quarta-feira, 15 de março de 2017

O encanto da paisagem


"[...]. No chão, ao nível da água, viam-se numerosos arbustos em flor, muitas vezes inteiramente recobertos de convolvuláceas, passifloráceas ou bignônias. Os troncos caídos e semi-apodrecidos eram revestidos de parasitas de singulares aspectos, algumas belamente floridas. Atrás delas, no interior da floresta, pequenas palmeiras formavam o fundo do cenário, com seus caules curiosamente conformados e envolvidos pelos mais diversos tipos de cipós.
Não faltavam os seres animados para completar o quadro. Araras de brilhantes penugens escarlates e amarelas passavam voando continuamente por sobre nossas cabeças, enquanto os barulhentos papagaios e periquitos iam de uma árvore para outra em busca de alimento. Viam-se por vezes sobre as águas, suspensos dos galhos das árvores, os ninhos dos japins amarelos [...], perto dos quais voejavam seus donos, neles entrando ou deles saindo continuamente. Realçava o efeito visual o fato de que as cenas sucediam-se umas atrás das outras, à medida que seguíamos pelos meandros do igarapé, numa contínua variedade de paisagens. Passada uma curva, deparávamos com um bando de elegantes garças brancas, pousadas num tronco caído que se projetava da margem sobre as águas. Logo que nos avistavam, as garças alçavam voo e fugiam, mas nós as víamos de novo na curva seguinte, e depois na próxima, e assim por diante durante boa parte do percurso. Vimos também muitas borboletas de cores alegres, pousadas nos arbustos em flor. E de vez em quando, num trecho lamacento da margem, avistávamos um preguiçoso jacaré que repousava ao sol". Alfredo Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas Negro. 1979, p. 70.



Garças.
Pintura de Jessie Arms Botke (1883 -1971)
 

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