quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

C. Fr. von Martius e as aves


"Centenas de róseos colhereiros (Platalea ajaja L.) perfilavam-se reunidos ao longo da margem e caminhavam lentos na água procurando alimento com o bico sôfrego. Em água mais funda, andam ali ao redor alguns graves jaburus e tuiuiús [...], perseguindo os peixes, com os compridos bicos. Numa ilhota, sita em meio da lagoa, acampam densos bandos de marrecas, paturis, patos grandes e frangos-d´água [...], e imúmeros  pavãozinhos voavam rápidos, em círculos, sobre  a fímbria da mata, ativos na caça aos insetos. Ressoam aqui, na mais alvoroçada  celeuma, chiados estridentes, chilreios dos mais diversos gêneros de aves, e, quanto mais observávamos o raro espetáculo, em que as aves, com a inata independência, representavam o seu papel no drama  da natureza, tanto menos  vontade sentíamos de perturbar, com mortíferos tiros, aquele cenário palpitante da vida. Avistamos mais 10.000 animais reunidos, cada um dos quais ocupado, segundo o natural instinto, no cuidado  da própria subsistência. Parecia-nos ter a visão de um renovado quadro da criação do mundo, e esse maravilhoso espetáculo nos teria ainda mais agradavelmente impressionado, se não nos ocorresse o pensamento de que a guerra, a eterna guerra, era a solução e misteriosa condição de toda existência animal. As inúmeras espécies  de aves aquáticas do brejo e do rio aqui se agitavam, umas no meio das outras, descuidadas, perseguindo cada qual o seu gênero de insetos,  rãs e peixes, cada qual sendo procurado por seu gênero de inimigo". J. B. von Spix (1781-1826); C. Fr. von Martius (1794-1868). Viagem ao Brasil. 1938, v. 2, p. 190-191.
 
 
 

C. von Martius (1794-1868) mostrando as aves em floresta brasileira.
Brasilien Entdeckung und Selbstentdeckung. 1992.


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