terça-feira, 3 de julho de 2018

Vigilengas


"Quem rompe do Atlântico, canal de Bragança a dentro, diretriz de Belém, começa a ver pintalgada de velas brancas e vermelhas a vastidão crespa das águas. São os barcos de gado, as canoas de farinha, as palhabotes de tabaco, as igarités de caranguejo, as embarcações, em suma, que abastecem, idas da região do salgado e da contra costa marajoara, à capital paraense. Entre elas avista-se um tipo que, por abundante e esquisito, chama logo a atenção:  é a vigilenga, oriunda dos estaleiros inartísticos da Vigia, que espalharam nos meandros potâmicos do golfo amazônico esse modelo inestético. Pintada de negro, pequena tolda à ré, boca aberta, um a dois latinos, que se não fosse a cor vermelha lembrariam asas de morcego, quase redonda, proa e popa toradas e fechadas por duas rodelas, cinco a dez toneladas de deslocamento, cruza todas as baías perdidas entre o litoral bragantino e as orlas de Marajó, indo mesmo, atrevidamente, mar em fora, até as regiões arriscadas das costas guianensis. [...].
Trafega na faina da pescaria a espinhel, com o qual  apanha o filhote, a piraíba, o dourado, a gurijuba, a piramutaba, o bacu. Sua guarnição de paraenses da gema, bisnetos, netos, filhos de pescadores, é composta de latagões vermelhos e morenos, da cor da bujarrona, tisnados ao lume do sol e endurecidos ao fragor da tormenta. Depois de lhe suspender a âncora ou a poita, a equipagem, afeita ao mormaço e ao relento, chega-se à amurada de barlavento; e o piloto, reclinado no painel da popa, nu da cintura para cima, atracado à cana do leme, não deixa transparecer se está acordado ou dormindo, tão indiferente se mostra aos trambolhões da veleira, que sobe na crista da onda, cai no abismo da vaga, empina-se, arfa, guina, corcova como um cavalo brabo.
Sem bússola, sem sextante, sem barquinha, esse palinuro navega olhando em torno, ora elevando, ora baixando a vista, fiado no brilho das estrelas, no assobiar da monção, no voo dos pássaros, no flutuar dos gravetos. Panteísta, adorador da natureza, nada o altera. Sol, chuva, calmaria, trovoada, pampeiro, tempestade, furacão, a tudo ele assiste sem exaltamentos maiores que as atitudes costumeiras. [...]". Raimundo Morais (1875-1941). Na planície amazônica. 2000, p. 61-62.


Vigilengas no Mercado Ver-o-Peso - Belém -Pará
Desenho de Percy Lau (1903-1972)








Um comentário:

  1. Fantástico. Gostaria de ver as vigilengas na travessia do Marajó a Belém. Seria até um bom passeio turístico....sem pressa...

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