domingo, 7 de agosto de 2016

Um lugar pitoresco


"Um dos lugares mais pitorescos nos arredores de Belém é o banhado pelo rio Guamá, onde há florestas virgens que se estendem ao norte e ao sul da cidade. Gigantescos troncos de árvores aparecem naquelas solidões matagosas; ali se vêm a sapucaia (Lecythis) o pau d´alho, o bacuri, cujo tronco tem de cinquenta a sessenta pés de largura e cem pés junto às raízes. Essa magnífica vegetação encontra suas condições de desenvolvimento não somente nos raios ardentes de sol, mas também na umidade de que a terra está embebida. Aqueles colossos vegetais assemelham-se a déspotas, pois absorvem a vegetação de uma ordem inferior.
Encontram-se, frequentemente, naquelas florestas virgens, espaços bastante extensos, sem um arbusto, sem uma planta mais desenvolvida sequer. Mal se percebem algumas gramíneas, uma pequena liliácea de flores alvas, semelhante ao gladíolo, e, principalmente, muitas espécies de bromeliáceas e aróideas, entre as quais se distingue o Dracontium polyphillum, planta notável por sua haste da mesma cor da cobra cascavel. Vêm-se ali, pendentes do galhos de árvores, compridas hastes que se tomariam por cortiça e que são cachos de flores. Há uma espécie de sapucaia notável pela sua casca avermelhada, resistente, semelhante a um tecido grosso, que pode ser arrancada em grandes pedaços. Os índios se cobrem com essas cascas, para se protegerem dos insetos. Uma outra espécie do mesmo gênero tem a casca composta de compridos filamentos, muito resistentes, que batidos e amolecidos, servem para calafetar barcos e navios. Uma outra, ainda, a curatari, tem uma casca fina, vermelho-clara, que pode ser retirada em grandes pedaços, e das quais os índios se utilizam para fazer cigarros". Alcide d´Orbigny (1802-1857). Viagem pitoresca através do Brasil. 1976, p. 80.
 
 
 
Dracontium polyphillum L.
Botanical Register, v 9, t. 700 A (1823).
Desenho de M. Hart


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