sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Museu Goeldi publica nova edição do seu Boletim de Ciências Humanas


Museu Goeldi publica nova edição do seu Boletim de Ciências Humanas
 
O segundo número de 2016 trata das relações de grupos humanos com a natureza e a tecnologia
 
Está no ar a nova edição do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi - Ciências Humanas, do quadrimestre maio-agosto de 2016. É o segundo número da fase totalmente eletrônica de um dos periódicos científicos mais antigos do Brasil, cujo conteúdo pode ser acessado em site próprio e “folheado” no Issuu. A edição trata da relação entre as pessoas e a natureza, focando principalmente no uso de recursos naturais. 
A maioria dos artigos trata da pesca, discutida a partir do Amapá, na Amazônia, e de águas sergipanas e pernambucanas, do Nordeste brasileiro. São abordagens plurais sobre um mesmo ofício, que abarcam inclusive a perspectiva feminina, muitas vezes invisibilizada quando o assunto é pescaria. Tratada principalmente como meio de sobrevivência, a pesca é abordada também como meio de convivência, entre homens, mulheres e animais, em relações marcadas inclusive pela tecnologia.
Pesca e vida – A convivência é tema do artigo “Perspectivas do trabalho feminino na pesca artesanal: particularidades da comunidade Ilha do Beto, Sergipe, Brasil”, onde Mary Martins e Ronaldo Alvim discutem o “saber-fazer” de mulheres que conhecem tanto quanto – ou até mais que – os homens no quesito pescaria. Situação singular em um país onde esse “saber-fazer” pesqueiro é dominado por homens.
"Pescados, pescarias e pescadores: notas etnográficas sobre processos ecossociais”, de Cristiano Ramalho, mostra a interação entre homens, meio ambiente e tecnologia na caracterização da pesca e na definição do pescador. É em função dessa simbiose entre homem, mar e ferramentas que o autor define a pesca como um processo “ecossocial”, marcado também por relações de poder.
Já em “Pesca do Apaiari, Astronotus ocellatus (Agassiz, 1831), e perfil socioeconômico dos pescadores artesanais de uma região da Amazônia Brasileira”, Márcia Daaddy e coautores traçam o perfil de pescadores do interior do Amapá, que vivem da pesca do apaiari, espécie que os alimenta e provê o sustento, graças à comercialização. A pesca, então, é fonte de subsistência para essas populações.
Subsistência – “Mobilidade, subsistência e apropriação do ambiente: contribuições da zooarqueologia sobre o Sambaqui do Bacanga, São Luís, Maranhão”, de Arkley Bandeira e coautores, analisa os padrões de mobilidade humana a partir dos modelos de subsistência e de apropriação do meio ambiente por populações pretéritas. Para tanto, identifica vestígios de animais que compunham a dieta desses grupos nos sambaquis do litoral maranhense, particularmente o do Bacanga.
Marie Fleury também discute subsistência em Agriculture itinérante sur brûlis (AIB) et plantes cultivées sur le haut Maroni: étude comparée chez les Aluku et les Wayana em Guyane Française. O texto apresenta análise de práticas de cultivo entre as sociedades Maroons, da Guiana Francesa, produzindo conhecimento sobre a subsistência na fronteira com o Norte Brasileiro. 
A relação entre pessoas e natureza também aparece em uma perspectiva estética, com a apropriação da pedra para produção de adornos corporais, cuja comercialização permitiu o contato com outros grupos humanos. Eis o assunto do artigo “Adornos corporais em Carajás: a produção de contas líticas em uma perspectiva regional”, de Catarina Falci e Maria Jacqueline Rodet, no qual as autoras apontam evidências da existência de uma cadeia produtiva desses elementos no início do período conhecido como “Nossa Era”.
Rural e urbano – A dicotomia entre rural e urbano é problematizada por Júlia Côrtes e Álvaro D’Antona em “Fronteira agrícola na Amazônia contemporânea: repensando o paradigma a partir da mobilidade da população de Santarém – PA”. Os autores concluem que a chegada do agronegócio alterou a dinâmica demográfica da região de Santarém, marcada não apenas pelo êxodo rural, mas também pelo retorno de emigrantes devido a questões como relações familiares e identidades junto ao lugar.
O rural e o urbano também são o pano de fundo para o artigo “Belém e o mundo natural: olhares de viajantes sobre plantas e animais na urbe amazônica (1840-1860)”. Luciano Lima mostra o caso dos viajantes europeus que desembarcaram em Belém não apenas para descansar ou, a partir dessa cidade, se deslocar para a Floresta Amazônica, mas para estudar as várias espécies de animais e plantas encontradas na própria urbe.
Também consta da edição um olhar antropológico sobre um herbário, enxergando-o para além do seu patrimônio material, como espaço de trocas e de sociabilidades. Trata-se do texto “Memória social e patrimônio cultural: a transmissão de práticas científicas em um herbário brasileiro”, de Sonia Piccinini e coautores. O novo número encerra com a resenha de Sabine Reiter para o livro “Huni kuin hiwepaunibuki: a história dos caxinauás por eles mesmos”, conjunto de texto em caxinauá, português e espanhol sobre a etnia Caxinauá, habitante da fronteira Brasil – Peru.  
Mudanças editoriais – O número atual marca a renovação do Conselho Científico e do Corpo de Editores Associados do periódico. O processo editorial passou à condução de Jimena Felipe Beltrão, atual editora científica do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, em sucessão a Hein van der Voort.
Texto: Antonio Fausto, Núcleo Editorial/MPEG
 
 
 
 

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