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Viajantes: orquídeas que encontrei em um igapó

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          Em uma outra região mais aberta do igapó, um magnífico ipê-roxo sobressaia com sua copa maciça de flores. No alto do tronco branco havia duas enormes bromélias com folhas em formato de ânfora, de onde surgiam inflorescências corais. As plantas estavam em local muito elevado para serem alcançadas. Procurei por uma planta que estivesse ao alcance e encontrei três, porém sem flores. Havia muitas outras plantas a serem colhidas nesse local, pois esse igapó era um dos mais protegidos e férteis em epífitas que eu já tinha visto. As jarás cresciam entre os pau-d´arco, as cuíras e grandes árvores de madeira sólida. Durante nossa estada, um índio  presenteou-me com uma orquídea interessante, um labelo listrado, Catasetum discolor, enquanto remava sua canoa. Ao amanhecer, continuei adicionando Catasetuns e outras orquídeas, incluindo a adorável Aganisia cerulea, com inúmeras flores azuis à minha enorme coleção de espécies. FONTE: MEE, Margaret. Flores ...

Literatura: No sossego da floresta deserta

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João Peregrino da Silva Junior (1898-1983), jornalista, médico e escritor brasileiro, em seu livro A mata submersa e outras histórias da Amazônia . 1960. p. 65, descreve a floresta durante à noite e o  barulho que ocorre dentro dela.      Dentro do sossego da floresta deserta, o silêncio povoado de fantasmas abre as suas negras asas aterradoras. No quiriri da mata virgem, onde o estalido das folhas secas dança entre os estrilos das ciganas e dos grilos, ao ritmo melancólico da onomatopeia dos sapos e das corujas, dos caburés e das guaribas dos tucanos, dos nhambus, dos arapapás e araçaris. Adormece como um monstro da floresta o silêncio da noite tropical. O por do sol começa às quatro da tarde e às seis já é noite cerrada. Perto da mata, à beira do igarapé, debruça sobre o espelho negro das águas mansas o rancho de palha que agacha-se, transido de terror à sombra pesada do crepúsculo que o esmaga. Selva amazônica br.pinterest.com

Literatura: Os travessos e irrequietos japiins.

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J osé Veríssimo (1857-1916), escritor, educador, jornalista e estudioso brasileiro,  em seu livro Cenas da vida amazônica, 2011, em edição organizada por Antônio Dimas, relata cenas interessantes sobre o pássaro japiim e seus ninhos:      Pelo céu passam gritando alegremente, bandos de marrecas e nuvens de verdes de papagaios tagarelas e periquitos estrídulos; os canários da terra, amarelos como gemas d´ovo, de cujo tamanho são, chilreiam nos arbustos as suas cançonetas de uma frescura cristalina e pura; das mongubeiras, donde pendem, como grandes frutas pardas os ninhos dos japiins, estes passarinhos travessos, irrequietos, espalham em roda a sua melodiosa algazarra, brilhando por entre o verde das folhas e o escuro dos ninhos com a sua vivíssima cor amarela, realçada sobre o negro lustrosíssimo  . J apiim Álbum de aves amazônicas 1900-1906 Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)

Literatura: Um interminável viveiro de plantas aquáticas.

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O romancista português José Maria Ferreira de Castro (1898-?), trabalhou em um seringal na Amazônia, e dessa árdua experiência, surgiu, muitos anos depois, o romance A Selva , editado em Portugal. Aqui, um trecho desse livro, registrado por Ferreira de Castro em uma segunda edição da obra publicada em 1937.     Ainda mais adornos povoavam a água preguiçosa na marcha, a água grossa e barrenta: o mururé, a aninga, o muri, as ilhas da canarana que se desprendera das margens - um interminável viveiro de plantas aquáticas e vagabundas, perante as quais são pobres e tristes todos os nenúfares do Oriente. esta levava as folhas coladas à água, formando ninho vede e macio; aquela, erguia as palmas para o céu deixando que a luz lhe traspassasse o recorte fantástico - e iam outras, ainda que vogavam ligados entre si, constituindo colônia e plinto errante de garças melancólicas. Plantas aquáticas na Amazônia - Pinterest-Brasil          

Viajantes: Uma linda Gustavia branca

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M argaret Mee (1909-1988) artista e botânica, em uma de suas viagens à Amazônia, registrou em seu livro Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, seu encontro com uma Gustavia de flores brancas, a qual está ilustrada por ela, na mesma obra.    Uma enorme lua surgiu nesse paraíso de tranquilidade, silencioso, não fosse o coral de sapos e lamentos tristes das corujas e pássaros noturnos. Foi nesse local que ouvi pela primeira vez o mais incrível lamento de um pássaro noturno: o da saracura.      Iniciei o dia seguinte com uma bela coleção de plantas e sementes do Bombax munguba e seus grandes tubérculos roxos repletos de paina, onde se alojavam as sementes muito procuradas por papagaios.     Apesar de as águas terem permanecido turbulentas, consegui colher uma linda Gustavia branca com o miolo laranja. Tive muita dificuldade para pintar as flores tão delicadas, pois o barco balançava muito devido ao forte vento. Gustavia sp. Margaret Mee (1909-1988) ...

Viajantes: Os mais belos araçaris

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Alfred Russel Wallace (1823-1913) , relata  em seu livro Viagens pelo Amazonas e rio Negro . 2004. p. 235,  seu encontro com um dos mais belos araçaris, os araçaris de crista anelada.         Pela manhã, durante uns pares de horas, eu saía com a rede para capturar insetos.      Próximo do rio, nas margens, onde as águas da vazante deixavam depositado o barro que transportam, encontrava algumas espécies raras de borboletas, que pousava em tais lugares.    O araçari ou pequenos tucanos de várias espécies, eram abundantemente encontrados ali.      Os mais belos e mais raros são os araçaris de crista anelada, cuja cabeça se cobre de pequenos anéis listrados e são de uma substância muito mais semelhante a espinhos de pontas metálicas do que mesmo a penas.    Essas aves, por vezes, são abundantemente encontradas ali, porém só se veem algumas semanas após o aparecimento das outras espécies. Araçaris  John...

Literatura: Uma sinfonia de perfumes!

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Raimundo Morais (1872-1941), autor de vários livros sobre à Amazônia, comenta em seu romance Os Igaraúnas . 1985. p. 148-149, sobre a época em que desabrocham as flores e seus perfumes invadem a floresta.            [...]. Aí, nessa quadra pitoresca e risonha a hileia matiza-se de flores. Gritam o vermelho e o amarelo na umbela das árvores. É uma festa da natureza presidida por alguma divindade silvestre. Os paus d´arco se cobrem de ouro e violeta. Os cipós enfeitam-se de corolas. As orquídeas explodem em ramalhetes, em buquês, em cachos de campainhas e cálices brancos, roxos, pintados, róseos. O cheiro que se exala dessas caçoletas aéreas, entornando fragrâncias no éter, guarda a sutileza de essências de serralhos e de templos. Em certos recantos da selva, sobretudo na muralha de verdura das beiradas, a floração é tão alta que evoca um jardim de gigantes, pois as Catléias e as Catasetuns desabrocham lá nos frisos superiores. Os litorâneos taxizeiros, ...