quinta-feira, 14 de julho de 2016

O Tucano-de-Bico-Preto


"A primeira vista, as espécies do gênero a que pertencem os tucanos nada inspiram a seu favor. Aquele bico de tamanho desmesurado parece incomodar a ave com o seu peso ou dá ideia de uma arma defensiva. Nada mais inexato. Tal trambolho, dando à fisionomia do tucano um ar tão estranho, é internamente constituído por células de paredes membranosas e extremamente leve. E nada há a temer do bico que mal consegue dar pequeno apertão na mão de quem apanhe uma dessas aves ao cair ferida. [...].
O tucano-de-bico-preto, notável pelo seu bico cor de ébano com bordos lisos, ostenta na base superior do mesmo uma faixa azul que se esvai após a morte da ave. É o mais procurado pelos naturais por causa da viva cor de laranja que ostenta na região da garganta. [...].
Vive em bandos de quatro a dez indivíduos e percorre as florestas onde crescem as bicuíbas, as caneleiras, as mirtáceas e os palmitos.
O amadurecimento dos frutos deste último vegetal é o índice mais seguro da época em que aparecerão os tucanos, pois nas outras quadras do ano, de novembro a fevereiro, é o período em que esta espécie viaja de montanha a montanha ou ganha a espessura das grandes matas para construir seu ninho. [...].
O voo desta ave não é longo, e é feito em linha sinuosa, elevando-se aqui e mergulhando acolá, como o do pica-pau verde da Europa. Um pouco depois de se levantar o sol e um tanto antes dele se recolher, juntam-se os tucanos-de-bico-preto em uma grande e desfolhada árvore, para numa cantoria em conjunto, verdadeira gritaria em tom agudo, na qual cada um procura gritar mais do que o outro e assim ficar até que a noite chega e os convida a procurar abrigo". J. Th. Descourtilz (? -1855). História natural das aves do Brasil. 2. ed. 1983, p. 58.
 
 
 
 
J. Th. Descourtilz
História natural das aves do Brasil
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu  Goeldi


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