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Literatura: No sossego da floresta deserta

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João Peregrino da Silva Junior (1898-1983), jornalista, médico e escritor brasileiro, em seu livro A mata submersa e outras histórias da Amazônia . 1960. p. 65, descreve a floresta durante à noite e o  barulho que ocorre dentro dela.      Dentro do sossego da floresta deserta, o silêncio povoado de fantasmas abre as suas negras asas aterradoras. No quiriri da mata virgem, onde o estalido das folhas secas dança entre os estrilos das ciganas e dos grilos, ao ritmo melancólico da onomatopeia dos sapos e das corujas, dos caburés e das guaribas dos tucanos, dos nhambus, dos arapapás e araçaris. Adormece como um monstro da floresta o silêncio da noite tropical. O por do sol começa às quatro da tarde e às seis já é noite cerrada. Perto da mata, à beira do igarapé, debruça sobre o espelho negro das águas mansas o rancho de palha que agacha-se, transido de terror à sombra pesada do crepúsculo que o esmaga. Selva amazônica br.pinterest.com

Literatura: Os travessos e irrequietos japiins.

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J osé Veríssimo (1857-1916), escritor, educador, jornalista e estudioso brasileiro,  em seu livro Cenas da vida amazônica, 2011, em edição organizada por Antônio Dimas, relata cenas interessantes sobre o pássaro japiim e seus ninhos:      Pelo céu passam gritando alegremente, bandos de marrecas e nuvens de verdes de papagaios tagarelas e periquitos estrídulos; os canários da terra, amarelos como gemas d´ovo, de cujo tamanho são, chilreiam nos arbustos as suas cançonetas de uma frescura cristalina e pura; das mongubeiras, donde pendem, como grandes frutas pardas os ninhos dos japiins, estes passarinhos travessos, irrequietos, espalham em roda a sua melodiosa algazarra, brilhando por entre o verde das folhas e o escuro dos ninhos com a sua vivíssima cor amarela, realçada sobre o negro lustrosíssimo  . J apiim Álbum de aves amazônicas 1900-1906 Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)

Literatura: Um interminável viveiro de plantas aquáticas.

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O romancista português José Maria Ferreira de Castro (1898-?), trabalhou em um seringal na Amazônia, e dessa árdua experiência, surgiu, muitos anos depois, o romance A Selva , editado em Portugal. Aqui, um trecho desse livro, registrado por Ferreira de Castro em uma segunda edição da obra publicada em 1937.     Ainda mais adornos povoavam a água preguiçosa na marcha, a água grossa e barrenta: o mururé, a aninga, o muri, as ilhas da canarana que se desprendera das margens - um interminável viveiro de plantas aquáticas e vagabundas, perante as quais são pobres e tristes todos os nenúfares do Oriente. esta levava as folhas coladas à água, formando ninho vede e macio; aquela, erguia as palmas para o céu deixando que a luz lhe traspassasse o recorte fantástico - e iam outras, ainda que vogavam ligados entre si, constituindo colônia e plinto errante de garças melancólicas. Plantas aquáticas na Amazônia - Pinterest-Brasil          

Viajantes: Uma linda Gustavia branca

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M argaret Mee (1909-1988) artista e botânica, em uma de suas viagens à Amazônia, registrou em seu livro Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, seu encontro com uma Gustavia de flores brancas, a qual está ilustrada por ela, na mesma obra.    Uma enorme lua surgiu nesse paraíso de tranquilidade, silencioso, não fosse o coral de sapos e lamentos tristes das corujas e pássaros noturnos. Foi nesse local que ouvi pela primeira vez o mais incrível lamento de um pássaro noturno: o da saracura.      Iniciei o dia seguinte com uma bela coleção de plantas e sementes do Bombax munguba e seus grandes tubérculos roxos repletos de paina, onde se alojavam as sementes muito procuradas por papagaios.     Apesar de as águas terem permanecido turbulentas, consegui colher uma linda Gustavia branca com o miolo laranja. Tive muita dificuldade para pintar as flores tão delicadas, pois o barco balançava muito devido ao forte vento. Gustavia sp. Margaret Mee (1909-1988) ...

Viajantes: Os mais belos araçaris

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Alfred Russel Wallace (1823-1913) , relata  em seu livro Viagens pelo Amazonas e rio Negro . 2004. p. 235,  seu encontro com um dos mais belos araçaris, os araçaris de crista anelada.         Pela manhã, durante uns pares de horas, eu saía com a rede para capturar insetos.      Próximo do rio, nas margens, onde as águas da vazante deixavam depositado o barro que transportam, encontrava algumas espécies raras de borboletas, que pousava em tais lugares.    O araçari ou pequenos tucanos de várias espécies, eram abundantemente encontrados ali.      Os mais belos e mais raros são os araçaris de crista anelada, cuja cabeça se cobre de pequenos anéis listrados e são de uma substância muito mais semelhante a espinhos de pontas metálicas do que mesmo a penas.    Essas aves, por vezes, são abundantemente encontradas ali, porém só se veem algumas semanas após o aparecimento das outras espécies. Araçaris  John...

Literatura: Uma sinfonia de perfumes!

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Raimundo Morais (1872-1941), autor de vários livros sobre à Amazônia, comenta em seu romance Os Igaraúnas . 1985. p. 148-149, sobre a época em que desabrocham as flores e seus perfumes invadem a floresta.            [...]. Aí, nessa quadra pitoresca e risonha a hileia matiza-se de flores. Gritam o vermelho e o amarelo na umbela das árvores. É uma festa da natureza presidida por alguma divindade silvestre. Os paus d´arco se cobrem de ouro e violeta. Os cipós enfeitam-se de corolas. As orquídeas explodem em ramalhetes, em buquês, em cachos de campainhas e cálices brancos, roxos, pintados, róseos. O cheiro que se exala dessas caçoletas aéreas, entornando fragrâncias no éter, guarda a sutileza de essências de serralhos e de templos. Em certos recantos da selva, sobretudo na muralha de verdura das beiradas, a floração é tão alta que evoca um jardim de gigantes, pois as Catléias e as Catasetuns desabrocham lá nos frisos superiores. Os litorâneos taxizeiros, ...

Viajantes: As palmeiras na Amazônia

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Herbert H. Smith (1851-1919), pesquisador norte-americano, veio ao Brasil em 1870 com o geólogo Charles Frederick Hartt e, alguns anos mais tarde, passou dois anos nos arredores de Santarém-Pa, explorando os tributários da margem esquerda do rio Amazonas, escrevendo posteriormente  o livro: Brasil : a Amazônia. 2. ed. 2022, de onde é retirada essa citação sobre as palmeiras:           Quem quer que enxergue sentirá sua alma comovida pela maravilhosa beleza da vegetação. Não se vê um pedaço de chão; direita, surgindo da água, a floresta se levanta como uma parede-densa, escura, impenetrável, cem pés de esplendorosa vegetação. E, aparecendo por toda parte, no meio desse acúmulo de plantas, milhares de palmeiras. Pois as palmeias têm o seu habitat; em nenhum outro lugar da terra sua glória se exibe como nestes ermos. Macios e plumosos jupatis (Raphia taedigera), debruçados sobre a água; açaí (Euterpe edulis) com a leveza de plumas e buçus (Manicaria sacci...