ou as axilas das folhas são imediatamente aproveitadas pelo estranho, que vive à custa da árvore e assiste à sua morte. Cada ramo nu é ocupado por linhas de flores vistosas e folhas viçosas de brilho metálico. Assim, cada venerando ancião da floresta  virgem é convertido em uma estufa, um jardim botânico, um pequeno mundo, contando com uma grande variedade de gêneros e espécies, admiráveis na diversidade do aspecto, e vestidas de centenas de cores - e, em verdade, pode-se dizer que, aqui, um simples tronco apresenta formas mais variadas que uma floresta na Europa". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 1976. p. 251-252.


Martin Johnson Heade (1819-1904)
 www.pinterest.com

domingo, 3 de junho de 2018

As grandes e belas folhas das helicônias

"[...]. Nos sítios abaulados elevam-se em grupos unidos sobre longos pecíolos as grandes e belas folhas elípticas das helicônias, que algumas vezes têm oito ou dez pés de altura, e são ornadas de flores exóticas encarnadas e cor de fogo. No ponto em que se dividem os ramos das maiores árvores, crescem enormes bromélias, com flores em espigas ou em panículas, de cor escarlate ou de coloração igualmente belas. Delas descem grossos tufos de raízes semelhantes a cordas, que chegam até ao chão e constituem novos obstáculos aos viajantes. Estes talos de bromélias cobrem as árvores até que elas morram depois de longos anos de existência, e desarraigadas pelo vento, caiam por terra com grande barulho. Milhares de plantas trepadeiras de todas as dimensões, desde a mais delgada até a da grossura da coxa de um homem, e cuja madeira é dura e compacta, bauínias, banistérias, paulínias e outras, se enlaçam ao redor das árvores elevando-se até os seus cimos, onde florescem e dão seus frutos, sem que o homem possa percebe-los. Alguns destes vegetais têm uma forma tão singular, por exemplo certas banistérias, que não podemos vê-las sem espanto. Algumas vezes o tronco em torno do qual estas plantas se enroscam, cai em pé, então veem-se talos colossais, enlaçados uns com outros, sustendo-se em pé e facilmente se percebe a causa deste fenômeno. Seria muito difícil pintar estas florestas, porque a arte será sempre insuficiente para descrevê-las.
Mas após ter visto os grandes deste vasto quadro, se dermos atenção às particularidade, maior há de ser a admiração A variedade das árvores reunidas em um pequeno sítio maravilha sempre o europeu; e, como disse um sábio observador, não é sem surpresa que se pode avaliar em 60 ou mesmo em 80 o número dos grandes vegetais de espécies diferentes, que é provável encontrar em um quarto de légua quadrada". Ferdinand Denis (1798-1890). Brasil. 1980. p 72-73.


Heliconia farinosa.
Edwards´s Botanical Register. v. 19, t. 1648, 1835.
Desenho de S. A. Drake
www.plantillustrations.org

domingo, 27 de maio de 2018

Um bruto pé-d´água


"O piloto é quem manda na canoa. Decide as pendências e desempata as teimas. Ninguém pode discutir com ele. No melhor da viagem, caiu um bruto pé-d´água. O patrão da navegação tinha avisado: -"Vamos ter uma boa carga d´água. Trovoada ainda está na boca do rio e eu já sinto ela aqui na minha caruara. A junta é sinal certo"... Mal sentiram no lombo os primeiros pingos, os canoeiros começaram a gritar num alarido dos infernos: - "Mandaí! Mandaí! Mãe de Deus! bem grossa e aturada, pra mim e mais vinte camaradas! " A chuva braba fazia um fragoído de tempestade no meio do rio. E o esturvo do trovão abalava a mataria molhada, onde os coriscos, riscando o céu, de vez em quando toravam um pau. Mas quem viaja no inverno está sujeito aos caprichos do piloto. Divisamos de longe, num barranco, a barraca de um seringueiro. - "Vamos amarrar ali, seu piloto?"  - "Não, que eu não peço arrancho a peste de seringueiro!" E a canoa encostou na mata bruta  onde todos passamos a noite, debaixo das árvores encharcadas, aguentando o açoite da chuva e da ventania, os pés empapados na lama, e nos ouvidos o azucrim dos carapanãs. E de madrugada, dançando no visgo escorregadio do tijuco, descemos todos a barranca, para tomar de novo a canoa e continuar viagem rio abaixo. [...]. Peregrino Junior. A mata submersa e outras histórias da Amazônia. 1960. p. 178.



A chuva chegando
Baía do Guajará - Belém-Pará-Brasil
Fotografia de Juliana Resque Campos




Vocabulário Amazônico


CARUARA - Achaques, dor pelo corpo, indisposição, quebranto. Aplicam muito nas dores reumáticas. (Raimundo Morais. O meu dicionário de cousas da Amazônia.2013).






sexta-feira, 18 de maio de 2018

Plantas aquáticas flutuantes


"Entramos em seguida por um braço estreito do riacho, cujas águas estavam repletas de certas plantas aquáticas flutuantes que se aglomeravam em grandes massas flutuantes. A falta de vento obrigou-nos a remar, até que as ervas passaram a ser tão consideravelmente espessas que bloqueavam o canal inteiramente, tornando os remos inúteis. Os índios então desceram em terra e cortaram duas compridas varas com forquilhas. De fato, a massa vegetal era tão espessa que nela podíamos encontrar um firme apoio para as varas, conseguindo assim prosseguir. De vez em quando entrávamos em águas desimpedidas, remando então por entre exemplares de Utricularia e de Pontederia muito bonitas. Mas logo depois adentrávamos em trechos nos quais o canal estava completamente obstruído pelas ervas. As gramíneas eram por vezes tão altas que virtualmente desaparecíamos dentro delas. O pior de tudo era o fato de serem as folhas muito cortantes, bastando roçar a mão nelas para que nos lanhássemos dolorosamente. Dos lados do canal estendiam-se terrenos semi-inundados, recobertos por relvas. Era o campo, que se transforma num verdadeiro lago quando começa a estação chuvosa. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979.


Pontederia.
Trew, C. J. Ehret, G. D. Plantae selectae quarum imagines ad exemplaria naturalia Londinei in hortis curiosoum nutrita. 1750-1773.
www.biodiversity.org

sábado, 12 de maio de 2018

Jutaí (Hymenaea courbaril)


"Os galhos lá em cima douram-se com os últimos raios do sol: finas folhas enevoadas de murtas e acácias. Creio que foi Humboldt quem primeiro fez notar o efeito peculiar dessas folhas pinadas, uma feição notável das florestas tropicais. Há em torno de nosso acampamento uma vintena de espécies; um esplêndido bosque se estivesse em outro lugar. Minha rede está amarrada a um jetaí, [...], madeira forte e durável mas muito dura para muitos fins.
Os frutos ovais, castanhos, estão espalhados pelo chão; cascas duras, com as sementes envolvidas numa farinha doce. Uma resina pegajosa exuda do seu tronco; os índios usam essa jetaícica [...]  para envernizar seus potes e louças de barro e queimam a cerâmica em fogo alto feito com casca de jetai. [...]". Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, Nelson; OVERAL William L. Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011. p. 162-163.



 Jutaí. ou Jetaí. (Hymenaea courbaril) .
Jacquin, N. J. von. Selectarum  stirpium Americanarum historia.  t. 264, fig. 95, 1780-1781.
 www.plantillustrations.org.