domingo, 20 de julho de 2014

Viajantes: Uma ave de gênio lépido e atirado: O Bem-te-vi.


"Uma das aves que desde o primeiro dia nos impressionam pelo seu porte e provocam logo a atenção do amigo da natureza no Brasil é o Bem-te-vi. É um tipo garrulo, sacudido, e repara em tudo que se passa à volta, escarnece, insere em tudo seu comentário e sem modos ariscos, sabe arranjar-se próximo das habitações humanas soltas no meio da mata virgem. O ponto que escolhe de preferência para observatório é um galho livre, o topo de uma árvore, e dali aplica o bico para qualquer cascudo que aponte no caminho. Muito gracioso é o modo por que se porta quando se encontra com um bom amigo: então bate com as asas, arrepia propositalmente as penas do cocuruto, e não há findar estes alvoroços de amizade quando três ou quatro deles metem-se por uma conferência amigável. Com voz estridente repetem-se vezes sem conta a forma estereotipada de saudação, muito prolongada na última sílaba. E, para que não fique rouco de tanto gritar, aparelhou-o a alma mater dentre toda sua parentela, a que a ciência um belo dia emprestou o nome pouco lisonjeiro de Tyrannides, aparelhou-o de músculos fortíssimos na garganta, como ficou provado pelas investigações de Johannes Mueller, meritório zoólogo de Berlim.
Burmeister parece ter ficado aborrecido com esta ave, pois xinga o seu "grito de afinal não mais interessante, de por tantas vezes e por tantos modos repetido". Pessoalmente gosto muito do Bem-te-vi por seu gênio lépido e atirado, e muitas vezes foi-me agradável sua companhia, quando, à borda da mata, jazia no  capim à espera das coisas que podiam vir". Emílo A. Goeldi (1859-1917). Em: IHERING, R. von. As aves úteis: o tagarela Bem-te-vi. Chacaras e Quintaes, v. 19, n. 3, p. 194-195,1919.
 
 
Bem-te-vi ou Pitanguá (Pitangus sulphuratus)
Ilustração de J. Th. Descourtilz (?-1855).


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