segunda-feira, 25 de julho de 2016

O reino da Victoria regia


"[...]. Mas tanto nos rios de água branca como nos rios  de água preta, essa flora da várzea está sempre sujeita ao regime das enchentes e, consoante as sobras que lhe manda o rio e os acidentes do terreno, viverá  com água até a cinta por boa parte do ano. Igapós maiores ou menores serão justamente os baixios marginais, de drenagem precária e onde a vegetação vive quase permanentemente inundada. Não raro, tal seja a depressão do terreno, a água subirá a alguns metros de altura, num lençol corrido por grandes extensões e sobre o qual, sempre por igarapés, lagos e igapós, far-se-ão longas viagens de canoa, sem que preciso seja procurar uma só vez a calha natural dos rios, como dizem pode ser feito à margem direita do Amazonas, da boca do Tapajós até Coarí, já no Solimões, ou então, agora pela margem esquerda da foz do rio Negro até o Putumaio, umas duzentas léguas acima. E nada mais encantador do que um desses percursos, que não raro nos colocarão quase no mesmo plano da copa do arvoredo, com orquídeas a se nos oferecerem, frutos ao alcance da mão, pássaros cantando ao nosso ouvido e toda a bicharada bem pertinho.
Se ainda, navegando por esse dédalo fluvial da Amazônia, que no dizer de Agassiz é um arquipélago num oceano de água doce, entrarmos por qualquer furo ou igarapé que nos conduza a um dos seus inúmeros lagos, onde, ao contrário dos igapós sombrios, o sol bata de chapa sobre a superfície do espelho líquido, então estaremos em pleno reino da vitória-régia, com o seu séquito de mururés, aguapés, golfos e outros nomes que se deem às plantas aquáticas, sobre as quais brincam jaçanãs e esvoaçam jacinas de asas irisadas. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hileia amazônica. 2. ed. 1955. p. 12-13.
 
 
 
Victoria regia.
 Lithograph by Ernst Heyn, 1892.


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