terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um silêncio sinfônico na mata


"[...]. A princípio, ainda os olhos fixavam o revestimento deste tronco e de outro, e outro, e outro, mas, depois, abandonavam-se ao conjunto, porque não havia memória nem pupila que pudesse recolher tão grande variedade. Só de frutos que não se comiam e apodreciam na terra porque nunca ninguém se arriscaria a saber se eles davam apenas volúpia ou também intoxicação, havia mais espécies do que todas as que se cultivavam em pomares europeus. [...].
E por toda a  parte o silêncio. Um silêncio sinfônico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que dir-se-ia estar a selva em êxtase.
Às vezes, era certo, uma imprevista e pânica restolhada de folhas e asas levava Alberto a parar e a agarrar-se, instintivamente, ao braço do companheiro.
- É um inhambu -  explicava Firmino, sorrindo.
Mais adiante, um lagarto, correndo sobre a folhagem morta, de novo o galvanizava.
Mas o silêncio volvia. E, com ele, uma longa, uma indecifrável expectativa. Parecia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de uma presa maravilhosa e incognoscível.
Passavam, no ar, bandos palradores de papagaios e maracanãs, agora e logo o grito agudo duma ave - grito de pavão em parque abandonado - caía de árvore distante e vinha reboando até cá embaixo. Tudo isso, porém, era relâmpago em dia de sol, porque o silêncio e a expectativa voltavam com rapidez, numa imposição que devia ser eterna. [...]". Ferreira de Castro (1898-1974). A Selva. 1937, p. 93-94.
 
 
 
Jacu - Aracuã - Inhambus diversos - Sururina - Uru - Capoeira.
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)


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