sábado, 22 de março de 2014

Viajantes: Araponga


"De todos os nomes dados a esta ave pelos naturais, nenhum melhor que o de ferreiro, pois este lhe adveio do canto, de força expansiva extraordinária, imitando exatamente o ruído que faria o ferreiro com a ajuda de lima e a seguir de um martelo vibrado na bigorna.
Pode-se representar tais ruídos pelas sílabas: kick-kok-kok-koch-gur-gurr-r-r, a primeira rouca e breve, as outras longas, escapando-se por intervalos, as últimas, fora do alcance descritivo, são sonoras, metálicas e prolongadas, acabando de forma decrescente até desaparecer.
Tal reunião de acentos produz efeito singular.
A ave tendo o hábito de se fazer ouvir precisamente em hora em que o sol rutila em toda sua pujança, interrompe assim o silêncio que o próprio calor parece impor às demais aves.
No decorrer da estação seca, a araponga emigra para o norte, ou como o rouxinol da Europa, perde a faculdade de cantar, pois cessamos de ouvir-lhe o canto.
Entretanto, logo aos primeiros dias da primavera, quando a vegetação sombria do inverno recobre-se dum ligeiro manto de mais suave matiz, a voz, a princípio tímida e mal segura da araponga, é o primeiro sinal que anuncia esse acontecimento. O ressurgimento deste pássaro justifica por isso o nome de ave-do-verão que muitos brasileiros lhe puseram. [...]". DESCOURTILZ, J. Th.  (1796-1855). História natural das aves do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983. p. 115-116.
 
 
 
Araponga (Procnias nudicollis) ave branca à  direita.
Ilustração de DESCOURTILZ, J. Th.  (1796-1855).
 História natural das aves do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983.


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