sábado, 29 de outubro de 2016

Uma noite agradável


"Começando a anoitecer, dirigi-me pela restinga pedregosa que forma o canal, aí então totalmente seco, e me dirigi para a praia onde ficara a canoa. Quando aí cheguei, já a minha rede estava armada em duas magníficas árvores, e junto dela a minha arma de dois canos. Na parte mais sombria da floresta, num ponto de onde se avistava a canoa, o meu piloto escolheu para nossa dormida.
A frescura, o som nunca interrompido da cachoeira, a lua que magnífica ecoava sua luz por entre a folhagem, o cri-cri-cri dos insetos e a voz sonora de um caprimulgus que animava a natureza, fizeram-me gozar de uma das noites mais belas da vida nas regiões equatoriais.
Ao romper d´alva do dia 13, os cantos e gritos de bandos de araras, papagaios e maracanãs, que por sobre a minha cabeça passavam para irem para a comedia vieram despertar-me. Uma frescura agradável me convidava a um passeio, pela mata, o que fiz, aproveitando o tempo em que às costas se carregava a bagagem para a praia da mesma ilha oposta à em que eu dormira e acima da cachoeira do Coatá. Pelas 8 horas, porém, tive de embarcar para descer o canal, por onde na véspera subira, para entrar na cachoeira". J Barbosa Rodrigues (1842-1909). O Rio Tapajós. 1875, p. 90.
 
 
 
 
João Barbosa Rodrigues
(1842-1909)
Desenho de M. Medina



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pequeninos e mimosos colibris


"[...]. Um vento suave fazia ondular as canaranas à margem do rio e as copa das árvores pareciam inundadas pela luz do sol, anunciando uma jornada de intenso calor. Dentro da mata ribeirinha a algaravia de inúmeros pássaros canoros, chegava aos nossos ouvidos como um grande coro de gorjeios, a espaços mesclados aos pios das grandes aves, como mutuns, os jacamins, os aracuãs, as formidáveis arapongas (verdadeiros ferreiros das florestas) e tantas outras. E, onde existisse uma flor, a todo o instante aí surgiam os pequeninos e mimosos colibris, de variadas cores brilhantes, delicadas e formosas avezinhas que são um encanto da Natureza, a esvoaçarem rápidas, ligeiras, em torno das flores cujo néctar suga com os seus longos e pontudos biquinhos, pairando a intervalos como se estivessem flutuando no ar, dando-nos a aparência duma absoluta imobilidade, traída somente pelo ruflar elétrico daquelas minúsculas asinhas... invisíveis motores celestiais. Para além, emergiam do brilhante espelho das águas as rudes cabeças dos terríveis sáurios, cujos corpos escuros semelhavam ilhotas ou troncos de árvores arrastados pela correnteza". Eduardo Barros Prado. Eu vi o Amazonas. 1952, p. 298-299.
 
 
 
Colibris
 Campylopterus obscurus.
John Gould. A Monograph of the Trochilidae or Family of Humming Birds. 1855-1861.


domingo, 23 de outubro de 2016

As arirambas de jaqueta verde


"[...]. E começa a luta pela vida. Passam alto os bandos de marrecas, irerês, os casais de patos, e ainda mais madrugadores, toda a barulhenta família dos psitacídeos.
Os macacos voltam a sacudir os galhos, espiando-nos inquietos e curiosos. As arirambas de jaqueta verde e colarinho branco, passam chiando a intervalos regulares, e vão pousar em galho horizontal a pouca altura, perscrutando  a água na expectativa de quebrar o jejum. Os botos róseos ou iaras mal afamados, surgem resfolegando, no seu característico modo de nadar. As monstruosas piraíbas, dão saltos espetaculares, tombando num lençol de espuma e deixando na superfície, a estenderem-se por dezenas de metros, a sucessão de círculos concêntricos. Francisco de Barros Junior (1883-1969). Caçando e pescando por todo o Brasil. 5a. série Purus e Acre, [s.d.]. p. 41-42.
 
 
 
Ariramba ou Martim-pescador
Eurico Santos. Da ema ao beija-flor. 1979.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


domingo, 16 de outubro de 2016

Um concerto discordante de perfumes e cores



[...]. Na frente do sítio, num terreno geralmente varrido, limitado no fundo pela casa e dos lados pelo rancho do forno e pelo tendal, cresciam algumas árvores frutíferas e arbustos floríferos, como laranjeiras, um pé de sapotilheira, um outro de cupuaçuzeiro, jasmineiros brancos e de Caiena, um coqueiro cujos cocos eram exclusivamente consagrados a Santo Antônio, e uma cuieira copuda, ameaçando com seus enormes frutos esféricos a segurança de uma canoa velha erguida do chão por quatro paus, cheia de terra, onde cresciam, como num canteiro suspenso, melindres, malmequeres, manjeronas, trevos, perpétuas, cravinas e outras flores vulgares, num concerto discordante de perfumes e cores. José Veríssimo (1857-1916). Cenas da vida amazônica. 2011, p. 11.

 
 
Cuieira
Curti´s Botanical Magazine, t. 3374-3457,  1835.
Desenho de Horsfall.
http plantillustrations.org.
 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Borboletas amazônicas


"É tão excepcional o aspecto miraculoso do mundo amazônico, que os próprios sábios, no meio das frias deduções científicas, sentem-se arrebatados, de vez em quando, para os domínios da fantasia, como se estivessem subindo a luminosa escada de Jacó de um grande enlevo poético.
Foi o que aconteceu a Frederico Hartt, ao descrever complicada geologia amazônica. Quando se viu, inesperadamente, alcandorado nas regiões do sonho, ele próprio advertiu-se de que devia voltar à realidade, dizendo que não era poeta, e devia por isso, falar a prosa desataviada de uma ciência.
A mesma coisa deve ter acontecido a Emílio Goeldi, quando viu, na Amazônia, pela primeira vez, o espantoso fenômeno migratório das borboletas.
Já anteriormente, o naturalista Bates, no Baixo Amazonas, sentira-se maravilhado com um espetáculo semelhante. Durante um percurso de oitenta milhas, viu sempre a fervilhar no espaço, miríades de borboletas, em bandos de trinta e oitenta metros de largura, atravessando continuadamente, o rio. Igual deslumbramento teve Spruce na barra do rio Xingu.
Esse magnífico espetáculo, do extraordinário paná-paná  amazônico, tem causado a maior admiração a todos os homens de ciência que perlustram pela Amazônia.
E o antigo diretor de nosso museu, afirma que na Europa, a aparição de tais fenômenos, aliás sobremodo reduzidos, é registrada pela imprensa, "como uma curiosidade a toda prova", ao passo que na nossa Região, esses movimentos migratórios, além de serem comuns, assumem proporções inconcebíveis.
No volume 4o. do Boletim do Museu Paraense, Emílio Goeldi descreve um grandioso paná-paná que tivera oportunidade de observar quando viajava pelo rio Capim.
Desde o amanhecer até o meio-dia, via-se subir, continuamente, por uma das margens do rio, uma formidável coluna de borboletas amarelas, pertencentes, na sua maioria, à família dos pierides.
Parecia que enorme multidão de lepidópteros não tinha começo nem fim e que a todo momento novos contingentes surgiam sem se saber de onde.
Do meio-dia em diante, porém, até a tardinha, a enorme e inquieta caravana descia pela margem oposta. Por vezes, o vapor em que ele viajava era envolvido, horas a fio, numa fantástica profusão de asas trêmulas, como se estivesse debaixo de uma doirada chuva de pétalas animadas.
Durante toda a viagem, que durou quase uma semana, o eminente naturalista presenciou, diariamente, esse soberbo espetáculo. De vez em quando, do grande exército alado, destacavam-se fortes colunas que se internavam na mata, de onde já vinha surgindo outros pelotões para se incorporar na coluna central que voava sobre o rio. Esses destacamentos parciais que ingressavam na floresta iam sugar o mel das flores do Arapari, imensa árvore que viceja nas selvas marginais dos rios.
Em quase toda a Região Amazônica, os movimentos migratórios de borboletas operam-se de junho a julho.
E esse turbilhão de asas palpitantes, numa louca inquietação febril, entre continuados banquetes de mel e perfume, celebra, anualmente, no seio das matas amazônicas, a festa perene do amor e da alegria.
Dizem os entomologistas, que a Amazônia não é somente o paraíso das borboletas, mas a única parte do mundo onde se encontram os mais raros e belos  exemplares destes insetos e o maior número de espécies. E em verdade, nas grandes monografias de História Natural, as páginas mais brilhantes sobre o colorido capítulo dos lepidópteros devem pertencer, inquestionavelmente, à Região Amazônica. [...]. Eidorfe Moreira (1912-1989). Obras reunidas de Eidorfe Moreira. 1989, v. 1, p. 49-51.
 
 
 
Borboletas.
Aquarela e grafite sobre papel de Henry Walter Bates (1825-1892)  - 1851-1859.
Original da viagem à Amazônia com Alfred Russel Wallace.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Os sons da vida na floresta tropical


"Após diversos dias em Gleba Arinos, iniciamos nossa subida pelo rio a bordo da pequena lancha Santa Rosa. Na primeira noite em que navegamos no Arinos dormi pouco, apreciando os diversos sons da água e da vida na floresta tropical. Logo após o amanhecer, começamos a descer o rio, que gradativamente perdia seu aspecto plácido e tornava-se mais belo e dramático. O rio era pontilhado por inúmeras ilhas e um grande conjunto de enormes pedras submersas, das quais brotavam plantas aquáticas cor-de-rosa. Essas pedras mostravam claramente a alteração do nível das águas nas estações de chuva - brancas abaixo da linha da água e negras acima desse nível.
O rio transbordava de mergulhões, que mantinham suas cabeças negras e bicos amarelos ligeiramente acima da superfície. Ao anoitecer, araras nos sobrevoavam aos pares, com suas plumas brilhando pelos raios vermelhos do sol. Cegonhas silenciosas e solitárias, de enormes asas, voavam para suas sombrias casas na floresta. Colhi uma linda Galenadra juncoides  na junção desse rio com o rio Alto Juruena.
Minhas descobertas tornaram-se ainda mais interessantes quando passamos no Alto Juruena: Heliconias, Catasetums, Brassavolas e Tillandsias surgiam uma após a outra. Árvores espetaculares - Bombacácea e Bignoniácea - surgiam da folhagem escura da floresta como gigantes cintilantes sem folhas, troncos brancos e brilhantes com ramos estendidos. Ipês-amarelos e Bombax vermelhos floresciam, e da copa escura de uma das árvores pendiam franjas de flores vermelho-escuras". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 22.
 

 Catasetum fimbriatum.
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da Floresta Amazônica. 2010.