terça-feira, 23 de setembro de 2014

Viajantes: A floresta tropical e suas flores.


"Agora, uma palavra sobre as flores. Pudesse um naturalista reproduzir numa pujante descrição toda a alegria das flores, borboletas e aves que tivesse encontrado na bacia amazônica durante um ano de excursões, e sem dúvida iria produzir um trabalho extremamente fascinante. Por outro lado, iria iludir seus leitores, levando-os a crer que mesmo a décima parte dessas belezas pudesse ser contemplada de um só golpe de vista, ou que fosse em visões sucessivas, no espaço de tempo de um dia. Depende muito de se estar num determinado local no exato momento em que ao menos parte delas estivesse prestes a atingir seu máximo estágio de perfeição e que elas aí ocorressem em profusão. Ademais, o efeito nem sempre é o mesmo, uma vez que depende do gosto pessoal do observador. Para o naturalista, o mero fato de se tratar de algo novo e estranho por si só o reveste de uma beleza particular independente de considerações estéticas. No meu caso pessoal, confesso que, embora seja um admirador apaixonado da beleza das formas e cores, e que sinta uma atração quase sensual com relação aos aromas requintados, minhas lembranças mais deleitosas são as dos cenários mais caracterizados pela novidade.
Mas nada dissemos ainda sobre as flores. Sirva de consolo informar que, no caso das árvores amazônicas, as flores costumam chamar tão pouco a atenção, seja por seu tamanho diminuto, seja por sua coloração verde imitando a das folhas, que ninguém, senão um botânico, iria deter-se para contempla-las. Há, sem dúvida, muitas honrosas exceções, mas só alguns anos depois de ter deixado o Pará e transposto o divisor setentrional da bacia amazônica foi que constatei aquilo que já imaginava: que as flores mais deslumbrantes deveriam desabrochar nas árvores mais altas da floresta".
Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 62.
 
 
 

Flores silvestres do Brasil
Pintura de Marinne North (1830-1890).
www.kew.org.

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