quinta-feira, 17 de março de 2016

Pica-paus lentos de cabeça rubra


"[...]. No ar, em volteios de quem espia a presa, constatou alguns gaviões coloridos, de bicos recurvos e garras aduncas, planando no mesmo nível de urubus pretos necrófagos, sinistros; nas árvores ribeirinhas, além do anu escuro, comedor de carrapato, observou outro gavião, o acauan, meio águia e meio bruxo, devorando cobra como um gênio tutelar do homem, mas, do mesmo passo, obrigando por um pio expressivo, certos sujeitos a chocarem pedra, a levantarem os braços como galinhas no ninho, e a exclamarem: - acauan!, acauan!
Nas copas altas, invisíveis, descobriu os uirapurus e carachués, atraentes hipnotizadores os primeiros, maviosos e sedutores os segundos. Pelos galhos, do tamanho de perus, saltando, negros e luzidios como se tivessem penas de aço, bicos em fava encarnada, descortinou mutuns ariscos, medrosos, que engolem pedra, alfinetes, agulha, prego. Voando assustados com o estalido dos sacaís, assinalou graúnas trigueiras, alheias ao carinho materno, insensíveis às ternas bicadas da prole, e que deitam os ovos nas balouçantes bolsas pardas e pendentes das franças redondas, ninhos de japiins para, que estes lhe criem e adotem os filhos; tucanos de cores vivas, de bicos enormes, leves, de costumes e hábitos lentos, tardios, indiferentes, que os tornam entre as aves o que a preguiça é entre os mamíferos, analogia que faz recordar, pela irrequietude, pela curiosidade, pela instabilidade outra, descoberta pelos zoólogos: a do papagaio com o macaco, e mais outra ainda, conjugada ao apuro do faro é a voracidade carnívora: a piranha com o tigre. Cruzavam-lhe o raio visual pica-paus lentos, de cabeça rubra, batendo nos caules com passos ouvidos à distância. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930, p 45-46.
 
 
 
Pica-paus (Picus albirostris).
 Johann Baptist von Spix (1781-1826). Avium Species Novae, 1825.
Acervo Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi.
 


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