quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Rua dos Mercadores



"[...]. Belém, naquele tempo, se expandia vagarosamente. Da clareira da Matriz de N. S. da Graça, becos, ruelas, veredas, trilhas marginavam paralelas ao rio; outras penetravam à mata, abriam caminhos normais ao litoral. Surgiam as primeiras ruas como setas de uma estrela nas quatro direções da urbe que dava seus passos iniciais. Uma descida do “largo” procuraria vencer o pirizal em demanda da outra margem permitindo, ao colonizador, atingir o caminho certo que o levaria ao convento dos Capuchos de Santo Antônio, situado nos confins da cidade, ou o da praia que terminava nas instalações humildes dos Mercedários. Era a avançada para as terras da Campina que, desde cedo, encantaria aos heróis de nossa formação.
Saindo da “cidade” propriamente dita, necessariamente, ter-se-ia que vencer a baixada na foz do Piri, transpondo-a pelas palafitas de uma ponte improvisada, lateralmente solta, presa às amarras de tronqueiras e cipós que constituíam sua estrutura empírica, garantindo sua segurança e a dos moradores. Da calçada do Colégio o rumo era um só: atravessar essa “pinguela” indígena, penetrar nos caminhos dos frades que acompanhavam os tijucais da margem mole do rio desde a casa do “Ver-o-Peso” as tendas humílimas dos Mercedários e daí seguir, subindo, à Misericórdia, para vislumbrar, distante o velho hospício dos Capuchos onde eles viviam à sombra de suas taipas brancas e acolhedoras.
Exatamente, dessa entrada à margem do igarapé do Piri, entre o “Ver-o-Peso” e as “Mercês”, o povo, na sua sublime  simplicidade e inspiração, naquela época recuada de nossa história, fixada com absoluta autenticidade o nome, a denominação da artéria que nascia: a Rua dos Mercadores!
A partir da metade do século XVIII, tornar-se-ia, Rua da Cadeia, em razão da construção do novo prédio para a casa, da Câmara e Cadeia, quando, a voz popular, logo a batizaria com essa designação. Hoje, é a tão querida e mais importante rua do comércio de Belém, em todos os sentidos de seu gênero a atual rua do Conselheiro João Alfredo – ou qualquer outra designação que se lhe queira atribuir – ela o será na sua paisagem secular e no seu espírito urbano a velha e intangível Rua dos Mercadores, a mesma que os nossos  antepassados edificaram do nada. Agora e sempre, em cada lajedo de cantaria, em cada esquina solitária, em cada arcada centenária, mercadeja-se como nos primeiros tempos. [...]".

Augusto Meira Filho
Contribuição à história de Belém. 1973, p. 186-187.
 
 
 
 
Rua Conselheiro João Alfredo.
 Nesta fotografia avistam-se os prédios do Banco do Pará e a Livraria Universal.
BELÉM da Saudade: a memória da Belém do início do século XX em cartões postais. 4. ed. 2014.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - MPEG
 

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