domingo, 15 de março de 2015

Os músicos da selva!



"Em nenhum outro lugar do mundo existem tantas aves canoras como nas florestas. A natureza, aí, é uma orquestra. Seus instrumentos são as lufadas agitadas dos ventos, o tamborilar da chuva, o farfalhar das folhas. Os insetos acompanham em surdina. O baixo é representado pelo coaxar dos sapos. E os solistas são os pássaros canoros.
Raramente existe silêncio completo na mata. Mesmo ao meio-dia, quando a maioria dos animais da floresta se esconde do sol, ainda se ouve o zumbir das abelhas e das moscas de cores álacres, assim como o coro dos sapos.
Quando a névoa matinal começa a ceder lugar aos raios do sol, as vozes das aves penetram a floresta. Os insetos despertam para a vida. As borboletas, e entre elas as grandes "Morphos", azuis e brancas, batem as asas, vibram as extremidades delas e levantam voo nas sombras das verdes mansões. Os pássaros solistas despertam cantando. Às cinco horas ouve-se a voz de uma pomba, que parece dizer, em nossa língua "Maria, já é dia!". De repente a calma da floresta é ferida pelo som de um sino. É uma nota tão pura e límpida que todos os que a ouvem ficam certos de que alguém anda a bater um sino do mais melodioso tom. O próprio Orfeu, sem dúvida, deixaria cair sua flauta para escutar tão belo som. Este vem de um pássaro bonito e todo branco, uma araponga, pertencente a família dos Cotingídeos, que também encerra o galo da serra e o pavão-da-mata. [...].

 
Araponga à direita
J. Th. Descourtilz.
 História natural das aves do Barsil. 1983.

 
 
Logo outras vozes se reúnem ao coro da mata. Pode-se ouvir, ao longe, o canto do "realejo", de notas tão melodiosas que vocês jurariam ter entrado na floresta algum tocador de sinfonias. [...].

Durante o dia há verdadeiro desfile de pássaros, cada qual entoando  um canto todo seu. São os "surucuás" bronzeados e de tintas vermelhas, as "ciganas" e as rubras "guarás", ou "Íbis". São os mutuns de cor preta lustrosa, os perus da selva. Garças brancas, como  fantasmas, ou cinzentas. Também desfilam patos, pica-paus, tangarás, ferreiros e pombas. Todas essas aves despertam com o cantar dos músicos da selva.
 
Surucuás
J. Th. Descourtilz.
História natural das aves do Barsil. 1983.


 
Ao meio dia pode-se ouvir o jacamim. Dominando o chiar das cigarras surge o som estridente de um clarim, que termina em verdadeira risada. Seguindo na direção dessa música, acabaremos por encontrar o jacamim, que os índios chamam de agami. [...].
Às vezes o jacamim toca a sua corneta para denunciar o perigo. Outras, por mero divertimento. Mau voador, tem de contar apenas com as pernas compridas para fugir ao perigo. [...].
Quando o dia se aproxima do fim, ouve-se o alarido dos papagaios e o surdo coaxar dos sapos. E surge também a voz do uirapuru todo cheio de pintas, e cujo canto lembra o tinir de uma caixinha de música. De tão suaves e modulados, os sons parecem provir de um violino. Criada por um músico invisível da selva, essa música deixa-nos como enfeitiçados.
 
 
Uirapuru-verdadeiro.
Brasil 500 pássaros. 200
Desenho de Antônio Martins






E não tarda a aparecer o pio da coruja, saído do fundo da noite, já escura com o seu mistério. E agora, quando a selva está em paz, só as cigarras e rãs continuam a tocar música. Mais tarde, na calada da noite, apenas se ouve o marulho das águas. Os músicos foram dormir, acabaram-se os cantos. [...]. Victor W. von Hagen (1908-1985). Animais da América do Sul. s.d. p. 97-100.

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