segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ninhal de garças


"A garça real, na alvura de suas penas e na sinuosidade de suas linhas de contorno, é dos mais belos ornatos destas paisagens ribeirinhas dos rios marajoaras. Quando a vemos à beira d´água, a projetar no espelho líquido sua silhueta esbelta, mais nos parece ver concretizado o que julgáramos criação imaginosa de pincel artista. Quando assustada pela embarcação que se avizinha, alça brandamente o voo, dando ao longo colo curvas estranhas, mas sempre graciosas, é majestosa e bela.
Pousada nas árvores, a contrastar a candidez da plumagem com o verde da ramaria, é como enorme magnólia a cujo peso balouçam os galhos em que descansam. Se isolada é graciosa, na multidão é importante, pois a larga envergadura multiplicada dezenas de vezes forma grande e cândida nuvem em que a luz do sol rebrilha intensamente.
A nidificação da garça real oferece espetáculo magnífico a quem lhe pode descobrir o local escolhido para esse fim. Não se encontra isolado o ninho da garça, como sucede com tantas outras aves. Sobre sítios tranquilos, longe do bulício das povoações ou mesmo das moradias das fazendas, as garças, na época instintivamente escolhido, começam a esvoaçar por  largo tempo. Sobem às alturas, fazem demoradas evoluções, sempre sobre o local escolhido e depois descem.
Torna-se então febril a atividade construtora dos ninhos. É um vaivém constante. Umas saem, outras regressam, sem se impedirem na faina. É como uma colmeia de grandes abelhas brancas que não repousam enquanto o dia não declina. Dentro em breve, os ninhos estão prontos e em cada ninho há 3 ovos. [...].
Observação interessante: as garças permitem que certas aves nidifiquem entre elas. São poucas essas privilegiadas e nem sempre são da família: há palmípedes que gozam dessas graças das garças". Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974). No estuário amazônico. 1976, p. 365.
 
 
 

Garças. (Detalhe)
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna  - Museu Goeldi

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